sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A motociclista de (vestido ou shortinho) rosa


Tem uma aba no meu blog, explicando o seu nome, que fala sobre a ‘motoqueira’ como autora. Entretanto, alguns motociclistas entendem esse conceito como pejorativo. Por isso para esse post vou utilizar motociclista – muito embora eu acho que motoqueira soe mais poético.

Sobre ser motociclista, existe uma tradição na minha família. Meu pai comprou sua primeira moto quando eu tinha dois anos de idade. Desde então, a família sempre teve moto, tirando o período onde compramos nossa casa, por uns três anos de aperto mesmo. Quando meu irmão completou dezoito anos, comprou sua primeira moto. Ficou um tempo sem, por motivos financeiros também. Hoje ele tem carro, pois ele a esposa têm bebê. Minha mãe nunca teve habilitação pra moto, e quando começou a cogitar a hipótese (para comprar uma moto a meia comigo) sofreu um acidente sério, e desde então não sobre mais em uma moto.
Eu comprei minha moto assim que me formei na graduação. Comecei a dirigir por influência principalmente do meu irmão. Aos dezoito fiz minha habilitação, e volta e meia dirigia a moto do meu pai ou do mano.

Quando fiz meus 18 anos e fui tirar minha habilitação, minha mãe me deu uma jaqueta de couro, preta. O pai sempre dizia que quando eu fosse dirigir a noite, devia usar algo mais sóbrio. Por motivo de segurança mesmo. Afinal, uma mulher a noite em um carro é uma coisa, uma mulher de moto é bem outra...
De fato.

Comprei a moto no inverno. E por algum tempo usei apenas jaquetas pretas. Até que um belo dia comprei uma jaqueta rosa da Honda! Preta e rosa... assim como minhas luvas de couro. Meu pai enlouqueceu, pois na estrada com uma roupa daquelas eu estaria muito vulnerável. Nessa mesma época, comecei a trabalhar em outra cidade, e por isso coloquei um baú na moto. Sim, rosa. Assim como meu capacete, preto e rosa. Mas não é nada tipo Barbie, é rosa e preto. Só isso.

Logo que comecei a dirigir, por orientação do meu pai, usava calça, tênis, camiseta... não por uma questão de segurança em relação a possíveis quedas, mas para me proteger dos olhares, das buzinas, enfim, dos loucos do trânsito.
Até que um belo dia, resolvi usar vestido e leggin (que eu sempre usava, quando não estava dirigindo).

Nesse dia, me dei conta de que o que me expõe quando estou na minha moto não é o que eu visto, mas o fato de ser uma mulher dirigindo. Quero dizer, que de calça ou de shortinho, o babaca que quiser buzinar pra mim, vai fazer isso. E não importa o que eu vista.

O motoboy machista e estressadinho que vai me fechar na BR, esteja eu com o uniforme do trabalho, ou de regata e short, vai fazer da mesma forma.
O caminhoneiro que vai dar aquela freiada ao meu lado, esteja eu com roupa de couro ou de vestido e meia calça, vai fazer da mesma forma.
O machistinha de carro, que vai colocar a cara pra fora da janela e buzinar, esteja eu de roupa de chuva ou de tomara que caia, vai fazer da mesma forma.

Sexta feira (11 de janeiro)  fui a Porto Alegre, e estava dirigindo de regata e shortinho. Pegar a BR às 15h da tarde, com o asfalto cozinhando, é muita coragem dirigir de jaqueta! E enquanto dirigia, pensava justamente em escrever algo sobre isso.

Acontece que no sábado (dia 12), fui à formatura de uma amiga. Depois disso, iria a festa na casa dela (em outra cidade) e a outra festa ainda. Comprei um vestido lindíssimo para ir na formatura – rosa escuro, tomara que caia (mas não era desses cubinhos justíssimos que as guriazinhas estão usando, a saia do vestido tinha um corte evasê, um pouco rodado - lindo!!).
Fui à festa. Coloquei uma capa, que ia até o joelho, encobrindo todo o vestido e uma sapatilha rasteirinha, pois a sandália alta ficou no baú. Cheguei na universidade, estacionei, troquei a sandália e tirei a capa. Depois da solenidade, coloquei tudo de novo, e fui pra festa. Mais tarde, encontrei algumas amigas em outra festa, e fiz tudo de novo. Ao chegar na última festa, estacionei e encontrei as meninas. Não que nos outros lugares não houvessem olhares, mas na festa o olhar de algumas pessoas me pareceu tão escandalizador... Mais tarde, coloquei a moto em um estacionamento, ao lado do prédio de uma amiga. Os olhares foram muitos novamente.

Esses olhares na verdade, não me incomodam em nada. Não fazem diferença pra mim. Não me incomodo por tão pouco. Me incomoda é que as pessoas se escandalizem por tão pouco. Não pelo vestido curto, mas por ser  motociclista e usar de vestidos. Não pela sandália, mas por trocá-la sem vergonha. Por ser mulher e não ter vergonha de ser livre.

Para uma motociclista, dirigir, sentir o vento no rosto em uma noite de verão... a sensação de liberdade que algumas coisas simples nos proporcionam, são indescritíveis.
Entretanto, acabamos perdendo o prazer desses momentos por medo. E o pior é por um medo estúpido... Não é só o medo da violência, do trânsito, é um medo maior, pois combina violência + trânsito + machismo.

E o que podemos fazer contra isso?
Se esconder em casa, de burca?

Eu não.
Bloco na rua (e pra ontem!)


Por MARIA,L.P.

2 comentários:

  1. ser mulher e não ter vergonha de ser livre.

    Essa eu queria poder estampar na minha cara um dia!

    E pensar q no dia da minha formatura eu ainda te questionei: "Lê, tu vai até Porto de vestido na moto???" escandalizada. e tu com toda a tua tranquilidade responde: "sim" hahahaha.
    Q de mais.

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    1. Que momento, hein Ana!

      Se for necessário escandalizar para poder libertar, aqui estamos!

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