sexta-feira, 25 de julho de 2014

- Se tu chegasse aqui com uma vassoura, eles iam te adorar

Antes de qualquer coisa, queria saudar o dia de hoje: Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha
Pois isso publico esse texto nesse dia de luta e resistência!

Recentemente comecei a trabalhar em uma escola pública da rede estadual do Rio Grande do Sul. Fui chamada para assumir um primeiro ano do Ensino Fundamental, e isso me fez muito feliz, pois muito embora eu queira muito lecionar história, sempre acabo retornando aos pequeninos e, modéstia a parte, sou boa no que faço. Por isso hoje venho escrever sobre racismo em uma escola de periferia:

Obs1: Temos alunos negros, a maioria dos funcionários, a diretora, uma vice, uma supervisora e (além de mim, recém chegada) uma professora negra e um professor negro.

Cheguei na escola e fui muito bem recebida pela direção e equipe pedagógica.
Como a turma para qual fui designada já passou por algumas trocas de professoras, chegamos a um consenso de que eu assumiria a turma oficialmente depois do recesso, ou seja, 04 de agosto, mas eu já entraria em sala de aula diariamente por algumas horinhas, para melhor adaptação dos alunos, sendo que eles tem em todos seis anos.

Obs2: Todos pais e todas mães sabiam que a professora que estava na turma é substituta, e assim que a SEC enviasse alguém, haveria troca.

Reunião de pais marcada, onde eu seria apresentada aos pais.
De 28 crianças, 13 mães presentes. Dessas, 5 chegaram um pouco resistentes à mudança, mas quando me apresentaram como nova prof, elas ficaram injuriadas. Mil e um argumentos, começando sempre pelo clássico "não é nada contigo, mas...".
Eu já esperava resistência, mas nem tanto. Quando algo me dizia que o discurso delas estava "estranho", vi que a diretora começava a se enraivecer, enquanto as 4 mães (negras) presentes passaram a se manifestar, em meu favor. Sim, elas deixaram claro que a escola havia avisado que a professora que atendia os alunos era temporária, e que estavam felizes com a minha chegada.
A diretora enlouqueceu, quase se descontrolou e deixou claro aos pais que não voltaria atrás, que eu era a nova professora, eles querendo ou não. A outra professora, quando o bicho pegou, saiu da sala.
Tentei mediar, avaliando que a outra professora trabalhavam  com alunos maiores e estava ali para que aos alunos não  ficassem sem aulas, e por isso eu havia sido designada pela Secretaria de Educação.
Enfim, a reunião foi looooonga.

As 5 que geraram o conflito, passaram uma lista para pegar o contato das demais. As negras se recusaram a assinar e ficaram na sala para falar comigo após a reunião.

- Seja bem-vinda e conta comigo pra qualquer coisa. Não te abala com essas escandalosas, que elas vão ver como tu é boa!- disse uma.
- Nem dá bola, elas só tão enchendo o saco porque não tem mais o que fazer. Sou a mãe do fulaninho, e se elas perturbarem de novo, chama. - disse outra.
- Eu só queria dizer que tu seja bem vinda - disse a terceira.
- Eu sou irmã do fulano. A nossa mãe não tá nem ai, mas eu sou responsável por ele. Ele não vai te incomodar, mas em todo caso, pode mandar bilhete no caderno porque quem olha sou eu. Seja bem vinda e pode contar comigo pra qualquer coisa. E não desiste, não muda de ideia porque precisamos de ti aqui.

Obs3: A diretora ficou mais nervosa que eu, com raiva escorrendo dos olhos.

Terminada a reunião, respirei e fui conversar com a diretora, que tremia.
- Se tu chegasse aqui com uma vassoura, eles ia te adorar. Mas como é tu quem vai alfabetizar essas crianças, tu chega ocupando um grande espaço de poder. E isso é inaceitável. O que elas tão pensando? Aquelas vacas racistas, acham que eu não vi? Se tu fosse branquinha, nada disso teria acontecido.

No dia seguinte...

A diretora e a vice abrem um sorriso imenso quando entro na escola: elas acharam que eu não voltaria.
Conversamos longamente, avaliando, que a hostilidade que recebemos não era comum. Sim, era racismo. E que era necessário lidar com isso e transformar essa realidade, pois mesmo num bairro periférico, nos deparávamos com situações como essa. E esse é o desafio!
Apesar do conflito, me senti motivada... é necessário intervir severamente nessa comunidade para desconstruir o racismo (nem tão) velado que existe.

Chego na sala, o filho de uma das "escandalosas", corre e me abraça:
- Profe, que bom que tu veio.

Outra menina, loira, pra minha surpresa (filha de uma das mães negras):
- Profe, minha mãe adorou teu cabelo. Disse que vai fazer igual!

O desafio de ser uma profissional negra e qualificada não nos protege do racismo. Estar em espaços de poder faz com que sejamos alvos mais fáceis.
O desafio foi lançado. E eu fiquei sedenta.

Nesse dia de luta em defesa das mulheres negras e contra discriminação racial e de gênero, compartilho esse momento. A luta se faz todos os dias!
Somos vítimas de racismo e de sexismo diariamente, mas isso deve nos motivar a lutar mais e mais.
Hoje é dia de reflexão, mas é também dia de movimento e de luta!

Não vão nos segurar. Nunca mais!


Por MARIA, L.P.


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