sábado, 21 de setembro de 2013

Negro gaúcho. Memória farroupilha ou lanceira?

Por Letícia Maria para as Blogueiras Negras

Baseado no discurso do senso comum, nas poucas vezes que sai do Rio Grande do Sul, fui olhada com estranhamento, quando me apresentava como gaúcha: em alguns lugares ainda se imagina que é um estado sem negros.
O Rio Grande do Sul é tido como o estado mais europeu do Brasil. É fato que as correntes migratórias foram fortes por aqui (açorianos em 1740, alemães em 1824, italianos em 1875). Mas antes desses imigrantes chegarem, diversas etnias indígenas já habitavam o território, além dos negros, que chegaram a partir 1737.


Chamado “Terra de Ninguém”, o território passou a ser ocupado oficialmente em meados do Século XVIII, com distribuição de Sesmarias (lotes de terra) pelo Rei de Portugal, destinadas à criação de gado e estimulando a imigração e o povoamento. Com a miscigenação entre os nativos e os recém chegados imigrantes, surge então o gaúcho brasileiro, a partir de 1732. Antes disso, com o Tratado de Tordesilhas (1494), o território pertencia a Espanha. Resultado de acordos políticos, a região necessitava de um “povoamento civilizado”, pois outrora era habitado por populações indígenas, portanto, Terra de Ninguém.
Os negros no RS foram trazidos para trabalhar nas charquedas, que eram grandes fazendas que produziam charque. Esse produto era comercializado para servir de alimento para os escravos de todo país, e por isso o estado vendia muito.
O charque foi uma solução encontrada para aproveitar melhor a carne, que salgada e seca tinha uma durabilidade maior, e era comercializada, mas vinha sendo desvalorizado cada vez mais, o seu valor reduzia-se basicamente ao couro e ao sebo.
O escravo gaúcho, no campo, normalmente se dividia em dois grupos: o da charqueada e o campeiro. A lida de um escravo campeiro, em geral, não era tão ”penosa” como nas charqueadas, visto que se trabalhava a cavalo e entre poucas pessoas. Essa função era vista como perigosa pois a estes cativos eram entregues instrumentos de trabalho e andavam a cavalo sem nenhuma vigilância. Isso reforça o mito de que a escravidão no RS tenha sido mais branda, pois nas charqueadas e nas fazendas cafeicultoras e açucareiras, não se encontrava escravos com tais níveis de “liberdade”, no entanto não há um consenso entre os historiadores a respeito da participação do escravo na atividade pastoril.
No entanto, sabemos que a exploração da mão de obra negra tenha sido amena nesse estado. A realidade, é que a população negra tinha um grande crescimento, o que impulsionou o envio de imigrantes para “clarear” a terra.

O gentílico “gaúcho” foi aplicado aos habitantes do atual território do Rio Grande do Sul, de forma pejorativa por motivos políticos, no período da Revolução Farroupilha (1835-1845). Como a terminologia surgiu em razão da pobreza e da mestiçagem, a expressão não era vista com dignidade e valor. Mas de uma utilização pejorativa, o termo gaúcho passou o a ser incorporado pelos próprios rio-grandenses, ao final do conflito, com a assinatura do tratado de Paz, e a incorporação dos soldados gaúchos ao Exército Brasileiro
O RS passou por um episódio, lembrado saudosamente pelo movimento tradicionalista, que foi a Revolução Farroupilha, entre 1835 e 1845. Esse foi um conflito, onde a elite local reivindicava menores impostos para o charque gaúcho ao Império. A briga era entre os grandes latifundiários da terra, mas quem acabou lutando foram os pobres e escravos: no começo do conflito, a população negra gaúcha era de 30%.
Lanceiro Negro
Lanceiro Negro
Mas a saber, os negros foram convocados a lutar por seus senhores, que ocupavam grandes postos nos exércitos, enquanto os seus escravos compunham o front de batalha: os lanceiros negros. Negros estes que receberam apenas lanças para lutar, e ficava a frente da cavalaria, popularmente, “bucha de canhão”.
Nos anos finais, a manutenção do conflito era muito cara e custosa, as negociações de paz estavam tramitando. Negociando o preço dos impostos sobre o charque, os revolucionários farroupilhas receberiam a anistia e seriam incorporados ao exército imperial (para lutar a Guerra do Paraguai). No entanto, os negros que lutaram, nada receberiam… os boatos de que os que lutaram receberiam a liberdade não passava de um blefe, para que não fugissem para o Uruguai, onde a escravidão já havia acabado.
Os negros sofreram um grande golpe dos farroupilhas: na noite de 14 de novembro de 1844, foram desarmados a mando do General David Canabarro, e mortos na chacina do Cerco de Porongos, na atual cidade de Pinheiro Machado.
Os negros foram entregues à morte pelo comandante do exército farroupilha, em um (dos vários) acordo(s) que desencadearam no Tratado de Paz de Ponche Verde, em 1º de março de 1845.
A Revolução Farroupilha, conflito burguês que massacrou os pobres e negros do RS, hoje, no Vinte de Setembro é comemorado como data máxima do povo gaúcho.

