quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Resiste, povo de Canudos!

Canudos, 2013.

"O trabalhador é, antes de tudo, um forte."
Veja minha pretensão, parafrasear Euclides da Cunha.

Ouvindo Súplica Cearense, com O Rappa, não há como não parafrasear a desgraça do pobre vivente de Canudos. Que ironia, parafrasear a desgraça.

Como eu queria não escrever sobre isso. Mas sim, vou lamentar a desgraça.

Canudos é um bairro da cidade de Novo Hamburgo/RS. Bairro para onde a minha família mudou em março de 1994. Vivíamos em uma casa de três cômodos, com mais fendas que paredes. E quando chovia, não sei onde tinha mais água – se dentro ou fora da casa. Quando chegamos, haviam poucas casas, a rua era de chão batido, a redondeza era rodeada de vegetação de banhado. Falavam das enchentes, mas presenciamos poucas delas. Naquele ano, vimos uma, onde a rua foi tomada de água, mas nada sério. As pessoas sabiam conviver com isso.

Ao longo do crescimento do bairro, com a urbanização crescente a rua foi levantada, as casas construídas em um nível confiável. No entanto, o encanamento e o esgoto, não tiveram grandes mudanças.

Em 2008, o bairro viveu uma grande enchente. Na época, eu lecionava na Escola de Educação Infantil da vila.
Vimos a água entrar na casa do meu irmão, com 1m de altura dentro de casa. Vimos a água entrar na casa dos meus pais – onde eu vivia – com não mais de 15cm. As ruas tomadas de água, nos movíamos de barco. Foi muita tragédia, no entanto, os estragos não foram tão grandes. As pessoas conseguiram salvar muitas coisas.

Agosto, 2013. Ironicamente, escrevi sobre o mês do desgosto. Quanta ironia.

Depois de vários dias de chuvas, o cenário retorna. Enchentes a vista.
Com base em 2008, a comunidade se organiza. E se horroriza.
As águas sobem violentamente, com mais força, quantidade e violência que outrora.
Alguns conseguiram salvar suas coisas. Alguns foram surpreendidos na madrugada com água em suas camas. Outros retornaram do trabalho e apenas não conseguiram entrar na vila.

O fato é que muitos perderam muito. Outros, tudo.
Eu já tinha visto isso acontecer, mas agora, a proporção foi imensamente maior.
E meus pais foram atingidos. E perderam muito.

Acontece, que meus pais, cedo ou tarde, vão conseguir se estabilizar financeiramente, mesmo que isso custe muito. No entanto, pior que perder todos os seus móveis (e sim, eles perderam todos móveis da cozinha e quarto), perderam-se fotos, objetos queridos, lembranças. Mas o mais importante foi levado com a água: a alegria de viver onde se construiu uma vida.

Foto do Facebook: Esta foto aparece a zona alagada do Bairro Canudos. Ao fundo a Av. dos Municípios. No meio da foto é o Arroio Pampa. À esquerda do arroio é a Vila Getúlio Vargas, mostra a Rua Bruno Werner Storck bem alagada, a Escola Mun. Tancredo Neves, a ESF Getúlio Vargas e a Casa da Cultura e Cidadania (tudo em baixo d'água). À direta do arroio é a Vila Kippling. São muitas famílias, muitas mesmo. Isto só em Canudos, Novo Hamburgo ainda está com enchentes nos Bairros Santo Afonso e Lomba Grande.

Vi no rosto do meu pai o retrato da tragédia: perder a alegria de viver.

Mais doloroso que ver os objetos destruídos, e ver o trabalho de anos ser levado junto com a água. A mesma água da chuva que esperamos ansiosamente no verão, nos causa desespero nesses dias.

Andar nessas ruas e vê-las cheias de móveis e objetos completamente destruídos, não é mais triste que ver a dor no rosto das pessoas que colocam essas coisas no lixo.
No lixo, foi jogada a dignidade desse povo.

O descaso do poder público com essas pessoas é indescritível.
Enquanto o governo não assume sua responsabilidade, os oportunistas estão fazendo a festa na desgraça alheia. Saqueadores levam o pouco que as pessoas ainda tem, futuros candidatos aproveitam para fazer campanha eleitoral, os vereadores fazem corpo mole para votar a possibilidade de algum benefício para essa gente: só em Canudos, foram mais de 4mil pessoas desabrigadas e desalojadas (enquanto no RS todo foram 17mil).

Eu, que agora estou morando em outro lugar, sofro da mesma tristeza dos meus.
Mas insisto para que não desistam da alegria de viver. A duras penas, precisamos reconstruir, sem depender de deus ou do poder público, mas cobrando e reivindicando que os responsáveis sejam punidos: não é possível que esse povo pague pela irresponsabilidade do Estado.

Mais importante que trabalhar para reconstruir as vidas, é lutar para tragédias não se repitam.
Sim, foi um “desastre ambiental”, que atingiu milhares de pessoas pois a cidades não tem estrutura para se proteger e se prevenir das cheias. Não podemos perder tudo, e achar isso normal. A tragédia não é normal.

Como eu disse por aqui: triste é num cachorrinho atropelado ao atravessar a rua. As pessoas perderem suas casas, suas coisas e sua dignidade é trágico.

Não podemos naturalizar isso. Não podemos deixar que se promovam na tragédia. Não podemos nos adaptar ao caos.

Canudos, só pode ser terra de lutadores.  Canudos tem que resistir!

Se agosto foi o mês do desgosto, setembro traria esperanças pra essa gente?
Temo que não.

Resiste, Canudos!



Por MARIA, L.P.

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