sábado, 3 de maio de 2014

Eu não queria, mas ainda precisamos falar de racismo e bananas

Eu juro: fiz um esforço gigante para não falar sobre isso: Racismo, bananas e oportunismos.

Li muito sobre o acontecido, e sinceramente me deu uma preguiça, comentar sobre o Luciano Hulk e o Neymar. Os diversos textos publicados no Blogueiras Negras me foram suficientes, pois elas me representam.

- #NãoSomosMacacos
-A banalização do racismo
- Igualdade no Brasil miscigenado

Antes mesmo de saber o que estava rolando, li um post da Luana Tolentino, que me esclareceu todo o acontecido:

" "Estou na Espanha há 11 anos e há 11 anos é dessa maneira. Temos de rir dessa gente atrasada."

Daniel Alves, Querido. Não há graça nenhuma no racismo. Ao contrário do que você pensa, o racismo não é fruto de gente atrasada. É uma construção ideológica produzida pelos europeus no século XV para legitimar a dominação e a exploração dos povos negros. Portanto, é um assunto sério. Há mais de 500 anos, tal ideologia tem provocado a morte, a opressão e a inferiorização de milhões de pessoas da sua, da nossa cor. Pense bem. "

Quando comecei a ver os compartilhamentos e críticas dos famosos, apesar da indignação, não me surpreendeu o oportunismo, tanto dos compartilhamentos como a coleção racista do Luciano Hulk “anti-racista”.

No entanto, o que me deixou realmente preocupada, foi quando vi a postagem de um rapaz que conheci a pouco (negrão, bonito, cheio dos dreads) postando uma foto com uma banana na mão e a hashtag #somostodosmacacos.

Quando tu vê um branco classe média que nunca se envolveu com as lutas do povo negro compartilhar isso, por pior que seja, há uma explicação política. Quando um jovem negro faz isso, há um problema na formação das pessoas que se reivindicam militantes das lutas do nosso povo negro. Não preciso dizer que não somos macacos, assim como não preciso lembrar nenhum leitor desse blog que o racismo é um sistema de dominação que sempre serviu para a manutenção do poder de uma classe social nesse país, e que é esse mesmo racismo que mata pessoas negras (ok, eu já disse), sobretudo homens jovens.

Eai a capa da Veja dessa semana desconstrói toda a luta de pessoas como Malcon X, Martin Luther King, Rosa Parks por uma única atitude: o racismo termina com a ação de comer uma banana:

 

É Veja, ta serto!
Sugiro a leitura do texto do Negro Belchior, na Carta Capital traz muito bem as peculiaridades do acontecido. O melhor texto que li, com brilhantes argumentos sobre Daniel Alves e sobre toda a comoção coxinha ao caso:

" Daniel Alves, Neymar, Dante, Balotelli e outros tantos jogadores de alto nível e salários pouca chance terão de ser confundidos com um assaltante e de ficar presos alguns dias como no caso do ator Vinícius; pouco provavelmente serão desaparecidos, depois de torturados e mortos, como foi Amarildo; nada indica que possam ter seus corpos arrastados por um carro da polícia como foi Cláudia ou ainda, não terão que correr da polícia e acabar sem vida com seus corpos jogados em uma creche qualquer. Apesar das bananas, dificilmente serão tratados como animais, ao buscarem vida digna como refugiados em algum país cordial, de franca democracia racial, assim como as centenas de Haitianos o fazem no Acre e em São Paulo.

O racismo não os atinge dessa maneira. Mas os atinge. E sua reação é proporcional. Cabe a nós dizer que sua reação não nos serve! Não será possível para nós, negras e negros brasileiros e de todo o mundo, que não tivemos o talento (ou sorte?) para o estrelato, comer a banana de dinamite, ou chupar as balas dos fuzis, ou descascar a bainha das facas. Cabe a nós parafrasear Daniel, na invertida: “Não tem que ser assim! Nós precisamos mudar! Convivemos há 500 anos com a mesma coisa no Brasil. Temos que acabar com esses racistas retardados, especialmente os de farda e gravata”.


Esse texto no lembra um detalhe vital: na pele negra a bala não é de borracha!

No mesmo dia,  no Programa Esquenta fizeram uma cena (sobre o caso do Douglas) não pela morte de um jovem negro, mas por conta da morte de alguém do elenco. A grande mídia pode negar o quanto quiser, mas não podemos fechar os olhos e acreditar que esse tipo de discurso anti-racista nos fortalece... O genocídio da população negra é real, e hastags e compartilhamentos no facebook não vão mudar isso: Douglas, Amarildos e Cláudias são exemplos disso.

Não se enganem!


Nos jogam bananas há séculos. Está mais que na hora de lutar de verdade, mas não com a arma do branco. Organizados, conscientes, denunciando e não se resignando. Não precisamos engolir mais essa!

Somos negros, trabalhadores, lutadores! Levanta, meu povo!

Por MARIAL.P.

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