quinta-feira, 20 de março de 2014

A vida, não é para os dois, a vida é dos dois


20 de março de 2014: nesse dia, meus pais completam 32 anos de casados.

Esperava poder escrever sobre isso.

Nunca imaginei que eu pudesse dedicar minha vida exclusivamente a uma pessoa. Acho que escolher viver o resto da vida ao lado de alguém uma grande responsabilidade, promessa que a maioria das pessoas fazem sem ter noção do que isso significa.

Não que todo casamento deva ser eterno, mas quando se assume tal compromisso, a promessa é essa!
Já falei de casamentos e relações nesse blog, mas nunca do casamento dos meus pais.

Durante muito tempo, ao observar a relação dos dois, eu acreditava que eles viviam tanto tempo junto por hábito, costume, mas pouco amor. O pai tem um jeito meio turrão, controlando sempre a mãe. A mãe, sempre foi meio dependente dele, pois ele que administrava o dinheiro, as contas, fazia supermercado, farmácia, etc...

Quando meu irmão saiu de casa (para “casar”/viver com sua companheira, hoje sua esposa)lembro do pai dizendo a seguinte  frase – seguida de uma cara de pavor do mano:

- Tu têm que conhecer tua mulher, saber tudo que ela precisa. Tu é o responsável. Tu têm que saber o tamanho da calcinha dela, o modess que ela usa, se tem feijão, leite, tudo. Agora é contigo.

Não sabia bem o que ele queria com aquelas palavras. Por um lado compreendia, mas por outro achava dominador... até:

Dezembro de 2010: em um acidente de moto, minha mãe fica gravemente ferida e meu pai estava dirigindo. Ele se responsabilizou de tal forma pela vida dela, que nunca vi ele tão perdido e desesperado como naquela noite: já vi ele chorar em situações muito difíceis que passamos, mas ele estava perturbado ao cogitar a possibilidade de viver sem a ela. Claro, todos estávamos  apavorados, mas ele não conseguia nem dizer  endereço ou completar uma frase lógica sem repetir, “ela vai morrer,  que eu vou fazer?”.

Com força e sorte, a mãe ficou bem. Depois de algumas pendengas no hospital, noite na emergência, corredor, quando ela foi para o quarto, passei os dias com ela e ele as noites: seguramos a barra juntos. Com algumas sequelas, tendo que fazer alguns procedimentos por conta dos ferimentos que teve, mas esta vivinha da silva.

O acidente, foi dias antes do Natal. Na véspera, ele assou chester, fez salada de frutas e comprou algumas guloseimas. Arrumou tudo e levou escondido para passar a noite com ela no hospital:

- Prefiro morrer que passar a noite de Natal sem ela – foi o que ele me disse.

Ai eu percebi, que para além do hábito de viver ao lado de alguém durante anos, existe sim amor. O hábito é inegável, mas o amor eu pude vê-lo materializado nas ações do meu pai.

Depois do acidente, não só durante a recuperação e cirurgias que vieram, eu consegui ver o amor dele no cuidado com ela. As rotinas mudaram drasticamente, até porque a mãe não pôde voltar a trabalhar (ela trabalhava com auxiliar de limpeza, e as limitações físicas nesse caso ainda impedem) e ele seguiu dando conta de tudo que ela precisa e deseja. Ele não mudou suas atitudes, e às vezes continua meio controlador (dela, sobretudo financeiramente), só que agora até nas chatices dele vejo amor.

Depois do acidente, pela primeira vez os dois fizeram uma viagem só pra eles.

Agora, eles planejam a vida para os dois velhinhos. Como meu irmão é casado e têm sua família, eu moro em outra cidade (embora esteja bastante presente), os dois planejam viver confortavelmente em um local onde os dois possam envelhecer de forma saudável e feliz. Muito embora tenham irmãos e filhos, a vida é para os dois.

Muitas vezes duvidei que poderia ser assim, mas a vida dos meus pais é uma só.
 


Disponível em As vezes
 

A vida, não é para os dois. A vida é dos dois.
 

Por MARIA, L.P.

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