sábado, 12 de abril de 2014

Cheguei a conclusão: eu nunca vou lecionar em uma escola privada


Andei participando de alguns processos seletivos em escolas da rede privada de Porto Alegre. Na última entrevista para a qual fui chamada, fiquei bastante esperançosa, pois acreditei ter mais chances de conseguir o trabalho.
Acontece, que a primeira parte do processo, era uma entrevista coletiva, para as vagas de Geografia e para Sociologia, Filosofia e Ensino Religioso, que era a vaga que eu concorria.
Achei que estava indo bem, até que ...
Fizemos uma dinâmica, onde deveríamos escolher duas pessoas entre os rostos apresentados, um com quem gostaria de jantar, outro não gostaria e justificar. Até ai, fácil. Escolhi o Ministro Joaquim Barbosa e Xuxa.

- Escolhi a Xuxa, pois entre ela e uma pizza, eu fico com a pizza. A Xuxa que dá uma profunda preguiça, não vejo nada de bom nela, mas como todos da minha geração, ouvi muito ela, mas ela não me anima em nada. Considero sim, que a mesa é o local onde as pessoas se igualam (alguém havia dito isso) , mas eu não sou melhor que ninguém para dizer como a Xuxa deva ser, ou qualquer outra pessoa. Recentemente ela deu uma entrevista, dizendo que as pessoas não deveriam ir às ruas e lutar por seus direitos, mas aproveitar a parte bonita da Copa.  A Xuxa poder ter a opinião que quiser, mas sugerir que as pessoas não lutem por saúde e educação, quando ela nunca vai precisar do SUS, e ela pode pagar a escola e a melhor universidade do mundo para a filha. Enfim, prefiro uma pizza à Xuxa.

- O Ministro Joaquim Barbosa eu escolhi pelo destaque que ele teve no cenário político nacional, com o julgamento do mensalão, onde ele se tornou herói de muitos por ai. Mas acontece que ele fez correto. Muitos acham extraordinário o correto, mas ele cumpriu a função dele, enquanto os demais não fazem. Acho que ele tem o mérito por ter realizado isso, mas efetivamente o julgamento foi mais mídia que justiça. No entanto, tenho profundos desacordos  com ele sobre as recentes declarações sobre cotas para negros em concursos públicos: eu não acredito na meritocracia! Usar o Joaquim Barbosa ou mesmo o Silvio Santos como exemplo (dois participantes escolheram o SS para jantar, porque ele era um cara pobre, que começou de baixo e se tornou u dos caras mais influentes do Brasil porque trabalhou duro) é um erro político e teórico. Quantos negros como eu como como o Barbosa começaram a vida profissional limpando o chão e se tornaram importantes, que podemos citar? Não nego o esforço deles, mas é um erro do ponto de vista histórico e sociológico afirmar que qualquer um que trabalhe muito fique rico ou, que os negros tem as mesmas oportunidades que os brancos, independente da sua classe social. Eles se esforçaram, e merecem o meu respeito por isso, mas se utilizar da meritocracia nesse exemplo é negar que as condições são diferentes e não depende da quantidade de horas de trabalho de um indivíduo que a desigualdade nesse país vai acabar, mas de políticas sociais, como o caso das cotas.  Enfim, apesar da admiração, tenho profundos desacordos com o Ministro Joaquim Barbosa, e um jantar com ele, tenho certeza que seria animadíssimo e acalourado.
 

Resumo da história: semana seguinte  ligaram dizendo que o meu currículo foi arquivado, para vagas futuras.

Honestamente, prefiro não ter sido selecionada. Eu posso mentir respostas, mas não posso mentir sobre quem sou eu. Não menti agora, não mentiria para meus alunos!
Não fiquei chateada em não conseguir a vaga, sinceramente. Mas vou ficar muito chateada se  o cara do Silvio Santos tiver sido.


Por MARIA, L.P.

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