terça-feira, 31 de dezembro de 2013

sábado, 28 de dezembro de 2013

Praxis

"A teoria marxista está indissoluvelmente ligada à ação. Nesta época de reação desenfreada (...) só é possível ser marxista, se você possui uma vontade inabalável, de grande coragem política e ideológica, e da capacidade de nadar contra a corrente"


Leon Trotsky


Obs: Agora me chame de troska. Obrigada. Maria.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

.natal, Feliz!

Há algum tempo o natal não significa grandes coisas pra mim.
Há algum tempo, perdi a fé naquilo que eu considerava sagrado, importante e divino. Deixei de acreditar em muitas das coisas que me moveram durante anos, que foram a minha razão de ser e de viver.
Isso acabou, lamentavelmente, se acabou em minha existência.

Sempre achei que o espírito de natal fosse o momento de reunir a família e os amigos, e nos últimos anos percebi que nem isso faz muito sentido. O sentido do nascimento de cristo deveria ser a grande renovação em nossas vidas. Mas não é.

Quando famílias não conseguem sentar em uma mesma mesa para partilhar o momentos, não faz sentido nenhum a comemoração cristã.
Quando as pessoas vão a igreja comungar e rezar, e saem de lá falando uma das outras, não faz sentido nenhum a comemoração cristã.
Quando não conseguimos ficar ao lado das pessoas que amamos, porque realmente queremos, não faz sentido nenhum a comemoração cristã.
Quando as compras são mais significantes que a intensão de presentear alguém, não faz sentido nenhum a comemoração cristã.


Recentes encontros mexeram com os meus sentimentos, mas os fatos são os fatos. Por mais que consigamos nos reunir em algum momento, os outros 364 dias deveriam ter o mesmo sentido de amor e comunhão. Se não têm, natal algum faz sentido.

Eu tirei meu natal para ficar com meus pais. Desde que deixei de morar com eles, procuro passar um tempo com eles, pois sem o valor que isso tem. Nos falamos por telefone sempre, os visito regularmente, mas ficar com eles no natal pra eles é importante. Pra mim, é o suficiente.

Para aqueles que reivindicam o sentido cristão, ou religioso de alguma forma, que possam viver esse período com sabedoria e amor, mas sobretudo que façam que esse sentimento se estenda por todos os dias do ano que estão para nascer.

Já para os que não acreditam em nada, que o dia seja pleno, e que as festas sejam cheias daquilo que mais lhes agrada. Mas não deixe de tirar um tempo para ficar com aqueles que se ama, pois mesmo quando essas festas não fazem sentido, a ausência dos que amamos é muito mais evidente durante as festas de fim de ano.

De qualquer forma, com ou sem fé, tenham um feliz natal, seja para curtir o feriado, seja para curtir a vida. Mas que seja para curtir o que se ama!



Por MARIA,L.P.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Levaram uma de nossas crianças

Levaram uma de nossas crianças.
Nunca havíamos deixado um dos nossos no caminho.
Ele só tinha dezesseis...

Fica em paz, neguinho.

 

"A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar"


Trecho de O anjo mais velho - O Teatro Mágico 

"Mas essa vida é passageira, chorar eu sei que é besteira.
Mas, desculpe meu amigo, não dá pra segurar!"




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Depressão de fim de ano

Odeio retrospectivas.

Odeio essa época.
Odeio esses 'bota fora'.

Odeio ficar triste.

Odeio ressaca. 
Odeio o dia seguinte.

Odeio beber sozinha.
Odeio ter que sair da cama.
Odeio os dias em que a cama é a melhor alternativa.
Odeio o que a cama faz dos meus dias.

Odeio quando esqueço das coisas.
Odeio ter que lembrar de outras.
Odeio o efeito de algumas substâncias no meu organismo.
Odeio a necessidade que sinto daquilo que me mata aos poucos.
Odeio mais ainda, a métrica dos versos.



Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mandiba Vive!

Hoje, 


Acaba de falecer Nelson Mandela.
Acabamos de perder um grande líder da luta do povo negro no mundo!

O mundo perdeu um grande lutador.
Morreu hoje, 05 de dezembro aos 95 anos em sua casa em Johannesburgo. 




“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender.  E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."


Seu exemplo e sua luta seguem em nós. Mandiba Vive!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quando teu olhar cruza o meu



Queria dizer que te amo.
Queria dizer que sinto tua falta.
Queria dizer que minha cama está vazia desde que partiu.
Queria dizer que meu corpo soa, quando te aproxima.
Queria dizer algo que tu quisesses de ouvir da minha boca.
Aliás, queria dizer algo sobre a tua boca.
Mas não posso.

Ah, quando meu olhar cruza o teu...

Não posso, pois por mais que te ame e que senti tua a falta, eu não diria isso pra ti.
Até porque a minha cama não esteve vazia. Outras bocas, outros corpos e outros sexos passaram por aqui.
Meu corpo suou por tantos motivos. Mas aprendeu que na tua ausência, muitos outros são presença.
Tu ainda habita meus dias, reconheço.
Mas não te amo mais. E também não odeio.
Lembre que não posso mais você, desde o dia que tu não mais me pôde.


Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Caim e o Anjo




“Tarde, disse Caim, Vale mais tarde do que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde”, frase que fez o anjo resmungar “mais um racionalista” e continuar o seu discurso encomendado”.

Caim, de Saramago

domingo, 24 de novembro de 2013

Eu não sou mais quem...


Eu não sou mais quem você deixou, de ver. 
Vou a Lapa, decotada, bebo todas, beijo bem.

Madrugada: sou da lira.
Manhãzinha: de ninguém.
Noite alta: é meu dia...
E a orgia: é meu bem!


Eu não sou mais quem você deixou, Amor.  


(Beijo sem, Adriana Calcanhoto)

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Dia Nacional da Consciência Negra, dia de Zumbi: Obrigado, minha terra!


Nesse dia, ofereço aos leitores, mas dedico aos ancestrais o poema "Obrigado, minha terra" de Oliveira Silveira: poeta gaúcho idealizador do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, dia de Zumbi dos Palmares! Dia de lembrar como essa terra foi dura com nosso povo. Dia de recordar os lutadores negros que morreram por liberdade. Dia de questionar porque o Rio Grande do Sul e o Brasil continuam a se afirmar como "não racistas". Dia de refletir porque nossos jovens continuam a morrer mais, vítimas de um genocídio programado. Dia de entender porque as nossas mulheres e mães continuam sendo exploradas como domésticas no mais cruel resquício da escravidão negra. Dia de se indignar porque o nosso povo continua sem chegar a universidade e a não ter atenção nos serviços básicos do governo. Dia de ver onde está a população pobre e miserável desse país, que tem cor e gênero. Dia de chorar pela maioria das mulheres que morrem vítimas da violência doméstica, negras. Dia questionar o motivo da população negra engrossar as piores estatísticas sociais. Dia de luta. Dia de festa. Dia de Lanceiros Negros. Dia de Zumbi.


OBRIGADO, MINHA TERRA
 (Pêlo escuro, 1977)

Obrigado rios de São Pedro
pelo peso da água em meu remo.
Feitorias do linho-cânhamo
obrigado pelos lanhos.


Obrigado loiro trigo
pelo contraste comigo.
Obrigado lavoura
pelas vergas no meu couro.


Obrigado charqueadas
por minhas feridas salgadas.
Te agradeço Rio Grande
o doce e o amargo
pelos quais te fiz meu pago
e as fronteiras fraternas
por onde busquei outras terras.


Agradeço teu peso em meus ombros
músculos braços e lombo.
Por ser linha de frente no perigo
lanceando teus inimigos.


Muito obrigado pelo ditado
“negro em posição é encrenca no galpão”.
Obrigado pelo preconceito
com que até hoje me aceitas.


Muito obrigado pela cor do emprego
que não me dás porque sou negro.
E pelo torto direito
de te nomear pelos defeitos.


Tens o lado bom também
- terra natal sempre tem.
Agradeço de todo o coração
e sem nenhum perdão.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

É preciso


Os dias se passam, e eu vou me dando conta que o lugar não é este.
O problema, é que talvez não haja lugar. 
Todo lugar tem algo de bom e de ruim.
Todo lugar têm pessoas interessantes a conhecer e conviver.
Todo lugar tem algo para se visitar e conhecer. 
Mas é preciso ir a um lugar de cada vez.
Mas é preciso ir a todos os lugares possíveis.
Mas é preciso ir. 

É preciso, Maria.




Por MARIA, L.P.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Em defesa dos moradores da Vila Esmeralda III

Novo Hamburgo – Canudos – 11 de novembro de 2013.


Tivemos segundo encontro entre a comissão de Defesa dos moradores da Vila Esmeralda e o secretário especial do Prefeito Luis Lauermann, Egon Kirshner. Conforme combinamos no encontro anterior, a prefeitura levou dois técnicos, um engenheiro e uma arquiteta, que ficaram de apresentar seus projetos de melhorias para a vila e para o bairro, onde seriam prevenidas as cheias.

De fato, o projeto financiado pelo BID já está em estudo há quatro anos, iniciado no governo Tarcísio Zimemermann (do PT, Lauermann só o sucedeu  por estar impedido de concorrer novamente). O projeto apresentado já recebeu pesados investimentos, propõe obras na Avenida Alcântra, até a Avenida dos Municípios, com a elevada do Arroio Pampa, a intalação de comportas e de uma casa de bombas. Como deixamos claro, o projeto milionário é ótimo, mas está no papel há quatro anos. Segundo a administração o contrato deve ser assinado em quatro meses, e as obras iniciadas no segundo semestre de 2014, se não houver nenhum imprevisto.

