quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Versos pretos de um não poema


O meu corpo, preto.
A tua pele, preta.
O meu cabelo enroladinho, quase preto.
A tua boca grossa, que não é preta.
O teu cabelo engraçado, coisa de preto.
As minhas curvas, misturando nas tuas, pretas.
O nosso suor molhando o lençol, que não é preto.
Minhas pernas confundidas com as tuas, pernas pretas.
O beijo molhado no pescoço arrepiado, e preto.
O que restou das nossas roupas, no chão preto.
O teu braço envolta do meu corpo, preto.
O tesão, o desejo, metáforas de sentimento, que não têm cor.
O mistério dos encontros, na noite, preta e longa.         
Os desencontros, nos dias sem cor. 


Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Minha indignação à ação da mídia burguesa



Hoje, gostaria de compartilhar minha indignação à ação da mídia burguesa, tentando manipular a ação popular organizada pelos moradores da Vila Esmeralda/ Bairro Canudos/Novo Hamburgo.
Você até pode sair da vila, mas a vila jamais sai de você!
Antes da resposta, leia a reportagem 





A/C Micheli Aguiar - sobre o I Ato em defesa dos Moradores da Vila Esmeralda

Prezada Michele,

Escrevo este email para manifestar minha profunda decepção com a reportagem sobre a mobilização dos moradores da Vila Esmeralda, ocorrido no dia 19 de outubro. Foi importante a reportagem ter saído no suplemento do bairro, mas creio que deixamos claro que a mobilização tem fins específicos, que precisam ser amplamente divulgados em toda a cidade.

Primeiramente, é necessário deixar público que a manifestação não foi para cobrar a liberação do FGTS dos moradores, mas para pressionar que o poder público tome atitudes para que não mais ocorram enchentes, sobretudo na proporção que vimos em agosto passado.

Fomos às ruas porque a população está cansada de ser feita de idiota pelos governos do PT, em nível municipal e estadual. Fomos às ruas porque somos vítimas da Avenida dos Municípios, “obra pra inglês ver”, que há anos está parada, onde ao invés de proporcionar mobilidade para os moradores do bairro, represa água alagando as vilas ao redor. Fomos às ruas para exigir que as obras sejam conduzidas com segurança, pensando que a sua infraestrutura é determinante para o futuro do Bairro Canudos. Fomos às ruas porque a prefeitura vem enrolando a população, em relação a resolução do problema das cheias. 

Fomos às ruas, pois existe uma Associação dos Moradores da Vila Esmeralda, que não se manifestou e não se colocou a disposição dos moradores, pois a sua direção têm relação política com o vice prefeito e por isso ainda fez campanha contra a mobilização popular, tentando fazer as pessoas acreditarem que a organização popular e a luta de nada servem. Fomos às ruas porque os municípios de São Leopoldo, Campo Bom e Sapiranga já haviam tido o benefício da liberação do FGTS e Novo Hamburgo ainda não havia liberado.

A reportagem veiculada deu a entender que o FGTS fosse a única revindicação. Revindicamos mudanças, pois morar é direito, não privilégio. Os moradores querem reconstruir suas vidas com o dinheiro que lhes é de direito, mas se não forem tomadas providências urgentes, da próxima enchente nem desse benefício a população poderá gozar. Se o ato fosse apensa por esse motivo, não teria motivo para ter mais uma edição, no sábado próximo, dia 02 de novembro.

Como membro da comissão em Defesa dos moradores da Vila Esmerada, quero manifestar publicamente minha decepção com a reportagem veiculada. Mostrou claramente a quem a imprensa hamburguense está a serviço, e não é da população. Imprensa burguesa não me representa.

Grata pela atenção,



Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu e meus crespos

Já fazem mais de seis meses que cortei meu cabelo.


Hoje, homens e mulheres tocam nos meus crespos e me dizem "Neg[r]a, você é linda!"
Acabou a história de "morena".

O mais importante, eu me sinto bonita, plena e feliz. 
A ditadura dos lisos, nesse corpo, acabou.



Por MARIA,L.P.

sábado, 19 de outubro de 2013

I Ato em defesa dos moradores da Vila Esmeralda

Novo Hamburgo - Canudos - 19 de outubro de 2013.



Há anos, algumas localidades do município sofrem com o descaso dos governos locais. No entanto, desde que iniciaram as obras da Avenida dos Municípios (parada desde 2008) as consequências do crescimento sem planejamento por parte desses governos vem atingindo a população hamburguense, refletida diretamente nos moradores da Vila Esmeralda, no Bairro Canudos.
No ano de 2008 a comunidade sofreu com uma grande enchente, mas nenhuma providencia foi tomada posteriormente, até que em agosto deste ano, depois de dias de chuvas, a vila foi fortemente atingida pela força das águas, agora de forma muito mais intensa, pela quantidade de água e pela falta de infraestrutura atingiu centenas de casas, levando ao prejuízo e ao desespero as famílias de trabalhadores, que viram seu trabalho levado com a destruição de suas casas e seus objetos pessoais.
Frente a isso, o prefeito Luis Laeurmann (PT) além decretar Estado de Emergência de forma tardia, não alertou a população do nível do desastre, já previsto pela Defesa Civil, visto que o Rio dos Sinos subiu rapidamente, cerca de 8 metros além da sua capacidade. Em razão disso, a comunidade não teve tempo nem estrutura para se proteger das cheias. 

