domingo, 30 de março de 2014

Domingo

O céu nublado, clima morno.
De repente, me dia fica quente.
Ferve.
Se foi: deixou duas Heineken e um cheiro doce no ar.

Me deliciei com o cheiro e as Heineken.
Não consegui responder de qual gosto mais...
Boa noite, domingo.


Por MARIA, L.P.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Grilos

Há quase dois meses estou cultivando flores na sacada do meu quarto.
Outono chega de mansinho, e com ele, os grilos vieram morar aqui.

Até então, nunca ouvi grilos em Porto Alegre: agora moram ao lado do meu quarto!
Borboletas e cigarras, aguardo pelas senhoras!


Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 27 de março de 2014

A ignorância é pior doença

Semana passada, estava no recreio com meus alunos, quando percebo que caiu água de algum lugar, no pátio, molhando alguns.

Quando me dei conta, cheguei mais perto e vi que – novamente – caia água misteriosamente  de um prédio vizinho a escola.

Trabalho com EJA em uma escola de educação especial. É uma escola pequena, com mais ou menos 80 alunos entre os turnos da manhã e da tarde, sendo que eles são de diversas faxas etárias, mas todos possuem necessidades educativas especiais, alguns com mais, outros com menos, mas todos tem algum comprometimento cognitivo sério, que os impossibilita frequentar uma escola regular.
Voltando ao objetivo da postagem: um vizinho jogou água nos alunos durante o recreio da tarde na sexta feira, dia 21 e, hoje ele fez isso novamente.
 Isso mesmo: um homem, adulto, às 15h30m em casa se prestou a jogar água nos nossos alunos.
 A minha primeira reação foi típica de uma professora que defende seus alunos: corri no sentido de onde veio a água e xinguei e espraguejei, ameaçando chamar a polícia.
 Na primeira vez, eu vi o rosto do sujeito, que voltou pra espiar o pátio, e por isso aconselhei a diretora a fazer uma ocorrência, pois acreditava que ele faria isso novamente, e ele fez. Hoje quando aconteceu, gritei para uma colega chama-la e ela chamou a polícia.
 A Brigada chegou, olhou o pátio e conversou com a diretora. Depois, bateram no apartamento do indivíduo. A esposa dele abriu a porta e se assustou – como qualquer pessoa em são consciência, ao ver a polícia em sua porta. O cara ironizou tanto o brigadiano quando a diretora da escola, afirmando que teve tal atitude porque o balanço faz muito barulho a tarde toda.
 Exatamente: o infeliz se sente no direito de agredir e atormentar pessoas com deficiência por conta do barulho do balanço? Ou seria por causa dos gritos deles? Ou por conta da visão que ele não queria  ter do alto da sua janela? Ou seria porque o sujeito é um energúmeno e inconsequente? Seria talvez porque ele é um preconceituoso de merda?
 
Prefiro a última opção.
Encho a boca para afirmar: cara, o doente é você!


Por MARIA,L.P.

 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Moedinhas e bom senso: bixo e morador de rua

Segunda-feira, um amigo me disse que estava tão sem dinheiro, que ia se pintar de bixo para ganhar uma grana na rua.

Concordei, pois desde que saiu o listão do vestibular da UFRGS, aqui em Porto Alegre, vemos vários jovens (brancos, classe média) pintados na rua, pedindo dinheiro entre carros e pedestres, nas ruas e bares da cidade.

Algumas considerações:

1.      Quando fui caloura, meus pais me presentearam com a famosa faixa na frente de casa. Sem tintas, porque a universidade era particular.

2.      Não me oponho às pinturas

3.      Rejeito trotes violentos e/ou machistas.

4.      Considero a possiblidade de colaborar com umas moedinhas, se eu tiver.

O ponto quatro é o mais importante, não porque eu acho que as pessoas devam colaborar com uma moedinha, mas bom senso é sempre legal!

A maioria das pessoas que vejo dando dinheiro pra bixo, são àquelas que negam para um morador de rua (se puderem o chutam, inclusive). Também não creio que ninguém seja obrigado a dar dinheiro a morador de rua, flanelinha ou catador, mas quando o sujeito é estudante, classe média, branco e definitivamente não precisa desse dinheiro, justamente é ai que vem ajuda?

Não parece uma contradição?

Esse ano, não dei nenhuma moedinha a nenhum bixo da UFRGS. Prefiro colaborar com eles (e calouros de outras universidades) com os textos e fotocópias que acumulei ao longo de quatro anos e meio e graduação. Essas moedas me fizeram falta, e podem colaborar de forma real para um estudante do ensino superior.