É inegável que a Ronda Gaúcha (posteriormente chamada Crioula) teve importante papel para a formação do atual Movimento Tradicionalista. Em 1947, um grupo de estudantes do Colégio Julio de Castilhos, de Porto Alegre, criou um Departamento de Tradições Gaúchas, com fins de preservar a cultura gaúcha, recordando a realidade do campo. De acordo com os documentos do MTG, esses jovens, atuaram em parceria com a Liga da Defesa Nacional, que os incumbiu de fazer o translado dos restos mortais do herói farrapo David Canabarro, que seria transladado de Sant’Ana do Livramento para Porto Alegre. [...] Da última centelha do Fogo Simbólico da Pátria, se acendeu a Chama Crioula, que se matem viva de do dia sete até o vinte de setembro. E com o Grupo dos Oito, é inaugurado o desfile cívico-militar, realizado pela Brigada Militar e pelos jovens tradicionalistas do Vinte de Setembro.
Da memória de um conflito que não atendeu interesses populares, se criou uma data comemorativa, para a memória de um grupo social. Que naturalmente, não foram os negros: quando o herói de um povo é o assassino dos que lutaram por esse povo, existe algo de errado, seja no conceito de “herói”, seja o conceito de “memória”, seja o conceito de “pátria”
A concepção de cultura, patrimônio, e, sobretudo tradição, utilizada pelo movimento tradicionalista gaúcho é bastante peculiar: vai ao encontro do projeto político defendido e voltado a um passado glorioso, com vistas às gerações futuras.
O tradicionalismo, nesse sentido, é um elemento difusor ideológico, a serviço do Estado e de uma classe social, através do qual é de interesse que sentimentos e valores sejam disseminados, juntamente com um progressivo discurso moralista, presente nas mais diversas ações e costumes.

Aquele que não pertence ao meio recordado pelo movimento não faz parte da cultura gaúcha. Este se torna alheio ao gauchismo, na medida em que o tradicionalismo cria um passado mítico, constrói-se e dissemina um “gaúcho” ideal, que além de não condizer com o real, exclui uma significativa parcela da população do pertencimento territorial, cultural e político.
De alguma forma, não há problemas em um povo homenagear a sua cultura e cultivar as suas tradições. Na teoria, isso é bonito. No entanto, a cultura gaúcha comemorada nos piquetes e nos acampamentos farroupilhas espalhados Rio Grande a fora, não passam de uma versão da história, construída na década de 1940, com início no Estado Novo e fortemente disseminada durante a Ditadura Militar.
A representação de um setor da sociedade, em detrimento dos demais, é algum muito ruim. É opressor. Violenta os demais.
O Rio Grande do Sul é um estado onde vivem negros. Um estado onde negros colaboraram com sua cultura, com sua historicidade, com seus valores, com sua religião.
Nós, negros, estamos aqui. Reivindicamos a memória aos Lanceiros Negros, que viveram, lutaram e morrem por liberdade.

Disponível em Blogueiras Negras

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pensando em relações inter raciais

Confesso que quando li sobre relações inter raciais perla primeira vez, fiquei um pouco chocada.

Entenda mais, lendo no Blogueiras Negras:


No entanto, passei a observar e analisar minhas próprias relações afetivas quando li que mulheres negras casam-se menos. Fiquei profundamente emocionada quando li “Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra”, pois nunca havia pensado são seriamente nessa questão. E também me vi um pouco nesse texto, assim como nos outros...

Mas esse último texto, "Racismo: a cor da relação" me deixou bastante inquieta sobre o elemento cor, nas relações afetivas. Fiz longas conversas com companheiras negras, e com brancas que se relacionam com negros, já há algum tempo... mas esse tema não esgotou.