Acontece, que sabemos que há quatro anos segue a morosidade do projeto. Não temos garantia nenhuma que esses prazos serão cumpridos, pois segundo o próprio secretário, essas obras iniciam nesse prazo, se “der tudo certo”. Se der tudo certo, secretário, não chove mais e o Papai Noel chega nesse dezembro. 
Depois de toda a chuva que assolou o RS entre domingo e segunda feira, boa parte das Vilas Kipling e Getúlio Vargas (vizinhas da Esmeralda) pela manhã já estavam alagadas: não apenas pelo nível do Arroio Pampa, mas sobretudo por conta do esgoto a céu aberto, que pelo descaso da administração pública municipal já tornou isso normal.

Eu cobrei ações emergenciais da administração, que nos respondeu que não têm varinha mágica. Assim como a Defesa Civil municipal, quando ligamos para saber a situação do Rio dos Sinos, no informaram basicamente que Novo Hamburgo estava um “caos”, com ruas alagadas e estava tudo “uma merda”. Desde agosto já percebemos que a Defesa Civil está despreparada e desorientada para lidar com a população temerosa por suas casas e suas vidas, e a prefeitura, novamente, nada fez.

Sabemos que o problema das chuvas vêm atingido várias cidades da região, pelo mesmo motivo: despreparo e obras mal feitas e inconclusas.

Não há previsões reais para essas obras acontecerem,  e precisamos torcer para não chover: pois agora que o FGTS já foi retirado, as pessoas atingidas pelas cheias vão estar completamente desassistidas, visto que o benefício só pode ser retirado uma única vez.

Pessoalmente, perdi a razão quando o engenheiro disse que também teve sua casa interditada no ano passado, e estava morando de aluguel no bairro Jardim Mauá: pra começar, um engenheiro da prefeitura ganha suficientemente para pagar moradia em qualquer bairro da cidade, mesmo no Jardim Mauá, bairro nobre. Não aceito que um profissional se compare ao meu pai ou aos meus vizinhos, que levantam todas as madrugadas para trabalhar, fazem força há mais de trinta anos para manter suas casas e suas famílias, como se as oportunidades para essas pessoas fossem iguais. Também não aceito que uma arquiteta que mora em Hamburgo Velho (bairro top top) se compare à minha comunidade que perdeu tudo em agosto passado, porque molhou o sapato. Podem  dizer que sou intolerante. E sou: altamente intolerante a quem tenta fazer pessoas simples de idiotas. E foi o que tentaram fazer: apresentaram um projeto, nos receberam para que nos calássemos... que nos calássemos depois das manifestações que fizemos, trancamos trânsito e fomos vistos. E isso é ruim. Pra eles.

Pra mim, o pior foi quando o secretário disse para que não fizéssemos como a ocupação da Marisol (outra vila do bairro), que contratou  um advogado para colocar a prefeitura na justiça. O secretário queria se assegurar que nós não entrássemos cm ação judicial contra eles! Ou seja, além de quietos, não devemos exigir nossos direitos na justiça formal? Confere?

Somos moradores, trabalhadores que tem suas casas devidamente escrituradas, em uma região que não é – nem nunca foi – de risco. Precisamos temer nosso governo? Até onde sei, quem deve temer o seu povo é o governo!

Charge @jornalSul21 – As chuvas em Porto Alegre


Não vamos deixar de lutar. O recado é esse!


Por MARIA,L.P.
  

Para entender melhor, leia Em defesa dos moradores da Vila Esmeralda II

Minha indignação à ação da mídia burguesa

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Em defesa dos moradores da Vila Esmeralda II

Novo Hamburgo - Canudos - 11 de novembro de 2013.


Hoje teremos o segundo encontro com a administração pública municipal. Na sexta feira, dia 08 de novembro, saímos novamente no suplemento "Canudos" do Jornal NH, onde fui entrevistada no primeiro encontro que tivemos com o secretário especial Egon Kirschner, do prefeito Luis Lauermann. 

Quem esteve nos atos Em Defesa dos Moradores da Vila Esmeralda pode reconhecer que somos poucos, simples e pequenos, mas não temos medo de enfrentar os que nos oprimem e nos ignoram, sejam eles quem forem... Todxs sabem quem somos e o que queremos, e não temos medo de enfrentar o que vem pela frente.


Permaneceremos nas ruas enquanto for necessário!


Dessa vez ficou mais claro que exigimos esclarecimentos, que não vamos nos calar e que faremos o que for necessário para sermos ouvidos!


"Só a luta muda a vida"


Reivindicamos a garantia do direito de moradia!




domingo, 10 de novembro de 2013

Um rivotril, por favor...

Rivotril da depressão, no facebook




Ainda há os que fazem isso tudo. Ao mesmo tempo,

Até porque, ninguém sai vivo daqui.


Por MARIA,L.P.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Em defesa dos moradores da Vila Esmeralda I

Novo Hamburgo - Canudos -  05 de novembro de 2013.

Fizemos um bonito ato no cruzamento das ruas Ícaro com a Oscar Horn.

Éramos poucos, mas guerreiros e lutadores o suficiente para trancar o movimentado cruzamento do bairro Canudos/NH e enfrentar a ira de alguns motoristas que lançaram seus carros por cima de nós, assim como tivemos que lutar com o descaso de alguns dos nossos próprios vizinhos, deslegitimando nossa luta e nossos motivos para lutar.

