A Solitária

Solitária.


Elogio a Loucura (Èlogede la folie - Erasmo de Rotterdam, 1497/98)


A loucura fala

Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dais, mesmo pelos que são mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.

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Com efeito, , há algo de mais natural do que ver a Loucura exaltar seu próprio mérito e cantar ela própria seus louvores? Quem poderia melhor do que eu pintar-me tal como sou? A menos que haja alguém que pretenda conhecer-me melhor do que me conheço eu mesma.  

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O discurso que vou fazer não será premeditado nem estudado; assim, portanto conterá menos mentiras. Não acrediteis, porém, que o que digo seja uma dessas artimanhas que os oradores empregam geralmente para enaltecer seu espírito. Estes, como sabeis, depois de terem trabalhado trinta anos num discurso, ás vezes  plagiando em sua melhor partem no-lo oferecem a seguir como uma obra que eles escreveram ou ditaram divertindo-se, no espaço de três dias. Quanto a mim, sempre gostei de dizer o que me vem a boca.

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Portanto, ouvintes muito... como direi? ... ouvintes muito loucos? ... Por que não? É o título mais honroso que a Loucura pode dar a seus iniciados. Pois bem, ouvintes muito loucos, sabeis agora o meu nome.
Nascida nessa terra de encantos, meu nascimento não foi anunciado por meu choro; assim que vim ao mundo, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe. Seria um grande erro eu invejar a Júpiter a felicidade de ter sido aleitado por uma cabra, pois as duas ninfas mais graciosas do mundo, Mete, a Embriaguez, filha de Baco, e Apédia, a Ignorância, filha de Pã, foram as minhas amas de leite. Podeis vê-las aqui entre minhas companheiras e seguidoras.
A propósito de minhas seguidoras, convém que vo-las apresente. A que vos observa ali com um ar arrogante é o Amor Próprio. A outra, com rosto afável e as mãos prontas para aplaudir é a Adulação. Aqui vedes a deusa do Esquecimento, que adormece e parece já esquecida. Mas adiante, a Preguiça tem os braços cruzados e apoiados sobre os cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, por suas guirlandas, suas coroas de rosas, e pelas essências deliciosa com que se perfuma? Não notais a que passeia a toda volta seus olhares imprudentes e incertos? É a Demência. Aquela outra, de pele luzente, corpo abundante e rechonchudo é a deusa das Delícias. Mas também percebeis dois deuses em meio a essas deusas. Um é Como e o outro é Morfeu.

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Conheceis portanto minha origem, minha educação e meu séquito. Agora, a fim de que ninguém pense que me arrogo muito levianamente o titulo de deusa, vou contar quais são as vantagens que proporciono aos deuses e aos homens, vou mostrar toda a extensão do meu império.

Escutai com toda atenção. 

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Mas, a propósito, esqueço que vos prometi terminar. De resto, se achais que tagarelei demais, ou se deixei escapar alguma extravagância um pouco forte, lembrai-vos, peço-vos, que é a Loucura, que é uma mulher que acaba de vos falar

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Adeus, pois, ilustres e caros amigos da Loucura, aplaudi-me, passai bem e diverti-vos.