CANUDOS RESISTE!

CANUDOS RESISTE!
MORADOR NA RUA, PREFEITO A CULPA É TUA!
 

Por isso, os moradores exigem do poder público reparação imediata pelos prejuízos causados às nossas casas e nossas famílias, assim como exigimos a imediata conclusão das obras da Avenida dos Municípios, com a instalação de uma ponte, a instalação de uma casa de bombas e a drenagem do local.














Veja mais no facebook!


Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sonhei que tive um sonho

Sim, eu sonhei que tive um sonho.

No sonho do meu sonho, cairam meteoros brancos.
No meu sonho, acordo na casa dos meus pais, arrumo minha mochila e peço para eles fazerem o mesmo. Os meteoros começam a cair. Vemos o fogo ao longe.

Eis que chega um amigo deles, o Claudir (que os socorreu durante a enchente - de verdade) nos coloca no seu carro e nos leva para sua casa. No caminho, observo a crianças da vila, brincando na rua: não faz diferença, ninguém vai ajudar mesmo... não há o que fazer.
Claudir propõe abastecer os carros, pegar mantimentos e rodar até encontrar um local seguro. Eu acho perigoso, pois topldos fariam o mesmo o que faria que ficassemos presos no trânsito: ligo o rádio, tento internet e tudo está mudo.

Vejo as pedras brancas caindo e colocando tudo em chamas.
Nem governo, nem estado, nem igreja. Eles estão surdos!

Pegamos a estrada, em desespero: a estrada está vazia.
O mundo explodia, e ninguém estava nem aí.
Foi o dia que a terra parou.

...

Ai eu acordei. Meu corpo suava frio. Estava em casa, não havia mais ninguém. O dia estava ensolarado lá fora, nada caía do céu.

Mas continuava com a mesma impressão: as pessoas não estavam preocupadas com o que estava acontecendo: não fazia diferença, ninguém podia ajudar mesmo... não foi o dia em que a terra parou, mas nem estado, nem governo, nem igreja. Eles estão todos surdos!

Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O amargo ficou doce

Um gosto amargo me descia garganta a baixo.
Fiquei quietinha, em meu canto, esperando a parte ruim daquela sensação passar.
Chegaste e beijaste minha boca.
O amargo ficou doce.


Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ter alguém para chamar de seu


Ainda no ritmo de escrever sobre casamentos e relacionamentos, quero comentar a frase que dá titulo ao post.
Recentemente, vi numa novela da globo, a "gordinha" que queria perder a virgindade, mas procurava o príncipe encantado. No dialogo com o pretendente, ele comentava que.queria largar a vida de pegação, e encontrar alguém que lhe fizesse companhia, alguém para chamar de seu...

Eis a questão: alguém pra chamar de seu.
Mas porque algumas pessoas insistem em ter alguém para se apropriar? Quando amamos, sentimos a necessidade física de estar ao lado dx nossx amadx. Mas querer bem e querer ficar junto não significa possuir outro. Ao menos, não necessariamente. O fato e que amor e posse são coisas diferentes, no entanto no capitalismo (na sociedade judaico cristã capitalista) aprendemos que precisamos encontrar a pessoa (uma só) certa e ficar o resto das nossas vidas com essa pessoa, constituir uma familiar (nuclear e monogâmica) adquirir uma propriedade (casa, ap, carro) e assim ser feliz,  na dependência e na posse do outro e dessas propriedades materiais.

Isso e tão triste e determinante que ate esquecemos dos motivos que nos levaram amar este alguém. Alguém este que eu esqueço quem é porque me envolvi, e torno apenas meu objeto de desejo  que exibo ao mundo como troféu.
Esqueço que amo, esqueço que tudo.

Apenas possuo a quem chamo "meu".

Por MARIA,L.P.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Gritaram-me NEGRA!

Gritaram-me NEGRA! (Victória Santa Cruz)




"E daí? E daí?
Negra! Sim
Negra! Sou
Negra!Negra Negra!
Negra sou! Negra! Sim
Negra!Sou
Negra!Negra!Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar ? segundo eles ?
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
NEGRO
Afinal
Afinal compreendi
Já não retrocedo
E avanço segura
Avanço e espero
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
Já tenho a chave!
NEGRO
Negra sou!"

Sobre filhos, pais e não-famílias

Mais um texto meu, publicado em 07 de outubro no Blogueiras Negras
Sobre filhos, pais e não-famíliasPor Letícia Maria para as Blogueiras Negras

Algumas vezes, quando visito meus pais nos finais de semana, se volto de trem faço algumas observações.
No fim de semana do Dia dos Pais, minha mãe me ligou me convidando para ir até a casa deles no sábado, pois alguns tios iriam jantar lá a noite. Como chovia muito, topei ir de trem, visto que normalmente vou visitá-los em domingos de moto, passo o dia e retorno.