Hoje tivemos em reunião com o secretário especial do Prefeito Luis Lauermann. Não tivemos grandes encaminhamentos, mas estamos com nova reunião marcada para a próxima semana, onde ele se comprometeu em apresentar o projeto que torna a Avenida dos Municípios um dique, onde uma casa de bombas e uma comporta serão instaladas.

Por ora, não temos grandes vitórias, além da visibilidade e do reconhecimento da nossa luta, que é justa e digna. Sobretudo, tanto a comunidade, quando a associação de moradores ad vila e do bairro e administração pública municipal sabem que a que viemos.









Por MARIA,L.P.

sábado, 2 de novembro de 2013

II Ato em defesa dos moradores da Vila Esmeralda

Novo Hamburgo - Canudos - 02 de novembro de 2013.


Realizamos o II Ato em defesa dos moradores da Vila Esmeralda.

Reunimos moradores e amigos para ocupar as ruas do nosso bairro. Somos poucos, somos pequenos, mas estamos nas ruas em defesa do nosso direito de moradia. Não vamos mais aceitar o descaso dos governos municipais e estaduais, assim como não aceitamos o desrespeito das pessoas que ainda não entendem a nossa luta!















O ano de 2013 mostrou que as pessoas podem e devem se movimentar e tomar as ruas! Mas é preciso entender que possamos conquistar as mudanças que queremos para a comunidade onde vivemos, é necessário que estejamos organizados, sabendo que somente lutando pelos nossos direitos, vamos conquistá-los! 

Morar não é favor, não é privilégio de quem mora no centro ou têm dinheiro. Morar é direito! Somos trabalhadores e vamos seguir lutando pelo direito a viver dignamente em nossas casas!


Veja mais no facebook!



Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Versos pretos de um não poema


O meu corpo, preto.
A tua pele, preta.
O meu cabelo enroladinho, quase preto.
A tua boca grossa, que não é preta.
O teu cabelo engraçado, coisa de preto.
As minhas curvas, misturando nas tuas, pretas.
O nosso suor molhando o lençol, que não é preto.
Minhas pernas confundidas com as tuas, pernas pretas.
O beijo molhado no pescoço arrepiado, e preto.
O que restou das nossas roupas, no chão preto.
O teu braço envolta do meu corpo, preto.
O tesão, o desejo, metáforas de sentimento, que não têm cor.
O mistério dos encontros, na noite, preta e longa.         
Os desencontros, nos dias sem cor. 


Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Minha indignação à ação da mídia burguesa



Hoje, gostaria de compartilhar minha indignação à ação da mídia burguesa, tentando manipular a ação popular organizada pelos moradores da Vila Esmeralda/ Bairro Canudos/Novo Hamburgo.
Você até pode sair da vila, mas a vila jamais sai de você!
Antes da resposta, leia a reportagem 





A/C Micheli Aguiar - sobre o I Ato em defesa dos Moradores da Vila Esmeralda

Prezada Michele,

Escrevo este email para manifestar minha profunda decepção com a reportagem sobre a mobilização dos moradores da Vila Esmeralda, ocorrido no dia 19 de outubro. Foi importante a reportagem ter saído no suplemento do bairro, mas creio que deixamos claro que a mobilização tem fins específicos, que precisam ser amplamente divulgados em toda a cidade.

Primeiramente, é necessário deixar público que a manifestação não foi para cobrar a liberação do FGTS dos moradores, mas para pressionar que o poder público tome atitudes para que não mais ocorram enchentes, sobretudo na proporção que vimos em agosto passado.

Fomos às ruas porque a população está cansada de ser feita de idiota pelos governos do PT, em nível municipal e estadual. Fomos às ruas porque somos vítimas da Avenida dos Municípios, “obra pra inglês ver”, que há anos está parada, onde ao invés de proporcionar mobilidade para os moradores do bairro, represa água alagando as vilas ao redor. Fomos às ruas para exigir que as obras sejam conduzidas com segurança, pensando que a sua infraestrutura é determinante para o futuro do Bairro Canudos. Fomos às ruas porque a prefeitura vem enrolando a população, em relação a resolução do problema das cheias. 

Fomos às ruas, pois existe uma Associação dos Moradores da Vila Esmeralda, que não se manifestou e não se colocou a disposição dos moradores, pois a sua direção têm relação política com o vice prefeito e por isso ainda fez campanha contra a mobilização popular, tentando fazer as pessoas acreditarem que a organização popular e a luta de nada servem. Fomos às ruas porque os municípios de São Leopoldo, Campo Bom e Sapiranga já haviam tido o benefício da liberação do FGTS e Novo Hamburgo ainda não havia liberado.

A reportagem veiculada deu a entender que o FGTS fosse a única revindicação. Revindicamos mudanças, pois morar é direito, não privilégio. Os moradores querem reconstruir suas vidas com o dinheiro que lhes é de direito, mas se não forem tomadas providências urgentes, da próxima enchente nem desse benefício a população poderá gozar. Se o ato fosse apensa por esse motivo, não teria motivo para ter mais uma edição, no sábado próximo, dia 02 de novembro.

