quinta-feira, 21 de março de 2013

Lápis cor de pele. Pele de que cor?


Hoje andava pelos corredores da escola, e uma professora me chamou, pedindo um ‘socorro’.
Ela me contou apavorada que uma criança em sua sala chorava. Como eu conhecia bem a sua turma, pois havia trabalhado com eles no ano anterior, ela pediu para que eu a ajudasse em uma situação com a qual ela não sabia como agir:
Uma aluna (negra “parda”) brigou com um colega (negro também), pois não queria ser amiga dele. Motivo: a cor dele era feia.
Sim, ela brigou com o colega por ele ser negro, sendo que ela também o era, mas um detalhe importante – ela chorava e dizia ‘eu sou branca’. As crianças são do terceiro ano do Ensino Fundamental.
A professora me procurou para ajudar não apenas porque eu sou uma professora de discurso assumidamente negro, mas porque trabalhei questões raciais em sala de aula (voltados ao Ensino Religioso) em todas as minhas turmas. No ano passado, as turmas nos trouxeram um bom retorno sobre relações raciais em sala de aula, mas esse dois alunos envolvidos são novos na escola.

A professora amenizou a situação, mostrando que ambos eram bonitos, tinham cor de pele e cabelos bonitos, assim como os demais colegas (brancos).
A realidade é que temos pouquíssimos estudantes negros na escola, pois trabalho em uma escola privada– que recebe os filhos dos maiores figurões da cidade. Logicamente, podemos contar os negros na escola.

Como fiz meu Ensino Médio Técnico em escola privada, sei como é ser uma menina negra nesse contexto. 
Somos poucos. 

Entretanto, algum possível leitor desinformado vai dizer “mas a racista era negra”. Eu digo que não. Certamente ela teve uma (ou várias) atitude(s), que reproduzem uma mentalidade racista. Mas ela também é vítima desse discurso.
Racista é o discurso que coloca o negro em posições sociais subalternas, que afirma que a sua cor é “feia”, que suas características físicas são inferiores.
Mas esse discurso não é de uma criança de 8 anos. Ele é reproduzido por ela.
Essa criança é submetida diariamente a um discurso que faz com que ela se convença que precisa ser branca para ser bonita, e que o feio é o outro – mesmo que o outro seja parecido com ela.

Canso de me deparar com situações complicadas na escola, apesar de não ter passado por nada tão ‘tenso’.  Fiz uma série de atividades no mês da Consciência Negra e todas as turmas curtiram. Difícil foram as vezes em que as cotas entraram no debate no Ensino Médio, quando me deparo com jovens que se sentem roubados por negros cotistas. É duro.

Mas duro mesmo foi receber essa notícia, da menina agredida por ser negra

Quando a professora da turma em que ocorreu essa situação me chamou, ela ainda comentou: “eu imaginei que isso não pudesse acontecer hoje em dia, como era quando eu estava na escola”. A linguagem mudou, com a criminalização do racismo, mas o discurso não.

Veja bem o lápis cor de pele. 

Sempre que proponho alguma atividade em sala de aula que envolva o uso de lápis de cor, sempre entro nesse debate: lápis cor de pele. Pele de que cor?
Não se repararam, mas o que as crianças chamam cor de pele é um laranja, meio rosa...  cor que eu, pessoalmente nunca vi na face de ninguém que não seja a Barbie.
As peles podem ter muitas cores, a minha por exemplo, não é preta, apesar de me declarar negra. Minha pele é marrom, nem rosa, nem laranja nem preta. Mas quando uma criança usa um lápis preto ou marrom, ela é olhada com estranhamento, por colegas e professores. Pintar um rosto de preto no desenho não é preconceito, é ser original. Não é preciso ter medo ou receio, assim como não se pode haver repreensão por parte do adulto. Deixa-se pintar, somente.

Se essa criança – a menina negra que se declara branca – fosse estimulada a se ver e se assumir como tal, certamente ela seria uma criança mais feliz, sem complexos, sem preconceitos.
Certamente ela poderia usar a cor que quisesse em seus desenhos.

Por MARIA, L.P.



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