Uma observação que fiz nesse fim de semana, me inclinou muito a fazer algumas observações: casais compostos por homens negros e mulheres brancas são mais comuns que homens brancos e mulheres negras? Casais compostos por casais brancos são mais comuns que casais negros?

Ainda não tenho grandes conclusões, e como estou com pouco tempo para escrever, estou adiando... mas quero sinalizar que, pretendo escrever algo sobre isso.


Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Resiste, povo de Canudos!

Canudos, 2013.

"O trabalhador é, antes de tudo, um forte."
Veja minha pretensão, parafrasear Euclides da Cunha.

Ouvindo Súplica Cearense, com O Rappa, não há como não parafrasear a desgraça do pobre vivente de Canudos. Que ironia, parafrasear a desgraça.

Como eu queria não escrever sobre isso. Mas sim, vou lamentar a desgraça.

Canudos é um bairro da cidade de Novo Hamburgo/RS. Bairro para onde a minha família mudou em março de 1994. Vivíamos em uma casa de três cômodos, com mais fendas que paredes. E quando chovia, não sei onde tinha mais água – se dentro ou fora da casa. Quando chegamos, haviam poucas casas, a rua era de chão batido, a redondeza era rodeada de vegetação de banhado. Falavam das enchentes, mas presenciamos poucas delas. Naquele ano, vimos uma, onde a rua foi tomada de água, mas nada sério. As pessoas sabiam conviver com isso.

Ao longo do crescimento do bairro, com a urbanização crescente a rua foi levantada, as casas construídas em um nível confiável. No entanto, o encanamento e o esgoto, não tiveram grandes mudanças.

Em 2008, o bairro viveu uma grande enchente. Na época, eu lecionava na Escola de Educação Infantil da vila.
Vimos a água entrar na casa do meu irmão, com 1m de altura dentro de casa. Vimos a água entrar na casa dos meus pais – onde eu vivia – com não mais de 15cm. As ruas tomadas de água, nos movíamos de barco. Foi muita tragédia, no entanto, os estragos não foram tão grandes. As pessoas conseguiram salvar muitas coisas.

Agosto, 2013. Ironicamente, escrevi sobre o mês do desgosto. Quanta ironia.

Depois de vários dias de chuvas, o cenário retorna. Enchentes a vista.
Com base em 2008, a comunidade se organiza. E se horroriza.
As águas sobem violentamente, com mais força, quantidade e violência que outrora.
Alguns conseguiram salvar suas coisas. Alguns foram surpreendidos na madrugada com água em suas camas. Outros retornaram do trabalho e apenas não conseguiram entrar na vila.

O fato é que muitos perderam muito. Outros, tudo.
Eu já tinha visto isso acontecer, mas agora, a proporção foi imensamente maior.
E meus pais foram atingidos. E perderam muito.

Acontece, que meus pais, cedo ou tarde, vão conseguir se estabilizar financeiramente, mesmo que isso custe muito. No entanto, pior que perder todos os seus móveis (e sim, eles perderam todos móveis da cozinha e quarto), perderam-se fotos, objetos queridos, lembranças. Mas o mais importante foi levado com a água: a alegria de viver onde se construiu uma vida.

Foto do Facebook: Esta foto aparece a zona alagada do Bairro Canudos. Ao fundo a Av. dos Municípios. No meio da foto é o Arroio Pampa. À esquerda do arroio é a Vila Getúlio Vargas, mostra a Rua Bruno Werner Storck bem alagada, a Escola Mun. Tancredo Neves, a ESF Getúlio Vargas e a Casa da Cultura e Cidadania (tudo em baixo d'água). À direta do arroio é a Vila Kippling. São muitas famílias, muitas mesmo. Isto só em Canudos, Novo Hamburgo ainda está com enchentes nos Bairros Santo Afonso e Lomba Grande.

Vi no rosto do meu pai o retrato da tragédia: perder a alegria de viver.

Mais doloroso que ver os objetos destruídos, e ver o trabalho de anos ser levado junto com a água. A mesma água da chuva que esperamos ansiosamente no verão, nos causa desespero nesses dias.

Andar nessas ruas e vê-las cheias de móveis e objetos completamente destruídos, não é mais triste que ver a dor no rosto das pessoas que colocam essas coisas no lixo.
No lixo, foi jogada a dignidade desse povo.

