sexta-feira, 12 de abril de 2013

Um relato sobre cabelos crespos quimicamente tratados

Este texto foi escrito para o Blogueiras Negras, em 04 de abril, mas também foi postado em Gelédes Insituto da Mulher Negra, em 08 de abril.
 

Um relato sobre cabelos crespos quimicamente tratados


Por Leticia Maria

 Certamente o cabelo é algo importante para toda mulher.
Crescemos e somos criadas ouvindo que o “cabelo é o molde do rosto”.  Precisamos ter um cabelo sedoso, macio, cheiroso, liso… ops, liso?

Sim, de acordo com os padrões, o cabelo liso é um quesito para um cabelo bonito.

Como a maioria das adolescentes, detestava os meus cabelos. Ouvia na escola que meu cabelo era feio, era grosso, era ruim.

O pior de tudo, é que durante muito tempo, eu realmente acreditei.

Aos 9 anos usei relaxamento pela primeira vez. Aos 12 alisei e comecei a pintar – usei o famoso “henê” até os 15 anos, quando praticamente todo meu cabelo caiu. As fortes químicas usadas afetaram de tal forma meu cabelo, que acabei usando um “aplique” para poder fazer um penteado em minha festa de 15 anos.

Parei de usar henê. Mas voltei a alisar e pintar com cores claras, vermelhos, Borgonha, caju.

Durante meu ensino médio, meu cabelo mal alcançou o comprimento dos ombros, em razão das muitas químicas que eu usava seguidamente.

Eu não era feliz com meus cabelos.

Com 17 anos, resolvi alongar meus cabelos, e coloquei tranças – até a metade das costas. Fui feliz por um tempo, com cabelos longos, fáceis de lidar, simples de cuidar. Mas a manutenção era doída: além de levar horas – em média, mais de 6h – ficava durante dias com dores insuportáveis no couro cabeludo.


Depois disso resolvi dar um tempo, parar com as químicas – aos 18 anos.

Deixei meu cabelo ao natural por uns dois anos.

Já na universidade, voltei a usar relaxamento – para abrir os meus crespos. Me incomodava por eu sempre usava meus cabelos amarrados, não os via crescer.

Voltei a pegar o gosto pela coisa, e voltei a pintar novamente, de preto.

Tive várias fases no uso do relaxamento, até parar de pintar de preto e colocar vermelho.

Até que um belo dia, durante um Fórum Social Mundial, em 2010, coloquei um dread. Amei usar aquilo, me empoderei da minha negritude de tal forma que alguns meses depois coloquei mais um.
Estava feliz com meus cabelos, avermelhados, encrespados, com dois dreads. 

Fui pressionada a cortar meus dreads, por motivos profissionais. Voltei a achar meus cabelos sem graça alguma.

Ai, fui convencida por uma cabelereira que eu deveria usar progressiva: com este tratamento, meu cabelo ficaria como eu quisesse, meus crespos ficariam moldados e fáceis de fazer chapinha.

Ledo engano.

Perdi muito cabelo novamente e entrei em desespero.  Voltei a usar tranças para que me cabelo crescesse novamente.

Depois que tirei as tranças, passei a fazer progressiva regularmente. Até que o meu cabelo ficou realmente liso, como eu sempre quis ao longo de todos esses anos usando químicas.

Ai, me dei conta que eu não queria mais ter cabelos lisos. Eu tenho cabelo crespo e quero ser assim!

Na universidade ouvi muitas vezes que eu não tinha consciência étnica, por insistir em alisar/relaxar meus cabelos. E nunca me vi dessa forma. Sempre tive muito orgulho da minha cor e da minha origem, o detalhe é que eu não era feliz com meus cabelos.

Anos foram necessários para que eu aprendesse a viver com meus cabelos.


Não se trata de ter consciência para assumir os cabelos naturais. Isso está relacionado a auto-estima. Somos submetidas a todo momento a um padrão de beleza ao qual jamais faremos parte, por mais que passemos as nossas vidas correndo atrás da roupa da moda, do cabelo da hora, dos acessórios da estação.


Quem começou essa leitura sobre cabelos quimicamente tratados, imaginou que alguma receita viria. A única receita, que posso oferecer, car@ leitor@ é que se olhe no espelho e descubra a beleza que a natureza lhe ofereceu, seja ela como for. Não é necessário que sigamos um padrão, um modelo, não precisamos ser tod@s iguais… sabemos que aceitar nosso cabelo, em uma sociedade marcada pelo racismo há mais de 400 anos é – no mínimo – um desafio.




Mas é um desafio que vale a pena: sou negra e linda, não porque alguém me disse, mas porque estou convencida disso!

Letícia Maria
Historiadora, mestranda em Ciências Sociais, motociclista e militante.
Escreve algumas insanidades em Memórias de uma Motoqueira Solitária

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