Como membro da comissão em Defesa dos moradores da Vila Esmerada, quero manifestar publicamente minha decepção com a reportagem veiculada. Mostrou claramente a quem a imprensa hamburguense está a serviço, e não é da população. Imprensa burguesa não me representa.

Grata pela atenção,



Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu e meus crespos

Já fazem mais de seis meses que cortei meu cabelo.


Hoje, homens e mulheres tocam nos meus crespos e me dizem "Neg[r]a, você é linda!"
Acabou a história de "morena".

O mais importante, eu me sinto bonita, plena e feliz. 
A ditadura dos lisos, nesse corpo, acabou.



Por MARIA,L.P.

sábado, 19 de outubro de 2013

I Ato em defesa dos moradores da Vila Esmeralda

Novo Hamburgo - Canudos - 19 de outubro de 2013.



Há anos, algumas localidades do município sofrem com o descaso dos governos locais. No entanto, desde que iniciaram as obras da Avenida dos Municípios (parada desde 2008) as consequências do crescimento sem planejamento por parte desses governos vem atingindo a população hamburguense, refletida diretamente nos moradores da Vila Esmeralda, no Bairro Canudos.
No ano de 2008 a comunidade sofreu com uma grande enchente, mas nenhuma providencia foi tomada posteriormente, até que em agosto deste ano, depois de dias de chuvas, a vila foi fortemente atingida pela força das águas, agora de forma muito mais intensa, pela quantidade de água e pela falta de infraestrutura atingiu centenas de casas, levando ao prejuízo e ao desespero as famílias de trabalhadores, que viram seu trabalho levado com a destruição de suas casas e seus objetos pessoais.
Frente a isso, o prefeito Luis Laeurmann (PT) além decretar Estado de Emergência de forma tardia, não alertou a população do nível do desastre, já previsto pela Defesa Civil, visto que o Rio dos Sinos subiu rapidamente, cerca de 8 metros além da sua capacidade. Em razão disso, a comunidade não teve tempo nem estrutura para se proteger das cheias. 

CANUDOS RESISTE!

CANUDOS RESISTE!
MORADOR NA RUA, PREFEITO A CULPA É TUA!
 

Por isso, os moradores exigem do poder público reparação imediata pelos prejuízos causados às nossas casas e nossas famílias, assim como exigimos a imediata conclusão das obras da Avenida dos Municípios, com a instalação de uma ponte, a instalação de uma casa de bombas e a drenagem do local.














Veja mais no facebook!


Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sonhei que tive um sonho

Sim, eu sonhei que tive um sonho.

No sonho do meu sonho, cairam meteoros brancos.
No meu sonho, acordo na casa dos meus pais, arrumo minha mochila e peço para eles fazerem o mesmo. Os meteoros começam a cair. Vemos o fogo ao longe.

Eis que chega um amigo deles, o Claudir (que os socorreu durante a enchente - de verdade) nos coloca no seu carro e nos leva para sua casa. No caminho, observo a crianças da vila, brincando na rua: não faz diferença, ninguém vai ajudar mesmo... não há o que fazer.
Claudir propõe abastecer os carros, pegar mantimentos e rodar até encontrar um local seguro. Eu acho perigoso, pois topldos fariam o mesmo o que faria que ficassemos presos no trânsito: ligo o rádio, tento internet e tudo está mudo.

Vejo as pedras brancas caindo e colocando tudo em chamas.
Nem governo, nem estado, nem igreja. Eles estão surdos!

Pegamos a estrada, em desespero: a estrada está vazia.
O mundo explodia, e ninguém estava nem aí.
Foi o dia que a terra parou.

...

Ai eu acordei. Meu corpo suava frio. Estava em casa, não havia mais ninguém. O dia estava ensolarado lá fora, nada caía do céu.

Mas continuava com a mesma impressão: as pessoas não estavam preocupadas com o que estava acontecendo: não fazia diferença, ninguém podia ajudar mesmo... não foi o dia em que a terra parou, mas nem estado, nem governo, nem igreja. Eles estão todos surdos!

Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O amargo ficou doce

Um gosto amargo me descia garganta a baixo.
Fiquei quietinha, em meu canto, esperando a parte ruim daquela sensação passar.
Chegaste e beijaste minha boca.
O amargo ficou doce.


Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Ter alguém para chamar de seu


Ainda no ritmo de escrever sobre casamentos e relacionamentos, quero comentar a frase que dá titulo ao post.
Recentemente, vi numa novela da globo, a "gordinha" que queria perder a virgindade, mas procurava o príncipe encantado. No dialogo com o pretendente, ele comentava que.queria largar a vida de pegação, e encontrar alguém que lhe fizesse companhia, alguém para chamar de seu...