O descaso do poder público com essas pessoas é indescritível.
Enquanto o governo não assume sua responsabilidade, os oportunistas estão fazendo a festa na desgraça alheia. Saqueadores levam o pouco que as pessoas ainda tem, futuros candidatos aproveitam para fazer campanha eleitoral, os vereadores fazem corpo mole para votar a possibilidade de algum benefício para essa gente: só em Canudos, foram mais de 4mil pessoas desabrigadas e desalojadas (enquanto no RS todo foram 17mil).

Eu, que agora estou morando em outro lugar, sofro da mesma tristeza dos meus.
Mas insisto para que não desistam da alegria de viver. A duras penas, precisamos reconstruir, sem depender de deus ou do poder público, mas cobrando e reivindicando que os responsáveis sejam punidos: não é possível que esse povo pague pela irresponsabilidade do Estado.

Mais importante que trabalhar para reconstruir as vidas, é lutar para tragédias não se repitam.
Sim, foi um “desastre ambiental”, que atingiu milhares de pessoas pois a cidades não tem estrutura para se proteger e se prevenir das cheias. Não podemos perder tudo, e achar isso normal. A tragédia não é normal.

Como eu disse por aqui: triste é num cachorrinho atropelado ao atravessar a rua. As pessoas perderem suas casas, suas coisas e sua dignidade é trágico.

Não podemos naturalizar isso. Não podemos deixar que se promovam na tragédia. Não podemos nos adaptar ao caos.

Canudos, só pode ser terra de lutadores.  Canudos tem que resistir!

Se agosto foi o mês do desgosto, setembro traria esperanças pra essa gente?
Temo que não.

Resiste, Canudos!



Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

RACISMO: A cor da relação

Este textos não são meus. Procuro replicar apenas trechos de postagens que leio, mas me senti no compromisso de replicar na íntegra. Janaína, Daniela, Denise e Marília: me senti um pouco na pele de cada uma dessas mulheres. Não pela ânsia de um casamento, propriamente dito, mas por sentir a mesma dor de não sentir-se amada por conta da cor da minha pele, pela forma dos meus cabelos, pela compreensão da minha história.
Aos leitores queridos, para que melhor compreendam essa blogueira negra e solitária, leia até o final!

Leia a postagem na íntegra em Feminismo.org

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RACISMO: A cor da relação


Quatro mulheres lindas e bem-sucedidas confirmam a tese que alguns estudos já abordaram: as negras têm mais dificuldade em engatar romances sérios
As estatísticas no Brasil que confirmam a tese do abandono como consequência da raça são raras, mas a discussão é antiga. Professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e doutoranda na PUC/SP, Maria Nilza da Silva diz que, na década de 1950, alguns teóricos tentavam entender o fenômeno de desvalorização da mulher negra, pouco vista como uma opção para ser esposa e parceira. “Já naquela época, para ser escolhida nesse contexto da conjugabilidade, a mulher negra acaba se relacionando com um homem de classe social mais baixa. Para ser escolhida, ela deveria ter alguma vantagem.” 

Motivada pelo tema, Maria Nilza também pesquisou a menor oferta de parceiros disponível. Isso foi nos anos 1990, mas a professora defende que pouca coisa mudou de lá para cá. “A mulher negra continua discriminada em vários segmentos, inclusive no matrimônio. A possibilidade de encontrar um companheiro ou um parceiro é menor para ela”, afirma.

Intrigada pelo fato de as mulheres negras serem mais solitárias do que as brancas, a pedagoga e mestre em ciências sociais Claudete Alves resolveu, durante um ano e meio, mapear 1.127 casais em São Paulo. Desses, apenas 418 eram formados por homem e mulher negros. Uma das explicações para o número tão reduzido de casais de mesma raça estaria no fato de que os negros que ascendem socialmente querem se relacionar com as brancas. Eles buscam na união com outra raça uma forma de reforçar sua situação de suposto status. “O negro quer ter o que o branco tem e isso inclui a mulher branca. Muitos querem filhos com a pele mais clara do que a deles para não sofrerem o preconceito que eles também sofreram”, resume Claudete. 

A rejeição também parte dos homens brancos. No Brasil, a negra é a minoria nos espaços culturalmente reservados para quem tem pele clara. Isso automaticamente as deixaria em desvantagem em relação às brancas. 

