quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Viver é não pensar


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.
É um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade.

No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois “amo-te” ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.

Estou hoje lúcido como se não existisse. Meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na platéia da consciência.

Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente…

Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos.

Viver é não pensar.

Fernando Pessoa em Livro do Desassossego

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Tragédias e interesses: enquanto isso, exploram a sua dor


Impossível não se comover com a tragédia ocorrida em Santa Maria nesse fim de semana.

Espero que não me entendam mal: não quero fazer nenhum juízo de valor, em relação a tragédia.  Apenas quero abrir um parêntese.

Na noite do domingo, em Porto Alegre ocorreu outro incidente. Foi incendiada a Vila Liberdade, próximo a Arena do Grêmio.
Claro que este último acontecimento não vitimou de forma fatal um número tão grande de pessoas, entretanto, 800 pessoas perderam suas casas. E isso não é pouca coisa.

Mas a mídia hegemônica está fazendo a festa com a dor das famílias em Santa Maria.

Literalmente.
Carlos Latuff


Quando digo que não quero fazer juízo de valor, é porque não quero que entendam que estou dando menos importância ao acontecido.

Mas acho que devemos desconfiar que uma favela queime (ao lado da megacontrução da Copa), quando sabemos que o governo de Porto Alegre têm feito de tudo para tirar várias famílias pobres das regiões centrais, para limpar a cidade para a Copa.

Destaco limpar.

Carlos Latuff


Não é nenhuma novidade a higienização social que viemos presenciando, sobretudo da juventude negra. Mas um incêndio como esse justamente no momento em que toda a mídia está cobrindo em tempo integral outra tragédia, pessoalmente, é no mínimo curioso.

Mas se você estiver lendo esse breve texto, estiver preocupado com todas essas vítimas do descaso e, puder de alguma forma ajudar, informe-se como!



Toda ajuda, é bem vida. Todos estão precisando de ajuda!

Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Eu assisti Dona Flor e seus dois Maridos


Sim, eu assisti Dona Flor e seus dois Maridos na televisão.

Gozando de uma insônia, assisti esses dias na madrugada esse clássico – do cinema e da literatura brasileira. Tão clássico que eu nunca tinha assistido.
Pra começar, no elenco Sônia Braga e Zé Wilker. Trilha sonora “O que será”, do Chico Buarque. Muito bom.

Na verdade eu tinha uma ideia completamente diferente da história.

Bahia, década de 1940. Flor era uma moça que fugiu para casar com o homem que amava, contra a vontade da mãe. Dava aulas de culinária em casa para o sustento da família.
Vadinho, o esposo era boêmio nato. Não trabalhava, vivia em festas, dado aos jogos, andava em cabarés e voltava bêbado todas as manhãs.  Inclusive algumas vezes agrediu a mulher por causa de dinheiro. Pedia dinheiro até para o padre da cidade. Era uma pessoa medíocre, mas apesar de tudo amava a esposa.

Vadiagem é coisa de Deus. Foi ele quem mandou.” – Vadinho sobre sexo.

Em um belo carnaval, Vadinho morre.

“Jamais outro virá, tão íntimo das estrelas, dos dados e das putas.
Estão de luto os jogadores e as negras da Bahia.
Um minuto de silêncio em todas as roletas.
Bandeiras a meio pau no mastro nos castelo
Todas em desespero a soluçar.” – Sobre o falecido.

Flor veste luto por um tempo, até que uma vizinha faz os ‘lados’ do farmacêutico Teodoro com ela. E eles casam. Casam devidamente e vão a lua de mel.

“Teodoro é um homem bom. Com ele vai dar certo.” ­– Pensamento de Flor, na noite de núpcias.

Teodoro era um homem socialmente bom. Apesar da relação de ambos ser completamente “sem sal”, ela acreditava estar muito bem, pois não sofria como na época do falecido. Entretanto ela sentia muita falta dele.