Eis a questão: alguém pra chamar de seu.
Mas porque algumas pessoas insistem em ter alguém para se apropriar? Quando amamos, sentimos a necessidade física de estar ao lado dx nossx amadx. Mas querer bem e querer ficar junto não significa possuir outro. Ao menos, não necessariamente. O fato e que amor e posse são coisas diferentes, no entanto no capitalismo (na sociedade judaico cristã capitalista) aprendemos que precisamos encontrar a pessoa (uma só) certa e ficar o resto das nossas vidas com essa pessoa, constituir uma familiar (nuclear e monogâmica) adquirir uma propriedade (casa, ap, carro) e assim ser feliz,  na dependência e na posse do outro e dessas propriedades materiais.

Isso e tão triste e determinante que ate esquecemos dos motivos que nos levaram amar este alguém. Alguém este que eu esqueço quem é porque me envolvi, e torno apenas meu objeto de desejo  que exibo ao mundo como troféu.
Esqueço que amo, esqueço que tudo.

Apenas possuo a quem chamo "meu".

Por MARIA,L.P.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Gritaram-me NEGRA!

Gritaram-me NEGRA! (Victória Santa Cruz)




"E daí? E daí?
Negra! Sim
Negra! Sou
Negra!Negra Negra!
Negra sou! Negra! Sim
Negra!Sou
Negra!Negra!Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar ? segundo eles ?
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
NEGRO
Afinal
Afinal compreendi
Já não retrocedo
E avanço segura
Avanço e espero
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
Já tenho a chave!
NEGRO
Negra sou!"

Sobre filhos, pais e não-famílias

Mais um texto meu, publicado em 07 de outubro no Blogueiras Negras
Sobre filhos, pais e não-famíliasPor Letícia Maria para as Blogueiras Negras

Algumas vezes, quando visito meus pais nos finais de semana, se volto de trem faço algumas observações.
No fim de semana do Dia dos Pais, minha mãe me ligou me convidando para ir até a casa deles no sábado, pois alguns tios iriam jantar lá a noite. Como chovia muito, topei ir de trem, visto que normalmente vou visitá-los em domingos de moto, passo o dia e retorno.


Naquele dia dois pais, voltei de trem, de Novo Hamburgo a Porto Alegre, e reparei vários homens com crianças. Domingo à noite, o trem estava vazio, mas somente no vagão onde eu estava, haviam pelo menos uns 12 homens sozinhos, com crianças. Achei curioso, e percebi que era um domingo dos pais que findara, e esses homens estavam a devolver as suas crianças às mães. Em um primeiro momento, achei bonitinho… depois achei triste. Tenho muitos amigos homens que tem filhos, e realmente fazem um esforço para estarem presentes na vida dos seus pequenos. Assim como conheço alguns (vários) que pagam pensão e não estão nem aí para as crianças.


imagem: Nosso Blog


Como filha de uma família nuclear e tradicional, sei da importância da presença de ambos. Mas senti a tristeza de alguns daqueles pais, muitos deles jovens como eu, que queriam realmente estar com seus filhos por mais tempo e não podem, não pela relação com as mães, mas pela própria vida.


Triste, mas também vi aqueles que estava estampado na cara, que já tinham cumprido sua obrigação paterna, e o expediente estava terminando. Ai eu me pergunto, quantos daqueles pequenos não chegaram por acidente, sem planejamento ou por irresponsabilidade mesmo, daqueles pais? Seria mesquinho culpar alguém, sobretudo da minha posição feminista… Mas estou certa de que a culpa não é das mães.


Mas sim, um dia dos pais que termina na hora de devolver a criança a mãe, é um dia muito triste. 

Insisto,quando digo que filhos não estão nos meus planos de vida, quando são estes que acabam sofrendo as consequências da irresponsabilidade e do desprezo dos adultos quando há crises em meio as relações.

Outro dia voltando à Porto Alegre de trem, observei essa realidade novamente. Filhos são a maior responsabilidade que alguém pode ter, para que seja banalizada. Você pode escolher uma profissão, mudar de cidade, casar, descasar, virar vegetariano, começar uma dieta e nisso tudo pode se voltar atrás, menos quando há um filho. Por isso, entre tantos outros motivos, é necessário o direito da mulher de decidir. Por mais triste que seja o olhar daquele homem do trem no dia dos pais, vejo o olhar de tantas mulheres a vida inteira, porque não puderam escolher ter ou não aqueles filhos.

Por MARIA, L.P.


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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Mas, e ai?

Ai você dirige 45km para visitar teus pais, pega a BR, vai e volta de boa.
Ai fura o seu pneu, e o borracheiro mais próximo cobra R$20 só no remendo.
Ai o borracheiro aperta tanto a corrente da tua moto, que a roda traseira mal gira.
Ai você anda novamente os 45km com a roda presa, e nada acontece.
Ai você leva um gatinho para dar uma voltinha, ele se apavora de andar na sua carona, gela, mas vai.
Ai você anda no Centro de Porto Alegre, dá trocentas voltas e consegue estacionar.
Ai num fim de tarde, você está voltando pra casa, numa boa, e alguém bate em você há uma quadra de casa.
Ai você descobre que o cara que te derrubou é médico, tem outras duas médicas passando, de testemunhas, mas você só bateu o joelho.
Mas e se eu tivesse realmente me machucado, teria tido tanta atenção?