Dos 18 casamentos civis que Claudete presenciou ao longo da pesquisa, apenas três uniram pares de negros. Uma dificuldade de encontrar um companheiro de mesma cor foi confirmada por todas as 11 mulheres negras que a pesquisadora ouviu na época. Entre os relatos, muitas contavam que, quando mais jovens, eram procuradas pelos negros apenas para iniciação sexual. Quando engravidavam, eles dificilmente assumiam o filho. Era uma relação de fim anunciado. Confirmação do estereótipo da negra sexual, que carrega até hoje, em muitos casos, uma pesada herança da escravidão, quando elas eram escolhidas para saciar o desejo dos brancos. Para o romance dar certo, eles exigiam moeda de troca. “Elas ainda diziam que, quando conseguiam ficar com negros, tinham que sustentá-los. Em geral, eles eram de escolaridade inferior e mantinham práticas sociais diferenciadas das delas.”

Um preterimento que é observado em todas as classes sociais. Quem confirma são mulheres lindas, bem-sucedidas, da classe média, que cresceram no Plano Piloto. Daniela Luciana, Jaqueline, Denise e Marília são negras. Também sentem o peso histórico que carregam com a cor. Confirmam o preconceito, a dificuldade de encontrarem um par em pé de igualdade com as mulheres brancas. Um problema que não é delas. Vem do outro. “Essas mulheres precisam entender que essa dificuldade é fruto de um problema social e não pessoal. Elas se inferiorizam como se não fossem bonitas ou interessantes”, lamenta Paula Pereira, pesquisadora-colaboradora do Nepem. Daniela Luciana, Jaqueline, Denise e Marília reconhecem que a dificuldade de romper as amarras do racismo não são delas, mas nem por isso enfrentaram sempre com tranquilidade os olhares de preconceitos. 

"Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.”
Bell Hooks é ativista negra e feminista norte-americana


Um par da mesma raça
 (Janine Moraes/CB/D.A Press)

“Demorei muito para me enxergar como uma pessoa potencialmente bonita. Na fase escolar, não me lembro de ter sofrido aquele racismo duro. Passei a enxergar isso por volta de 13, 14 anos, quando a gente se interessa pelos meninos. Todo mundo tinha um parzinho, menos eu. Atribuía isso ao fato de não ser bonita. Identificava que tinha uma estética diferente daquela que na escola era importante, como o cabelo liso, por exemplo. Enfim, essas coisas que, depois de adulto, a gente aprende a relevar. O meu papel, naquela época, era o da amiga que faz a ponte para as outras ficarem na festinha.  
Os homens mais velhos me notavam mais. Acredito que sempre despertei o apetite sexual deles. A abordagem comigo era sempre muito direta, não tinham o cuidado que tinham com as meninas brancas. É isso que pega na autoestima. Se eu ficasse com alguém, nunca tinha brecha para virar uma coisa a mais. 

A família do branco tem sempre uma resistência maior. Era sempre um momento de tensão. Ficava na dúvida em dizer: ‘Avisa a seus pais que sou negra’. O primeiro rapaz pelo qual me apaixonei, aos 18 anos, era muito tranquilo em relação à questão racial. Quando fui conhecer a família dele, porém, a mãe dele ficou meio chocada, não conseguiu disfarçar. Pensei que era coisa da minha cabeça. Mas, depois disso, ele terminou. Dois meses depois, estava namorando uma menina branca. 

O que muita gente não enxerga é que a preterição das mulheres negras é algo que a sociedade nos ensina. A mulher negra supostamente é boa para o sexo e para as relações superficiais, mas não para o casamento. Nesse jogo, as mulheres ficam relegadas até para os negros. É uma pequena morte você não ser viável para ninguém, nem para quem deveria ser seu par natural.

 Eu me relacionei com homens brancos, mas o custo era muito pesado.  Não tinha liberdade de sair com as minhas tranças, se elas não tivessem com a manutenção certinha na raiz. A sociedade não está preparada para a estética negra. O homem negro, talvez por ter uma mãe negra em casa, entende que o cabelo crespo amassa quando você dorme. Com o homem branco, é sempre um processo. Tinha que acordar mais cedo,  passar uma água para o cabelo ficar mais ou menos. Namorar um homem branco é ter que passar por essas questões que não sei se quero. Demorei muito para me enxergar como uma pessoa bonita, passível de relacionamento, e agora não tenho que passar por tudo isso de novo. 

