A Motoqueira

Memórias de uma Motoqueira Solitária é um título sugestivo, sobretudo para o blog de uma historiadora.

Auto descrição é sempre algo complicado. Dizer o que realmente somos é estranho. Falamos sobre coisas que fazemos, profissionalmente e no lazer, comentamos sobre gostos, percepções, crenças, ideologias políticas e/ou econômicas. Mas que somos frente a isso continua sendo uma grande interrogação.

Então, a Motoqueira em questão.
Memórias, traz uma clara influência acadêmica. Motoqueira, pelo fato de ser o meu transporte favorito - por gostar de dirigir e, por saber dirigir (somente) moto. Solitária, por ser um contínuo e expressivo estado de espírito.

Sou a Letícia.
Letícia - derivado de Laetitia - no latim, alegria.
Durante muito tempo assinei Letthyssia, por não gostar do meu nome. Depois de adulta aprendi a viver com ele, e por me dar conta do que o nome sigifica para uma pessoa. Além de não dostar  muito do meu nome, boa parte da minha adolescencia tive que conviver com o diversos apelidos pejorativos, que tanto me torturavam. Fui conhecida por muito tempo como 'Irmã do Walter'. Acontece, que quando não temos identidade, ser conhecido pelos outros, é deprimente.  MARIA,L.P. são minhas referências bibligráficas - segundo o Lattes.

Estudei na rede pública até a oitava série. No Ensino Médio fui para o ensino privado, onde ingresse no Curso Normal de Nível Médio - Magistério - quando  passei a trabalhar e custear a minha própria educação. Enfrentei os maiores desafios da minha adolescência nesta escola e neste curso. Sobrevivi. Me formei professora em dezembro de 2006.
Ingressei na graduação em História logo no ano seguinte. A universidade me abriu horizontes imensos e, a possibilidade de viver novas experiências me foi fascinante - as vezes ainda é. A vida acadêmica me fez profissional, e feliz ou infelizmente, adulta.

Na universidade me tornei militante no Movimento Estudantil e no Movimento Negro. Também na universidade me descobri e assim passei a militar também pelo Movimento Feminista. Devido as experiências as quais pude viver, passei a levantar outras bandeiras de luta, por acreditar na preciosidade das diferentes causas e que a luta é dura e precisa ser constante. Milito no Movimento Contestação e no Fortalecer o PSOL.
Me formei na universidade, em julho de 2011 Licenciada em História. Atualmente curso mestrado em Ciências Sociais.

Meus pais são pessoas muito simples e humildes. Ralaram um vida inteira para ter o mínimo de conforto para a família. E temos. Apesar de serem 'do sistema antigo', meus pais são pessoas muito tranquilas e compreensivas. Preconceitos e posturas conservadoras, penso que são normais e compreensíveis, devido a educação e cultura que meus familiares tiveram acesso. Algumas coisa entendo e respeito, mas isso não significa que eu aceite, afinal, o meu ser independe do sujeito que me cerca, apesar de sofrer influências.

Participei durante anos do movimento tradicionalista gaúcho, como prenda, dançarina e declamadora. Fiquei afastada durante um significativo tempo, e hoje atuo instrutora de danças gaúchas de salão. Visualizo o MTG hoje como um dos movimentos mais racistas, elitistas e conservadores, e por isso não sou institucionalmente vinculada a ele, devido o que o movimento representa. Penso que a arte e a cultura precisam estar ao alcance que todos, e não apenas de que pode pagar por isso.

Atualmente, moro na cidade onde nasci, com meus pais. Meu irmão é casado e mora na mesma rua que nós. Temos três cães, uma horta, casa própria, carro, moto e essas coisas todas que a maioria das pessoas almejam uma vida inteira. Tenho uma vida socialmente confortável e feliz.

Gosto de ler, de dançar, de conversar, de dirigir, de viajar, de matear, de molhar os pés no mar, de olhar a noite, de ficar no sol. Tenho medo de altura e de temporal. Gosto de barulho, e as vezes ficar sozinha em casa me assusta. Gosto de vários tipos de música, seja para ouvir, seja para o que for. Gosto de me vestir do meu próprio jeito e me acho relativamente estranha.

Segundo o zodíaco, sou de Peixes, com ascendente em Touro, lua e sol em Peixes. Pelo horóscopo chinês sou do signo do Dragão, pelo das flores sou de Narciso, pelo xamânico sou de Lobo. Pelo africanismo sou regida por Oxum Ijimu (Oxum mulher/madura), no sincretismo popular brasileiro Nossa Senhora da Conceição. O mais impressionante é que o fato de ser católica, consolida a minha fé a expande os meus horizontes, que me permitem acreditam naquilo que eu quiser. Ou em nada disso.
Acredito nas pessoas, embora isso me custe muito algumas vezes. Tenho fé nas pessoas e na vida. Acredito é é possível 'mudar o mundo', e também é possível 'dominar o mundo', isso tudo é uma questão de fé e perseverança, seja o que for. Acredito na 'revolução', seja ela pela idéias, seja por mudanças sociais e políticas, seja pela violência e pela opressão. Tenho certeza que todas são possíveis, mas cabe aos revolucionários saber como a consolidar.
Sonho muito com um futuro... Para mim, para os meus, para as pessoas. Penso que nós alinhavamos o nosso futuro, devagar.  Sou idealista em exageiro, inocente em relação a algumas coisas e, ousada e sem noção frente a outras.
Sou uma mulher constantemente apaixonada. Apaixonável, eu diria até... Apaixonada pela vida, pelas pessoas, por aquilo que as pessoas fazem, por aquilo que faço, por momentos e, sobretudo apaixonada (cega e loucamente) pela minha liberdade.
Sou mulher, jovem, negra, motociclista, socialista.

Como já refleti, auto descrição é sempre algo complicado. Dizer que realmente somos é estranho.
O ser humano é naturalmente inconstante.
É improvável que qualquer descrição seja precisa.

Eu sou apenas a Letícia.
Um ser estranho qualquer. Em constante mutação.
Como diria o 'mestre', "uma metamorfose ambulante".


Pax et bonum!