Procuro sempre colaborar com as pessoas que moram e vivem nas ruas. Dificilmente dou dinheiro, porque nunca tenho e porque acho que não é educativo. Prefiro dar algo de comer, mas até ceva morna já dei, enquanto normalmente as pessoas jogam fora porque esquentou.  

Estou certa de que ninguém que more na rua seja um anjinho, mas convivo com essas pessoas (sim, pessoas) diariamente, e não me custa nada. Mas o cara que mora na frente do meu prédio, sabe que sou eu que sempre deixa algo pra ele. Isso me basta.

E possivelmente o bixo bonitinho pra quem você deu dinheiro hoje, será o médico que não vai querer te atender pelo SUS daqui a cinco ou seis anos. Isso também me basta.

Só sugiro uma coisa: uma pitada de bom senso.
 

Por MARIA, L.P.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A vida, não é para os dois, a vida é dos dois


20 de março de 2014: nesse dia, meus pais completam 32 anos de casados.

Esperava poder escrever sobre isso.

Nunca imaginei que eu pudesse dedicar minha vida exclusivamente a uma pessoa. Acho que escolher viver o resto da vida ao lado de alguém uma grande responsabilidade, promessa que a maioria das pessoas fazem sem ter noção do que isso significa.

Não que todo casamento deva ser eterno, mas quando se assume tal compromisso, a promessa é essa!
Já falei de casamentos e relações nesse blog, mas nunca do casamento dos meus pais.

Durante muito tempo, ao observar a relação dos dois, eu acreditava que eles viviam tanto tempo junto por hábito, costume, mas pouco amor. O pai tem um jeito meio turrão, controlando sempre a mãe. A mãe, sempre foi meio dependente dele, pois ele que administrava o dinheiro, as contas, fazia supermercado, farmácia, etc...

Quando meu irmão saiu de casa (para “casar”/viver com sua companheira, hoje sua esposa)lembro do pai dizendo a seguinte  frase – seguida de uma cara de pavor do mano:

- Tu têm que conhecer tua mulher, saber tudo que ela precisa. Tu é o responsável. Tu têm que saber o tamanho da calcinha dela, o modess que ela usa, se tem feijão, leite, tudo. Agora é contigo.

Não sabia bem o que ele queria com aquelas palavras. Por um lado compreendia, mas por outro achava dominador... até:

Dezembro de 2010: em um acidente de moto, minha mãe fica gravemente ferida e meu pai estava dirigindo. Ele se responsabilizou de tal forma pela vida dela, que nunca vi ele tão perdido e desesperado como naquela noite: já vi ele chorar em situações muito difíceis que passamos, mas ele estava perturbado ao cogitar a possibilidade de viver sem a ela. Claro, todos estávamos  apavorados, mas ele não conseguia nem dizer  endereço ou completar uma frase lógica sem repetir, “ela vai morrer,  que eu vou fazer?”.

Com força e sorte, a mãe ficou bem. Depois de algumas pendengas no hospital, noite na emergência, corredor, quando ela foi para o quarto, passei os dias com ela e ele as noites: seguramos a barra juntos. Com algumas sequelas, tendo que fazer alguns procedimentos por conta dos ferimentos que teve, mas esta vivinha da silva.

O acidente, foi dias antes do Natal. Na véspera, ele assou chester, fez salada de frutas e comprou algumas guloseimas. Arrumou tudo e levou escondido para passar a noite com ela no hospital:

- Prefiro morrer que passar a noite de Natal sem ela – foi o que ele me disse.

Ai eu percebi, que para além do hábito de viver ao lado de alguém durante anos, existe sim amor. O hábito é inegável, mas o amor eu pude vê-lo materializado nas ações do meu pai.

Depois do acidente, não só durante a recuperação e cirurgias que vieram, eu consegui ver o amor dele no cuidado com ela. As rotinas mudaram drasticamente, até porque a mãe não pôde voltar a trabalhar (ela trabalhava com auxiliar de limpeza, e as limitações físicas nesse caso ainda impedem) e ele seguiu dando conta de tudo que ela precisa e deseja. Ele não mudou suas atitudes, e às vezes continua meio controlador (dela, sobretudo financeiramente), só que agora até nas chatices dele vejo amor.

Depois do acidente, pela primeira vez os dois fizeram uma viagem só pra eles.