Teodoro cuidava de Flor, mas, muito machista, têm várias atitudes que desagradam flor – que cede por acreditar que o marido, como homem respeitável que é, sabe o que é melhor para ela.

Ela é “feliz” com ele.

É até um pecado D. Venâncio. Mas eu vou lhe confessar uma coisa, que eu nunca disse nem a mim mesma. A minha vida é tão feliz, sabe, todos até me invejam. Mas até quando ta tudo bem, nós estamos no bom do melhor, não sei...  Mas me dá uma agonia, tão sem pé nem cabeça, que eu não sei bem o que é, eu não sei nem explicar. Sabe D. Venâncio, acho que a minha natureza é ruim mesmo, sei lá.  “ - Flor sobre a sua vida, para o Padre.

Até que um belo dia, Vadinho aparece. Flor tenta resistir a todo custo a “vadiar” com o morto. Uma amiga faz um “trabalho” para que ele descanse, pois como era de Exu, ainda incomodaria muito. Acontece que quando sua alma está indo, Flor se arrepende.

Desde então, flor se relaciona com seus dois maridos. É claro, um deles, somente ela vê – o vagabundo.

Outro dia, fiz uma postagem, onde aparece o vídeo da canção “Tigresa” (Caetano Veloso). Na mesma noite, antes de assistir ao filme, um amigo me pergunta, “o que quer dizer Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher.?”.

Exatamente isso.

Moral da história: 
Flor tinha ao seu lado, um homem que não a respeitava, que a fazia sofrer. Entretanto eles se amavam e (sobretudo) se desejavam. Com ele ela se sentia mulher.
Quando ele morreu, encontrou outro companheiro. Que a respeitava e olhava por ela. Muito embora não o desejava, sentia-se feliz ao seu lado.

Quero esclarecer, que acho uma grande bobagem machista dizer que as mulheres gostam de sofrer, porque gostam de cafajestes.
Flor não se arrependia de ter ficado com Teodoro, mas não sentia seu corpo tremer por ele. Não havia paixão.
Se ela sentisse a mesma coisa que sentiu por Vadinho pelo novo companheiro, reuniria as duas coisas. Mas o fato é que ela não sentia. Mas para ela, estava tudo bem.
Na verdade, ficou tudo bem quando Vadinho voltou e ela ficou com os dois. Pois ela gozava das coisas boas da companhia de um e de outro.

Egoísmo da parte dela? Penso que não. Flor só queria ser uma mulher completa e, mesmo que tenha sido só na cabeça dela, consegui.


 Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Para além de aparência e essência.


Estava saindo para uma festa com algumas amigas, com quem sempre saio.
Rosi e eu paramos para comer, pois começamos a beber antes, em outro bar. Paramos em um ponto conhecido, pedimos a tal ‘pizzinha’ e ficamos em frente ao local para comer.

Eis, que chega um rapaz, bem vestido (de terno e gravata) e puxa assunto com a gente. Continuamos a comer, conversando amenidades com o individuo, enquanto chegam mais quatro rapazes, que o acompanhavam.

Perguntaram sobre a pizza, sobre as festas, sobre a noite.
O do terno se apresentou, nós nos apresentamos. Brincaram com as iniciais dos nomes, e apelidos possíveis (Roberto e Rosi = Beto, Rô, Ro-Rô; Letícia = Lê).

Entre algumas piadas e indiretas, começaram a falar sobre nomes e apelidos heterossexuais. Para eles, “Leandro” por poder ser apelidado de Lê, é um nome “multi” (não hétero).
Um deles saiu na frente e se defendeu “Vicente é hétero”. Perguntei se esse era seu nome, outro disse “ele não ia se acusar, ofender a si próprio”.
Se algo, que não seja hétero é algum tipo de xingamento? Comentamos sobre isso, mas não sei se eles entenderam ou se fizeram. Fato é que aquele risinho em relação a minha frase “qual o problema em não ser hétero?” escapou de todos eles.
Agradecemos a conversa, a companhia e seguimos para nossa festa.