O casamento implica, inclusive, ter filhos, e filhos negros. E, para algumas pessoas, isso é um terror. Talvez nem associando à cor da pele, mas ao cabelo duro. Por isso, muitas mulheres negras começam a amenizar os traços para entrar em uma estética tida como mais bonita. Eu quero que meus filhos sejam negros, que tragam na pele o simbolismo que minha família tem. Sou criticada quando falo isso. Uma tia falava que a gente tinha que ter essa preocupação de amenizar os nossos traços. Acho isso uma violência. 

As mulheres brancas, via de regra, se casam mais, consolidam família, permanecem mais tempo casadas. Antigamente, para a mulher branca, o futuro almejado era ser esposa e dona de casa. Já as mulheres negras tinham que trabalhar para se sustentar. Para as negras, que durante muito tempo nem poderiam se casar, a família acontecia sem a presença de um homem. Por isso, entendo que exista essa fixação de se casar no papel. É a afirmação de uma afetividade que sempre lhes foi negada.” 


Militante do afeto

 (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
A baiana e servidora pública Daniela Luciana Silva tem 42 anos. Negra, viveu um casamento intrarracial e conta que já foi confundida com a babá da filha, Maria, 7 anos. Ela diz que as mulheres negras precisam trilhar um longo caminho na busca pela autoestima.  

“Nasci contrariando as estatísticas, nasci classe média. Sou moradora do Plano Piloto, onde estão poucas negras. Os homens não abordam as negras com a mesma frequência que abordam as brancas. A cor é uma marca de pobreza, de alguém menos casável. Estudei em escola particular, na Bahia, onde eu era a única negra. Com 15 anos, tinha várias paqueras, mas os meninos nunca me chamavam para dançar, por exemplo. Meu primeiro namorado era negro. Chamo de namoro por licença poética. Foram alguns beijos durante as férias. Levei um tempão para namorar de novo. 
As mães de mulheres negras nos educaram para entender que, quando você saísse de casa, poderia ser alijada pelo racismo. Elas diziam que os homens não iam nos valorizar. Por isso, a mulher negra também é mais desconfiada. Você se torna menos ousada, menos espontânea. E, às vezes, acaba sendo arrogante para compensar as origens. 
Até que, com 18 anos, fui fazer faculdade em Salvador. Lá, eu não era a minoria. Ao contrário, era modelo do que era bonito. Quando vim para Brasília, achava que não ia me casar, que não tinha mais chance. Mas me casei com 34 anos. Ele era branco e tinha 23. Ele nunca permitiu que apontassem essas marcas raciais entre a gente. Às vezes, notava que as pessoas nos olhavam como se quisessem dizer: ‘Como essa mulher está com esse rapaz?’. Imagina! Eu era mais velha e ainda era preta. Estamos separados desde 2010, mas nos casamos apaixonados, por amor. 

Para a mulher negra, é muito difícil se relacionar. O que percebo, como militante e como mulher, é que todo mundo quer aprovação. O homem negro também. E ele faz escolhas. Em alguns casos, escolhe a mulher branca, porque também quer aceitação diante do grupo no qual é minoria, como acontece no Plano Piloto. Os que ascendem socialmente acabam frequentando lugares em que a maioria é de gente branca, então ele pode fazer suas escolhas afetivas com mais facilidade do que a mulher negra.

No entanto, se você define que preto só se relaciona com preto e branco só com branco, fica muito difícil encontrar parceiros. Tem homens que nunca vão ficar com uma mulher negra, porque ela não faz parte do gosto deles. Ele não quer alguém que carregue o componente da herança genética e familiar pobre. Ele quer uma coisa leve, sem a complexidade que é lidar com a questão histórica da raça, do preconceito. O problema não é nosso. É que nós temos mais elementos negativos nesse jogo. Não somos a escolha padrão de nenhum homem menos corajoso, menos seguro de si.

 Eu não tenho essa restrição, mas há meninas que querem se relacionar só com negros porque decidiram marcar uma posição política também no campo afetivo. Não acho errado. Eu quero me casar de novo. Sei o que quero e do que preciso. O que nos diferencia das mulheres brancas é que temos um trabalho muito maior para chegarmos por inteiro e seguras em um relacionamento. Sou militante do afeto. A sociedade é que nos leva a aceitar pouca coisa, mas eu sei o que eu mereço e não aceito.”