Agora, eles planejam a vida para os dois velhinhos. Como meu irmão é casado e têm sua família, eu moro em outra cidade (embora esteja bastante presente), os dois planejam viver confortavelmente em um local onde os dois possam envelhecer de forma saudável e feliz. Muito embora tenham irmãos e filhos, a vida é para os dois.

Muitas vezes duvidei que poderia ser assim, mas a vida dos meus pais é uma só.
 


Disponível em As vezes
 

A vida, não é para os dois. A vida é dos dois.
 

Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Toda diferença mexe com as pessoas. Sejam elas parecidas com todas as outras ou não.


Há alguns dias comecei em um emprego novo, em uma escola de educação especial. Tenho lecionado em uma turma de EJA, com adolescentes com necessidades educativas especiais. Na realidade, a vulnerabilidade social é o maior agravante dos problemas cognitivos e neurológicos daqueles indivíduos.

Essa semana fui dar aula, vestindo a minha camiseta "afirme-se", da campanha de cotas da UFRGS.



Um dos meus alunos tocou na arte da camiseta, onde há uma mulher negra de black power e comentou:

- Ela tem cabelo igual da profe Letícia.
- Igual, como? - pegunto.
- Alto, de molinha.
- E é bonito?
- É. Mas é diferente.
- Diferente como?
- Ah, diferente, nem todo mundo usa assim.
- E tu gosta?
- Gosto. É poderoso!

Toda diferença mexe com as pessoas. Sejam elas parecidas com todas as outras ou não.
E isso sim é uma experiência única!


Por MARIA,L.P.


terça-feira, 18 de março de 2014

Minta, se puder

Você pode mentir pra mim.
Você pode mentir pra sua esposa.
Você pode mentir pra sua mãe.
Você pode mentir para o padre.
Você pode mentir para seu professor.
Você pode mentir pro garçom.
Você pode mentir pra polícia.
Você pode mentir para o jornal.
Você pode mentir para a sociedade.
Você só não pode mentir pra si mesmo. Você pode acreditar.


Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ah, o inferno

Vinte e sei anos completos.
Quinze deles, na igreja.
Dois deles, fora dela.
Hoje cometi meu primeiro pecado mortal.
Vou para o inferno.
Se o inferno lembrar o meu pecado, vai ser divertido:
Vou encontrar muitos conhecidos lá...


Por MARIA,L.P.

terça-feira, 11 de março de 2014

Sem feminismo não há liberdade

Porto Alegre. Segunda-feira. 13h.
Cá estou eu, esperando o ônibus em frente a porta do prédio onde moro, indo para o trabalho.

Pára um carro. O motorista me olha e diz:
- Quer uma carona?

Eu olho de canto, ignoro e sigo esperando meu ônibus.
- Vem, eu te levo pra onde tu quiser, gostosa.

Olho novamente.
- Tu não tem o que fazer não?
- Não - responde ele irônico.
- Então pega essa bosta e vai pro inferno, babaca.

Ele, dá risada e se vai.
Eu puta da cara, sigo esperando o ônibus. Totalmente invadida.

Sem feminismo não há liberdade. Jamais seremos livres sem o feminismo.
Lutar por uma sociedade onde sejamos livres, é o motivo que me faz levantar da cama a cada manhã.
Eu não serei livre, enquanto outras mulheres continuarem a sofrer caladas. 
Eu não vou me resignar. Nunca. 


Por MARIA, L.P.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Para mim ou pra você?

Mais um ano que se passa, mais um ano sem você.
Já não tenho a mesma idade, envelheço na cidade.



(Envelheço na Cidade, Ira!)

domingo, 9 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher BRANCA


Brilhante reflexão sobre o oito de março!


Texto de ,para o Blogueiras Negras em 06 de março.

Mais um 8 de março se aproxima e recebemos aquela enxurrada de chorume em nossas existências femininas nos “homenageando” por sermos delicadas, amorosas, resilientes, submissas, mães, esposas, damas na sociedade e amantes ardentes entre quatro paredes.

Todo esse repentino amor tem hora pra começar e acabar, durando o tempo do mês de março, da semana do 8 ou só desse dia mesmo, de acordo com o tanto de baboseira que cada um consegue produzir.

Nesse sentido, as mulheres homenageadas são sempre as mesmas: brancas, jovens, magras, ocidentais, cristãs e cisgêneras.

E para não perder o costume, nós, as pretas neuróticas, recalcadas, mal amadas e que veem racismo em tudo, vamos direcionar nossa crítica destrutiva ao bode expiatório da vez: a Riachuelo e sua campanha pela Semana da Mulher Brasileira 2014 (leiam ironia nas minhas palavras, por favor).