Naquele dia dois pais, voltei de trem, de Novo Hamburgo a Porto Alegre, e reparei vários homens com crianças. Domingo à noite, o trem estava vazio, mas somente no vagão onde eu estava, haviam pelo menos uns 12 homens sozinhos, com crianças. Achei curioso, e percebi que era um domingo dos pais que findara, e esses homens estavam a devolver as suas crianças às mães. Em um primeiro momento, achei bonitinho… depois achei triste. Tenho muitos amigos homens que tem filhos, e realmente fazem um esforço para estarem presentes na vida dos seus pequenos. Assim como conheço alguns (vários) que pagam pensão e não estão nem aí para as crianças.


imagem: Nosso Blog


Como filha de uma família nuclear e tradicional, sei da importância da presença de ambos. Mas senti a tristeza de alguns daqueles pais, muitos deles jovens como eu, que queriam realmente estar com seus filhos por mais tempo e não podem, não pela relação com as mães, mas pela própria vida.


Triste, mas também vi aqueles que estava estampado na cara, que já tinham cumprido sua obrigação paterna, e o expediente estava terminando. Ai eu me pergunto, quantos daqueles pequenos não chegaram por acidente, sem planejamento ou por irresponsabilidade mesmo, daqueles pais? Seria mesquinho culpar alguém, sobretudo da minha posição feminista… Mas estou certa de que a culpa não é das mães.


Mas sim, um dia dos pais que termina na hora de devolver a criança a mãe, é um dia muito triste. 

Insisto,quando digo que filhos não estão nos meus planos de vida, quando são estes que acabam sofrendo as consequências da irresponsabilidade e do desprezo dos adultos quando há crises em meio as relações.

Outro dia voltando à Porto Alegre de trem, observei essa realidade novamente. Filhos são a maior responsabilidade que alguém pode ter, para que seja banalizada. Você pode escolher uma profissão, mudar de cidade, casar, descasar, virar vegetariano, começar uma dieta e nisso tudo pode se voltar atrás, menos quando há um filho. Por isso, entre tantos outros motivos, é necessário o direito da mulher de decidir. Por mais triste que seja o olhar daquele homem do trem no dia dos pais, vejo o olhar de tantas mulheres a vida inteira, porque não puderam escolher ter ou não aqueles filhos.

Por MARIA, L.P.


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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Mas, e ai?

Ai você dirige 45km para visitar teus pais, pega a BR, vai e volta de boa.
Ai fura o seu pneu, e o borracheiro mais próximo cobra R$20 só no remendo.
Ai o borracheiro aperta tanto a corrente da tua moto, que a roda traseira mal gira.
Ai você anda novamente os 45km com a roda presa, e nada acontece.
Ai você leva um gatinho para dar uma voltinha, ele se apavora de andar na sua carona, gela, mas vai.
Ai você anda no Centro de Porto Alegre, dá trocentas voltas e consegue estacionar.
Ai num fim de tarde, você está voltando pra casa, numa boa, e alguém bate em você há uma quadra de casa.
Ai você descobre que o cara que te derrubou é médico, tem outras duas médicas passando, de testemunhas, mas você só bateu o joelho.
Mas e se eu tivesse realmente me machucado, teria tido tanta atenção?

Mas, e ai?


Por MARIA, L.P.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mais um brinde ao casamento

Escrevi esse post enquanto aguardava o inicio do casamento da minha amiga Alba.
Algumas breves considerações...

Alba e uma querida amiga, que conheci na universidade. Durante um bom tempo, fomos as únicas mulheres negras no curso de historia. Nos conhecemos nos corredores, mas nunca tivemos aula juntas, até porque ela se formou dois anos antes que eu. Ficamos próximas quando fui trabalhar na escola de educação infantil onde ela já dava aula. Ai descobrimos que tínhamos muito em comum.
Passamos por algumas em Campo Bom, cidade mais racista e conservadora que conheci...
Mas também apesar das complicações de trabalhar lá, além de um bom trabalho, nos divertíamos trabalhando com o que a gente gosta.
Fizemos também grandes festas... Muito samba, e um copo na mão. Até eu ouvir da mãe dela a pérola maior: nêga que não samba, não arruma marido!
[nota mental: aprendi a sambar, mas marido não entrou no plano]

Entre tantos belos momentos, entre eles a formatura, me inspirei e me espelhei muito nessa mulher, independente, decidida, valente e lutadora, que hoje casa.
[nota importante: Alba e a minha segunda amiga historiadora que casa, as duas casaram com também historiadores]

Muito embora eu não seja fã da instituição matrimonial, por acreditar que ela tem como função controlar a mulher, na categoria de esposa/mãe, a fim que ela reproduza as relações de dominação patriarcal e capitalista. No entanto, quando o casal, mas, sobretudo a mulher tem consciência disso, e ainda assim escolhem viver juntos, com o cerimonial cristão, mas com distintas perspectivas de der a relação e a vida a dois,não é ilusão, é loucamente corajoso!





Alba e Luiz, sejam felizes!


Por MARIA,L.P.