 Amor entre raças
 (Janine Moraes/CB/D.A Press)

“Antes do meu marido, só tive namorados negros. Não achava que fosse namorar um homem branco por medo de não me aceitarem. Tanto que, assim que comecei a namorar o Daniel, meu maior medo era de a família dele me rejeitar de alguma forma. Não aconteceu. Nós, mulheres negras, sabemos que nem sempre podemos ser aceitas nos ambientes que frequentamos e que isso também acontece nos relacionamentos afetivos.

Meu primeiro namorado, aos 15 anos, era negro. Eu não era muito abordada nessa época. Olhava para as minhas amigas brancas e pensava: ‘Acho que sou mais bonita do que elas, mas os meninos estão olhando mais para elas.’ Hoje me sinto com a autoestima mais elevada.  

De maneira inconsciente, evitei me relacionar com homens brancos. Eu circulava por espaços onde a presença do negro era maior. Acho que era uma proteção mesmo, de achar que não era o meu lugar. Mas estava solteira e queria conhecer pessoas interessantes. Foi quando comecei a namorar o Daniel, despretensiosamente. Nós nos conhecemos na faculdade. Para ele, foi uma experiência nova também. Ele nunca tinha namorado uma mulher negra. 

A questão racial acabou sendo imposta na vida dele. Por eu usar meu cabelo natural, já aconteceu de as pessoas gritarem comigo na rua para eu cortá-lo. Meu marido fica indignado. Teve também um outro episódio, que aconteceu no condomínio de luxo que a irmã dele mora, em Minas Gerais. Na hora da identificação, o porteiro falou: ‘Seu irmão está aqui com uma morenona’, de um jeito muito agressivo. Por que ele não pensou que eu era mulher dele e respeitou? Existe um0 racismo muito sutil no Brasil, que é tão subjetivo que você não consegue desmascarar e dar nome àquilo que está acontecendo.  E existe esse racismo escancarado. Daniel fica nervoso nessas situações, xinga, mas eu digo: ‘Não mexe com isso não.’ 

Fico pensando como vai ser meu filho com o Daniel. Sei que terão expectativas sobre como ele vai nascer, se será branco, mestiço, com cabelos crespos ou não. Mas o importante é que eu quero ensinar a ele as coisas que aprendi sobre racismo. Tarefa nem um pouco simples.”



A beleza da minoria

 (Janine Moraes/CB/D.A Press)



A auditora Marília Santos, 26 anos, sempre circulou em meios em que era a minoria. Está solteira há sete meses, depois de um relacionamento de quase um ano com um homem de mesma raça. Estilosa e linda, explora seu diferencial para chamar a atenção. Sempre atraiu olhares e reconhece que nem todas as negras têm as mesmas boas experiências para contar. 

“O que sempre achei diferente é a abordagem do negro e do branco. O negro parece que se sente no direito de chegar em você porque você também é negra. Ele já fala assim: ‘Nós que somos dessa raça bonita…’ A raça não pode ser um quesito para ficar junto. Sempre convivi com homens brancos. Em qualquer reunião que vá, provavelmente, sou a única negra. Até por isso acho que a maioria dos meus relacionamentos foi com homens brancos. Namorei cinco vezes: dois negros e três brancos. Comecei a me sentir atraída por negros quando já era mais velha, porque não tinha contato com os negros. 

Nos meus relacionamentos, nunca passei por situações de preconceito, mas já tive medo. Quando a gente toma consciência da nossa raça, temos medo. Quando era pequena, não me preocupava se era negra ou era branca, mas, quando estamos em um relacionamento, tememos não pelo rapaz com quem estamos saindo, mas pela família dele. Se ele quis namorar com você, é porque ele te aceita da cor que é, mas a família dele não é obrigada a pensar da mesma forma.  

A primeira imagem que o homem tem é de que a negra é muito sexualizada. Acha que nós gostamos de uma abordagem mais ríspida, e não é assim. Também existe uma abordagem maior por parte dos estrangeiros. Ser negra está na moda.

Não acontece comigo, mas acontece com outras negras, de se sentirem excluídas em certos ambientes. Normalmente, não sinto essa coisa, porque já chego querendo ser diferente. Nem mais nem menos, mas chamando a atenção. Muitas negras querem ser iguais a todas as pessoas da festa e aí elas se sentem excluídas. Já fui muito questionada e até excluída do meio. Me acusam de não entender o movimento. Eu não vivi essa realidade. Posso respeitar, apoiar a causa, mas não lutar com a mesma força de alguém que sofreu.” 

Por Flávia Duarte - Revista do jornal Correio Braziliense