Como podemos ver no vídeo, a mulher brasileira padrão, essa do comercial, corresponde exatamente ao padrão médio da brasileira, afinal, somos majoritariamente brancas, loiras, com traços faciais finos e tão magras e altas como sílfides mitológicas. Uai, não somos?

E então que a presença negra no comercial é de uma mão que serve. Um corpo sem cara, que não consome, não tem vontades, sequer existe, apenas serve. Uma sombra semivivente que só se presta a apoiar a existência da sua senhora.

Sim, porque a mulher que deve ser homenageada na semana da mulher é aquela branca que trabalha fora, independente, bem resolvida, que limpa a casa, cuida dos filhos, serve ao seu marido e sempre está com as unhas feitas e a depilação em dia. Essa é uma super mulher que consegue viver seus rompantes de modernidade sem deixar de lado suas obrigações femininas. Essa merece ser louvada e ganhar um desconto nas compras da semana por cumprir suas funções com tanto esmero.

A preta que sustenta a família com seu salário do subemprego, que enfrenta 5 horas de ônibus sujeita a abuso sexual, que vê seu filho ser morto pela polícia, que morre por complicações aborto inseguro, que está fadada ao serviço doméstico desde sempre como se isso fosse inerente à sua existência, que suporta as investidas sexuais do patrão e do filho do patrão para não perder o sustento dos seus, que é a principal vítima de negligência na saúde pública, que deixa seus filhos sozinhos em casa pra cuidar dos filhos da patroa branca, que é a maioria entre as trabalhadoras do sexo, que não completa os anos básicos de estudo porque precisa sair para trabalhar, que tem que se virar em quinze para viver e ainda manter o sorriso no rosto, essa não merece as homenagens desse dia.

Na verdade essa mulher é a serviçal que deve se alegrar por ter a honra de ver seus braços pretos
 aparecerem na televisão.
Afinal, o que a Riachuelo nos diz com esse filme, e o que muitas outras nos dirão nessa semana, é que mulher negra consumidora é paradoxo, e já que ela não existe, porque deveria ser representada numa propaganda? Quem disse que preta tem dinheiro? Quem disse que preta compra alguma coisa? Quem disse que preta entende de publicidade?

Pois estamos aqui, consumidoras, pensadoras, cidadãs, formadoras de opinião, dizendo que esse comercial não nos representa. Durmam com esse barulho!

Disponível em Blogueiras Negras 

sábado, 8 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Apenas uma entusiasta

Se é a tristeza que inspira os artistas.
É isso que nos une, meu caro.


Duas coisas me fazem escrever:
1. A tristeza;
2. A revolta.


A euforia não me deixa escrever.
A euforia me coloca na rua, pra curar os motivos que me fazem escrever.

Seria eu artista?
Não, sou apenas uma entusiasta!



Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas

Carnaval:

Noite de folia
Dia de ressaca
Tudo se foi, pelo ralo
Ligo o chuveiro
Vejo escorrer pelo meu corpo
Vejo se esvair pelo ralo.

Se foi a maquiagem.
Se foi o brilho.
Se foi o suor.
Se foi o cheiro.
Se foi o álcool.
Se foi a euforia.
Se foi a loucura.
Se foi o amor.
Se foi a fantasia.
Se foi o carnaval.
Se foi a alegria.

Se foi. Pelo ralo.



Por MARIA,L.P.

domingo, 2 de março de 2014

O discurso de Lupita Nyong’o

Com tradução de Maiara Lima, em Blogueiras Negras (28 de fevereiro de 2014).


Quero aproveitar esta oportunidade para falar sobre beleza, beleza negra, beleza escura. Eu recebi uma carta de uma menina e gostaria de compartilhar apenas uma pequena parte dela com vocês: “Cara Lupita,” onde se lê : “Eu acho que você realmente tem sorte por ser tão negra e ainda tão bem sucedida em Hollywood. Eu estava prestes a comprar um creme da “Whitenicious” para clarear minha pele quando você apareceu no mapa e me salvou.”

Meu coração sangrou um pouco quando li essas palavras, eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro trabalho seria tão poderoso e que me tornaria em uma imagem de esperança, da mesma forma que as mulheres de “A Cor Púrpura” foram para mim.

