segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Agosto, mês do desgosto

Agosto, mês vocacional, têm muitas datas importantes, a refletir nos últimos dias...

Dia 09 de agosto, dia do padre
Como mês vocacional, a igreja católica comemora as vocações leigas e religiosas no mês vocacional: Dia do padre e dia do religioso(a) e dia do catequista. Se comemoram as vocações e aproveita para estender o chamado a todos, a pensarem suas vocações.
Para a igreja, vocação é um chamado ao serviço de Deus. Chamado este que somos convidados a aceitar e tomar algumas tarefas, em benefício da comunidade e do povo de Deus.

Dia 11 de agosto, dia do estudante
Ironicamente, essa data é comemorada em razão do decreto de criação do ensino superior no Brasil, assinado por D. Pedro I em 1827. É importante destacar que antes, que acessava o ensino superior precisava ir até a Europa, com essa mudança, se tornou necessário (somente) ir até a capital, no Rio de Janeiro.
Sobre essa data, (o mais irônico) é que se comemora também a criação da UNE - União Nacional dos Estudantes, que muito combativa ao longo dos anos, se tornou um pútrido reduto de formação da UJS do PCdoB, juventude governista que a serviço do capital, com bandeiras pseudo socialistas, que se dedicam a proteger o governo e as medidas que tanto corroem a educação brasileira, como os baixos investimentos na educação, o não pagamento do piso dos professores, o sucateamento e a privatização do ensino superior público entre outros. No entanto, a UNE continua sendo disputada por setores à esquerda, que brigam com dificuldades pela entidade representativa, contra máquina do governo.
Na realidade, esses mesmos setores combativos, reivindicam como dia do estudante, o 28 de março, quando se lembra a morte do estudante Édison Luis, em 1968 pela ditadura militar.

Segundo domingo do mês, dia dos pais
Esse é o dia no ano em que reservamos as nossas vidas para comer churrasco na casa dos nossos pais. E dar um presente a eles. Isso mesmo, comprar algo.
Dia dos pais, assim como o das mães, dos namorados e das crianças, são datas comemorativas que visam levar as pessoas ao comércio e endividarem, até a próxima data comemorativa. E justamente, no mês das vocações... Essa data foi criada por Roberto Marinho (aquele mesmo, da Globo, lembram??) para estimular a compra de presentes, na década de 1950.
Há quem faça a relação com o mês das vocações, e até se emocione com as propagandas do Záffari. Entretanto, sabemos que a paternidade ao longo dos anos não foi tratada (e não é) como uma vocação - chamado de Deus - mas como uma obrigação, criada pelas mulheres para amarrar um marido, e pela sociedade, que projetava esse marido como homem sério e pai de família - homem de respeito.
Ser pai pode ser gerar um filho. Mas ser pai é participar da formação de uma criança, ao lado - ou não - da mãe. Gostaria de dar um destaque, sobre o fato de ser pai (ou querer ser) não pode colocar o homem como anti-aborto, pois os direitos de um homem como pai, nunca serão tão intimamente ligado a vida, como com as mulheres, ou seja, um homem ao tornar-se pai pode mudar sua vida; uma mulher ao tornar-se mãe muda a sua vida.
Enfim, àqueles que gostam e prezam estar com suas famílias, uma data comemorativa não é pretexto para... e para os que não têm esse hábito, uma data comemorativa não deve forçar a isso.

Dia 15 de agosto, dia dos solteiros
Essa é uma data daquelas de lotar bares e motéis. Com menos publicidade que o dia dos namorados. E menos vinho.

Dia 16 de agosto, dia do filósofo
Essa é uma data daquelas de lotar bares e motéis. Com menos publicidade que o dia dos namorados. (2)  Com mais insônes.

Dia 19 de agosto, dia do historiador
Essa é uma data daquelas de lotar bares e motéis. Com menos publicidade que o dia dos namorados. (3) Com mais barbudos, revolucionários (ou não) e ateus.

Dia 25 de agosto, dia do soldado
Essa é a data que se lota o Parque da Redenção (POA) com tanques e milicos. Onde se começa a ensinar as crianças (já para o 7 de setembro) a cantar o hino nacional, e fazer fila.
O dia foi escolhido em homenagem ao patrono do exército, Luis Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias). De fato, é um dia de exaltação à pátria e as forças armadas, sem dó nem piedade. Serve também para fazer os adolescentes acreditarem que a vida deles realmente vai ter mais valor se eles servirem ao quartel, de que eles podem seguir carreira militar, de que eles se tornarão homens, com os valorosos aprendizados que lhe serão propostos (e nem vou entrar no consumo excessivo de drogas, estupros corretivos, machismo/misoginia/homofobia, etc).
Esse é dia do salvador da pátria, do cara que é violente porque têm o respaldo do Estado,do cara que acha que é livre e acha que protege a nação.

Nota: Este texto é cheio de ironias e efemeridades. Nota-se?
Agosto, mês do desgosto.


Por MARIA,L.P.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

Trecho do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (1943)  Cap. XXI

E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu
nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que eles fazem - Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços.
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor. . . eu creio que ela me cativou ...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra ...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom ! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço
um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um
barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo ...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe
de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto ...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração ... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias !
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah ! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse ...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar ! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada !
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...


- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Poderia, mas não sou um alvo fácil

Madrugada dessas, voltando da noite, sofri uma tentativa de assalto.
O cara me pediu um cigarro, fui dar ele se grudou na minha bolsa.

Reagi. Não pensei. Fechei a mão e dei um soco no olho do cara. Dei um chute e ele caiu pra trás.
Me pediu desculpas e foi embora.

Primeiramente, fique brava. Fiquei puta! Ele resolveu me roubar por que era madrugada? Por que eu estava sozinha? Por que sou mulher?

O conjunto de fatores me torna alvo fácil.

Em segundo lugar, pensei muito sobre o acontecido. Eu nunca fui assaltada na rua. Eu poderia ter sido agredida, esfaqueada, morta: por ser madrugada, eu estar sozinha e ser mulher.

Sei que sou alvo fácil, teoricamente. Mas aprendi que não  posso naturalizar essa posição.
É muito perigoso reagir a um assalto, mas eu não sou alvo fácil.
O cara que tentou me assaltar, me pediu desculpas depois que eu o agredi.

Definitivamente, não sou um alvo fácil.



Por MARIA, L.P.