terça-feira, 8 de abril de 2014

O feminismo não luta contra homens nem contra mulheres, mas contra o machismo

O feminismo não luta contra homens nem contra mulheres, mas contra o machismo.

Recentemente os últimos dados pesquisados e apresentados sobre mulheres têm se mostrado assustadores, não apenas pelos altos números relativos à violência, mas, sobretudo sobre a intensidade em que o machismo está arraigado em nossa sociedade.

Mesmo com os problemas em relação aos dados do IPEA, sobre “uma mulher de roupa curta merece ser atacada” (pesquisa essa que ainda apresenta erros – e muitos), considerar que 26% da população brasileira aprova esse tipo de conduta não passa somente pela cultura de estupro, que naturalizada violenta e cala centena de mulheres, mas pela culpabilização da mulher, quando, mesmo que não se dê conta é a grande vítima.

A mulher que não se dá conta de que é vítima se considera responsável quando sofre algum tipo de agressão. Também se cala quando é assediada andando na rua. E não reage quando alguém a toca em um espaço público. É aquela que troca de roupa quando o companheiro diz que está curta ou imprópria para a sua idade. Também tem relação sexual com o companheiro quando não sente vontade nem prazer, mas porque se sente na obrigação. A mesma que perdeu a virgindade com o primeiro namorado porque ele pediu uma prova de amor. Essa mulher que ensina os filhos a sustentarem a casa, enquanto as filhas aprendem a dar conta do serviço doméstico. Essa é a mulher que acha que quem aborta só pode ser uma assassina sem coração, que mata criancinhas. A mesma mulher que quando é traída, se enlouquece e quer matar a vadia que roubou o seu amor. Também, essa mulher classifica como vadia qualquer uma que transe no primeiro encontro ou sem compromisso, só porque sente tesão e esta com vontade.

Essa é a mulher que acha que a outra mulher pediu para ser estuprada. Essa mulher culpabiliza a outra porque não consegue se dar conta de que é tão vítima quanto a vadiazinha que pediu pelo estupro. As duas são mulheres igualmente vitimadas pelo machismo.

Mas compreendam, a culpa não é da mulher: nem do estupro, nem de responsabilizar a outra e, algumas vezes, a culpa também não é diretamente do homem. A culpa é do machismo: o machismo nosso de cada dia!

É o machismo nosso de cada dia que faz a mulher acreditar que mereceu o tapa ou o beliscão do seu namorado, e faz com que ela se comporte para que não mereça mais ser agredida. Esse machismo faz com que a mulher fique vermelha e envergonhada, e não com raiva quando é encoxada e alisada no transporte público em um espaço com muitas pessoas. O machismo faz a mulher obediente, que dá razão ao homem que escolhe com que roupa ela pode ser vista. Também o machismo que caracteriza o que são obrigações conjugais, obrigações estas que estupram mães de família diariamente quando forçadas ao sexo. O mesmo machismo que fez a adolescente acreditar que sexo é prova de amor. Mesmíssimo machismo que condiciona mães a educar e não a romper com o sexismo nas relações conjugais e mesmo entre irmãos. Esse machismo não deixa muitas mulheres compreenderem que o aborto acontece debaixo dos seus olhos, e quem está morrendo por falta de garantia e um aborto legal, seguro e gratuito são milhares de outras mulheres, enquanto as clínicas clandestinas lucram milhões. E é o mesmo machismo que faz com que a mulher traída responsabilize a outra mulher que entrou na sua história, e não o homem a que traiu porque teve vontade. É o machismo que rotula e classifica pejorativamente quem não se submete a ele, rompendo nas ruas relações afetivas, sociais e sexuais.

A culpa toda é do machismo enraizado em nossa sociedade, não das mulheres. Assim como a cultura do estupro é de responsabilidade do machismo com o qual convivemos. Também o machismo faz acreditar que toda mulher que reproduz as relações de dominação é culpada. Muitas vezes homens e mulheres reproduzem esse machismo, sem reflexão, mas caracterizar que as pessoas são machistas porque não tiveram oportunidade de romper com o ele, não quer dizer que esse esforço não tenha de ser feito. De fato, as pessoas não são culpadas pelo machismo mediar as relações, mas elas são responsáveis por romper com ele.

Quanto ao estupro, a culpa é do machismo, que legitima e responsabiliza a vítima, mas nesse caso sim a culpa é do estuprador, que se sente no direito de tomar a mulher como seu objeto de desejo, independente da sua vontade, tenha ela a idade que for, seja na rua quando ela está sozinha, seja persuadindo a companheira ao sexo que ela não quer, seja se relacionando com uma mulher desacordada e embriagada. Sexo sem consentimento da mulher é estupro, simples assim.

O machismo sempre criou lugares para as mulheres, o feminismo rompe com isso, denunciando que as mulheres devem escolher o papel a ocupar na sociedade. Esse feminismo denuncia que as mulheres que acusam as outras são tão vítimas quanto às acusadas e, lembra que a culpa não é delas, nunca.

Não que estejamos defendemos mulheres e homens frente as relações violentas e de dominação, mas a ideologia reproduzida por ambos. Sim, o machismo faz parte da ideologia de uma classe dominante, que classifica e cria papéis sociais, onde o homem branco é melhor que a mulher branca e que homens e mulheres negras, assim como o homem negro é melhor que a mulher negra (os dados sobre salários pagos a homens e mulheres brancos e homens e mulheres negros caracterizam essa escala). Essa ideologia, é uma estratégia de dominação, que faz a manutenção do poder.

O feminismo tem como função rearticular os papéis das mulheres em nossa sociedade, por isso as mulheres que se reivindicam feministas normalmente são taxadas de radicais. Mas acontece, que se não for radical, não haverá avanços: é necessário pensar radicalmente em mudanças, pois nesse momento isso se faz necessário.

Lembrando que nenhuma luta é desconexa, porque a luta das mulheres é a luta da classe trabalhadora. A luta das mulheres é contra o capitalismo. A luta das mulheres é contra o racismo. A luta das mulheres é contra a homofobia.

A luta das mulheres não é contra os homens, é contra o machismo.

Por vezes, precisamos nos colocar contra os homens, assim como vamos ter que nos colocar politicamente contra outras mulheres (mesmo que em defesa delas mesmas), e dessa forma precisamos nos colocar contra o racismo e contra a homofobia também. Só seremos livres, quando todas forem: por isso a diversidade de pautas dentro dessa luta: não há liberdade, quando somente as mulheres da classe média conseguem romper com o machismo. Não há liberdade quando só as mulheres brancas conquistam protagonismo. Não há liberdade quando só as mulheres heterossexuais e cisgênero avançam.

Precisamos de todas as mulheres lutando contra o machismo. Mas também precisamos dos homens nessa luta. Precisamos de todxs, para cessar a reprodução de discursos machistas, para romper com a cultura do estupro, pra desconstruir o sexismo, a homofobia e o racismo em nossas relações.

Precisamos de todxs. Livres!
 
 
Por Letícia Maria - Militante do Movimento Contestação

Disponível em Movimento Contestação

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