Mas, e ai?


Por MARIA, L.P.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mais um brinde ao casamento

Escrevi esse post enquanto aguardava o inicio do casamento da minha amiga Alba.
Algumas breves considerações...

Alba e uma querida amiga, que conheci na universidade. Durante um bom tempo, fomos as únicas mulheres negras no curso de historia. Nos conhecemos nos corredores, mas nunca tivemos aula juntas, até porque ela se formou dois anos antes que eu. Ficamos próximas quando fui trabalhar na escola de educação infantil onde ela já dava aula. Ai descobrimos que tínhamos muito em comum.
Passamos por algumas em Campo Bom, cidade mais racista e conservadora que conheci...
Mas também apesar das complicações de trabalhar lá, além de um bom trabalho, nos divertíamos trabalhando com o que a gente gosta.
Fizemos também grandes festas... Muito samba, e um copo na mão. Até eu ouvir da mãe dela a pérola maior: nêga que não samba, não arruma marido!
[nota mental: aprendi a sambar, mas marido não entrou no plano]

Entre tantos belos momentos, entre eles a formatura, me inspirei e me espelhei muito nessa mulher, independente, decidida, valente e lutadora, que hoje casa.
[nota importante: Alba e a minha segunda amiga historiadora que casa, as duas casaram com também historiadores]

Muito embora eu não seja fã da instituição matrimonial, por acreditar que ela tem como função controlar a mulher, na categoria de esposa/mãe, a fim que ela reproduza as relações de dominação patriarcal e capitalista. No entanto, quando o casal, mas, sobretudo a mulher tem consciência disso, e ainda assim escolhem viver juntos, com o cerimonial cristão, mas com distintas perspectivas de der a relação e a vida a dois,não é ilusão, é loucamente corajoso!





Alba e Luiz, sejam felizes!


Por MARIA,L.P.

sábado, 21 de setembro de 2013

Negro gaúcho. Memória farroupilha ou lanceira?

Por Letícia Maria para as Blogueiras Negras

Baseado no discurso do senso comum, nas poucas vezes que sai do Rio Grande do Sul, fui olhada com estranhamento, quando me apresentava como gaúcha: em alguns lugares ainda se imagina que é um estado sem negros.
O Rio Grande do Sul é tido como o estado mais europeu do Brasil. É fato que as correntes migratórias foram fortes por aqui (açorianos em 1740, alemães em 1824, italianos em 1875). Mas antes desses imigrantes chegarem, diversas etnias indígenas já habitavam o território, além dos negros, que chegaram a partir 1737.


Chamado “Terra de Ninguém”, o território passou a ser ocupado oficialmente em meados do Século XVIII, com distribuição de Sesmarias (lotes de terra) pelo Rei de Portugal, destinadas à criação de gado e estimulando a imigração e o povoamento. Com a miscigenação entre os nativos e os recém chegados imigrantes, surge então o gaúcho brasileiro, a partir de 1732. Antes disso, com o Tratado de Tordesilhas (1494), o território pertencia a Espanha. Resultado de acordos políticos, a região necessitava de um “povoamento civilizado”, pois outrora era habitado por populações indígenas, portanto, Terra de Ninguém.
Os negros no RS foram trazidos para trabalhar nas charquedas, que eram grandes fazendas que produziam charque. Esse produto era comercializado para servir de alimento para os escravos de todo país, e por isso o estado vendia muito.
O charque foi uma solução encontrada para aproveitar melhor a carne, que salgada e seca tinha uma durabilidade maior, e era comercializada, mas vinha sendo desvalorizado cada vez mais, o seu valor reduzia-se basicamente ao couro e ao sebo.
O escravo gaúcho, no campo, normalmente se dividia em dois grupos: o da charqueada e o campeiro. A lida de um escravo campeiro, em geral, não era tão ”penosa” como nas charqueadas, visto que se trabalhava a cavalo e entre poucas pessoas. Essa função era vista como perigosa pois a estes cativos eram entregues instrumentos de trabalho e andavam a cavalo sem nenhuma vigilância. Isso reforça o mito de que a escravidão no RS tenha sido mais branda, pois nas charqueadas e nas fazendas cafeicultoras e açucareiras, não se encontrava escravos com tais níveis de “liberdade”, no entanto não há um consenso entre os historiadores a respeito da participação do escravo na atividade pastoril.
No entanto, sabemos que a exploração da mão de obra negra tenha sido amena nesse estado. A realidade, é que a população negra tinha um grande crescimento, o que impulsionou o envio de imigrantes para “clarear” a terra.