Lembro-me de um tempo em que eu também me sentia feia. Eu ligava a TV e só enxergava pele pálida, fui provocada e insultada sobre o tom da minha pele cor de noite. E a minha única oração a Deus, o milagreiro, era que eu acordasse de pele mais clara. Na manhã seguinte, eu acordava tão animada em ver a minha nova pele que eu recusava a me olhar até que estivesse na frente de um espelho, porque eu queria ver o meu rosto claro de primeira. E todos os dias eu experimentava a mesma decepção de ser tão escura como eu era no dia anterior. Tentei negociar com Deus, eu lhe disse que iria parar de roubar cubos de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria, eu obedeceria cada palavra da minha mãe e nunca perderia o casaco da escola de novo, se ele só me deixasse um pouco mais clara. Mas eu acho que Deus não se impressionou com as minhas barganhas, porque Ele nunca escutou.

E quando eu era adolescente, meu auto-ódio cresceu, como acontece durante a adolescência. Minha mãe me lembrou muitas vezes que ela me achava bonita, mas ela é minha mãe, é claro que ela deveria me achar bonita. E então … Alek Wek . Uma modelo célebre, ela era escura como a noite, ela estava em todas as passarelas e em todas as revistas e todo mundo estava falando sobre como ela era bonita. Até Oprah a achava bonita e fez disso fato. Eu não podia acreditar que as pessoas estavam abraçando uma mulher que parecia muito comigo, tão bonita. Minha pele sempre foi um obstáculo a ser superado e, de repente, Oprah estava me dizendo que não era. Foi desconcertante e eu queria rejeitá-lo, porque eu tinha começado a desfrutar da sedução da inadequação.

Mas a flor não poderia deixar de desabrochar dentro de mim, quando eu assistia Alek, via um reflexo de mim mesma que eu não podia negar. Agora eu tinha um degrau a cada passo meu, porque eu me sentia mais vista, mais apreciada pelos distantes guardiões da beleza. Em torno de mim a preferência pela minha pele prevaleceu, porém para os cortejadores com quem me importava, eu ainda era vista como feia. E a minha mãe novamente me dizia que você não pode comer beleza, porque ela não te alimenta, e estas palavras me atormentavam e incomodavam, eu realmente não entendia, até que finalmente me dei conta de que a beleza não era uma coisa que eu poderia adquirir ou consumir, era algo que eu tinha que ser.

E o que minha mãe quis dizer quando disse que você não pode comer beleza é que você não pode depender da sua aparência para se sustentar. O que é bonito é fundamentalmente a compaixão que você sente por si mesmo e por aqueles ao seu redor. Esse tipo de beleza inflama o coração e encanta a alma. Foi o que colocou Patsey em tantos problemas com seu mestre, mas também é o que tem mantido a sua história viva até hoje. Recordamos da beleza de seu espírito, mesmo depois que a beleza de seu corpo se foi.

E por isso espero que a minha presença em suas telas e revistas possa levá-la, jovem, em uma viagem semelhante. Que você sinta a validação de sua beleza externa, mas também chegue ao mais profundo objetivo que é ser bonita por dentro.

Não há vergonha na beleza negra.

***

O discurso de Lupita Nyong’o foi feito no evento ESSENCE Black Women In Hollywood.

sábado, 1 de março de 2014

Essa negra, sou eu. Negra, negrinha, negrona.



Sexta feira, um homem negro veio conversar comigo. Disse que o meu sorriso era o mais bonito. 
Até ai, tudo bem. O problema foi quando ele me chamou de morena.
Sorri e respondi, "meu bem, não sou morena, sou negra, como tu". 
O tom da minha pele me caracteriza branca?
Meu cabelo, minha boca, minhas formas, não dizem nada?

Pedi que não me levasse a mal, mas ''morena" é branca de cabelos negros. O "moreno" que cantava no bar, era tão pouco moreno quanto eu. Negro, negrinho, negrão. 

Gosto de conversas espontâneas na noite, que geram algum debate. Acho divertido. 
O plano não é polemizar, mas conscientizar. 

Essa negra, sou eu. Negra família, negra história, negra, negrinha, negrona. 


Ai, respondendo um questionário, sobre o acesso de negrxs na universidade, expressei um pouco sobre isso:

O que caracteriza ou define essa categoria escolhida para indicar a sua cor/raça? *

Para além da cor da minha pele, ser negra é uma categoria construída histórica e politicamente. Minha família é negra, não teve acesso ao ensino e permaneceu em cargos subalternos. O fato da minha pele ser mais clara que a dos meus pais e antepassados, não me faz branca. Tive sim mais oportunidades, mas continuo sentido o peso político da minha história e da minha auto afirmação.



Essa negra, sou eu. Negra, negrinha, negrona. 

Por MARIA, L.P.