Talvez para quem lê isso, não ache grande coisa, mas depois desse “encontro”, ficamos divagando algumas coisas.

Deixo alguns destaques.

  1. Ao se aproximarem, os rapazes chegaram afirmando nossa “heterossexualidade”. Não se passou na idéia deles que poderíamos ser um casal. Eles nos olharam e viram duas mulheres na noite, à disposição.
  2. Entre papo e piada, subentenderam que as duas moravam em Novo Hamburgo, pois eu mencionei que não morava na capital.
  3. Ao conversarem com a gente, afirmaram que éramos irmãs (as duas negras). Afinal, duas mulheres negras juntas, devem ser parentes (??). Brinquei dizendo que a Rosi era a Rutinha, e eu a Raquel – a irmã má.


O que realmente me chamou a atenção nessa conversa foi basicamente o fato dos rapazes chegarem em nós com suas opiniões formadas em relação a nós. Mesmo sem nunca terem nos visto antes.
Por que é necessário rotular, estigmatizar, classificar as pessoas?
Para além de aparência e essência.

Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Eu estou no Caminho das Setas

As pessoas podem dizer que você é importante.
E você até pode ser alguém importante.
Mas quando você acredita nisso, tá fudido.

Marcelo Yuka - (no filme) No Caminho das Setas




Eu cheguei a acreditar.
Estou no caminho das setas.
Mas isso, é por minha conta...

A noite sempre deixa marcas em nós


Sexta feira.

Muitas cervejas, muitas conversas, muitas risadas. Aniversários, comemorações, encontros, reencontros.
Melhor que isso, em um bar, com um violão.
                                        
Essas combinações me são envolventes, de forma que não vejo o tempo passar.
  
Falamos de tantas coisas, abraçamos pessoas, cantarolamos.
Ouvi essa canção, que me tocou profundamente...  queria de alguma forma compartilhar. Mas para além de compartilhar uma canção, queria compartilhar o sentimento de ouvir essa canção.
Mas este, é indescritível.


Tigresa (Caetano Veloso)

Uma tigresa de unhas
Negras e íris cor de mel.
Uma mulher, uma beleza
Que me aconteceu.
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel

[...]

As garras da felina
Me marcaram o coração,
Mas as besteiras de menina
Que ela disse, não.
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul.
Como é bom poder tocar um instrumento 



Ouvi essa música no final da noite, em uma belíssima voz, em ótimas companhias.
Saímos do bar com o dia clareando. Um violão. Um esmalte vermelho.



A noite sempre deixa marcas em nós.
Mas nós só deixamos marcas nela, quando estamos dispostos a isso.

Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Às vezes

Às vezes eu sou romântica.



Observação importante: só as vezes!

Na foto: Pai e Mãe na cidade de Guaíba/RS.



Por MARIA, L.P.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Duas coisas

Hoje eu só queria duas coisas: um fígado extra e paciência.
Uma Patrícia na beira do mar também não cairia mal. Mas essa é a parte menos difícil.


Poderiam ter sido esses os meus pedidos de ano novo.

Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Seria?

Seria Eva feminista?

No Facebook do Contestação 


Por isso toda a culpa?
Talvez.

Desde os tempos mais remotos, a bíblia e as igrejas culpabilizam as mulheres por conta de todo mal sobre a terra.
Até já nos acostumamos a viver carregando essa culpa.

Sobre Lilith, conversaremos outra hora. Essa sim... era do capeta! E se permitiu a viver fora do domínio celeste, assumindo as consequências dessa escolha.

Se Eva era feminista... eu não saberia dizer,
Pobre Adão, com as mulheres que o rodearam... só foi patriarca, porque não foram elas que escolheram o título.
Mas se tivessem sido elas... Foda-se Adão!


Por MARIA, L.P.