O gentílico “gaúcho” foi aplicado aos habitantes do atual território do Rio Grande do Sul, de forma pejorativa por motivos políticos, no período da Revolução Farroupilha (1835-1845). Como a terminologia surgiu em razão da pobreza e da mestiçagem, a expressão não era vista com dignidade e valor. Mas de uma utilização pejorativa, o termo gaúcho passou o a ser incorporado pelos próprios rio-grandenses, ao final do conflito, com a assinatura do tratado de Paz, e a incorporação dos soldados gaúchos ao Exército Brasileiro
O RS passou por um episódio, lembrado saudosamente pelo movimento tradicionalista, que foi a Revolução Farroupilha, entre 1835 e 1845. Esse foi um conflito, onde a elite local reivindicava menores impostos para o charque gaúcho ao Império. A briga era entre os grandes latifundiários da terra, mas quem acabou lutando foram os pobres e escravos: no começo do conflito, a população negra gaúcha era de 30%.
Lanceiro Negro
Lanceiro Negro
Mas a saber, os negros foram convocados a lutar por seus senhores, que ocupavam grandes postos nos exércitos, enquanto os seus escravos compunham o front de batalha: os lanceiros negros. Negros estes que receberam apenas lanças para lutar, e ficava a frente da cavalaria, popularmente, “bucha de canhão”.
Nos anos finais, a manutenção do conflito era muito cara e custosa, as negociações de paz estavam tramitando. Negociando o preço dos impostos sobre o charque, os revolucionários farroupilhas receberiam a anistia e seriam incorporados ao exército imperial (para lutar a Guerra do Paraguai). No entanto, os negros que lutaram, nada receberiam… os boatos de que os que lutaram receberiam a liberdade não passava de um blefe, para que não fugissem para o Uruguai, onde a escravidão já havia acabado.
Os negros sofreram um grande golpe dos farroupilhas: na noite de 14 de novembro de 1844, foram desarmados a mando do General David Canabarro, e mortos na chacina do Cerco de Porongos, na atual cidade de Pinheiro Machado.
Os negros foram entregues à morte pelo comandante do exército farroupilha, em um (dos vários) acordo(s) que desencadearam no Tratado de Paz de Ponche Verde, em 1º de março de 1845.
A Revolução Farroupilha, conflito burguês que massacrou os pobres e negros do RS, hoje, no Vinte de Setembro é comemorado como data máxima do povo gaúcho.

É inegável que a Ronda Gaúcha (posteriormente chamada Crioula) teve importante papel para a formação do atual Movimento Tradicionalista. Em 1947, um grupo de estudantes do Colégio Julio de Castilhos, de Porto Alegre, criou um Departamento de Tradições Gaúchas, com fins de preservar a cultura gaúcha, recordando a realidade do campo. De acordo com os documentos do MTG, esses jovens, atuaram em parceria com a Liga da Defesa Nacional, que os incumbiu de fazer o translado dos restos mortais do herói farrapo David Canabarro, que seria transladado de Sant’Ana do Livramento para Porto Alegre. [...] Da última centelha do Fogo Simbólico da Pátria, se acendeu a Chama Crioula, que se matem viva de do dia sete até o vinte de setembro. E com o Grupo dos Oito, é inaugurado o desfile cívico-militar, realizado pela Brigada Militar e pelos jovens tradicionalistas do Vinte de Setembro.
Da memória de um conflito que não atendeu interesses populares, se criou uma data comemorativa, para a memória de um grupo social. Que naturalmente, não foram os negros: quando o herói de um povo é o assassino dos que lutaram por esse povo, existe algo de errado, seja no conceito de “herói”, seja o conceito de “memória”, seja o conceito de “pátria”
A concepção de cultura, patrimônio, e, sobretudo tradição, utilizada pelo movimento tradicionalista gaúcho é bastante peculiar: vai ao encontro do projeto político defendido e voltado a um passado glorioso, com vistas às gerações futuras.
O tradicionalismo, nesse sentido, é um elemento difusor ideológico, a serviço do Estado e de uma classe social, através do qual é de interesse que sentimentos e valores sejam disseminados, juntamente com um progressivo discurso moralista, presente nas mais diversas ações e costumes.

Aquele que não pertence ao meio recordado pelo movimento não faz parte da cultura gaúcha. Este se torna alheio ao gauchismo, na medida em que o tradicionalismo cria um passado mítico, constrói-se e dissemina um “gaúcho” ideal, que além de não condizer com o real, exclui uma significativa parcela da população do pertencimento territorial, cultural e político.
De alguma forma, não há problemas em um povo homenagear a sua cultura e cultivar as suas tradições. Na teoria, isso é bonito. No entanto, a cultura gaúcha comemorada nos piquetes e nos acampamentos farroupilhas espalhados Rio Grande a fora, não passam de uma versão da história, construída na década de 1940, com início no Estado Novo e fortemente disseminada durante a Ditadura Militar.
A representação de um setor da sociedade, em detrimento dos demais, é algum muito ruim. É opressor. Violenta os demais.
O Rio Grande do Sul é um estado onde vivem negros. Um estado onde negros colaboraram com sua cultura, com sua historicidade, com seus valores, com sua religião.
Nós, negros, estamos aqui. Reivindicamos a memória aos Lanceiros Negros, que viveram, lutaram e morrem por liberdade.

Disponível em Blogueiras Negras