segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Vinte de Novembro: encontrei minhas origens

- Em conversa com os meus alunos da educação infantil, ouvi um pedir a outro o lápis 'cor de pele'. Perguntei 'que cor é a cor de pele?', ele me mostrou o lápis: 'essa aqui'. Questiono, 'mas quem aqui tem essa cor de pele?'. Ele responde 'ninguém'.


- Em palestra, em uma escola da rede estadual, em São Leopoldo, falo sobre a Consciência Negra. Uma aluna pegunta 'e o dia do branco?'. Lembro feriado municipal, em memória ao imigrantes alemães, que chegaram em 1824. Comento sobre a Feitoria do Linho Cânhamos e a presença negra na região antes da chegada dos imigrantes. Lembro das comemorações dos imigrantes italianos, alemães, poloneses, japoneses e que ninguém reclama dessas festas.


- Em conversa com familiares, ouço alguém comentar 'tenho medo desses batuqueiros'. Respondo 'tenho medo de qualquer fanático religioso', mas a pessoa responde do pacto que esses elementos fazem com o diabo. Comento, lembra daquela simpatia que o meu avô - seu pai - fazia? E daquelas rezas? E dos chás? De onde tu acha que ele tirou?


- Em uma formação para professores, em uma escola da rede estadual, em Novo Hamburgo, falo sobre racismo e da importância das ações afirmativas. Uma das professores, critica as cotas raciais e critica um dos estudantes negros, presentes naquele espaço. Uso o bom exemplo que ela traz, e é justamente esse um dos motivos que causam os altos índices de evasão escolar entre negros. Também explico que essa é uma das maiores formas de violência que um profissional da educação pode submeter um estudantes, negando lhe as possibilidades de ascender academicamente.


- Em uma tarde de sábado, passeando com um (ex) pretendente, ouço 'mas as cotas não são necessárias', olha só, tu não é mulher, negra e mora na periferia? E não ta te formando na universidade com 23 anos?'. Respondo 'sim, querido, mas quantas pessoas como eu, mulher, negra, jovem, da periferia tu conhece, na mesma situação que eu?'


- Em uma uma fila para o almoço, em um encontro de estudantes de história, um menino diz 'a fila começa ali na morena'. Eu olho para os lados e pergunto 'em mim?', ele 'é'. Sorrio e digo 'mas eu não sou morena'. Ele fica vermelho e gagueja, continuo 'sou negra, querido', todo sem jeito diz 'eu não quis ofender', insisto 'não me ofendi, mas quando quiser falar de mim diz aquela negra linda e maravilhosa que eu vou responder, mas morena não!'.


- Em um sinal fechado, passam duas Honda Biz. Somente uma é parada pela polícia: a minha, onde havia meu irmão e eu. A outra curiosamente, com um casal branco, não é parada. Quando pedem documentação, a policial (mulher) me pergunta a minha formação, respondo 'historiadora com mestrado em ciências sociais', ela me olha e pergunta 'o quê?' repito e acrescento 'pesquisadora'. Ela me olha com desprezo e me libera. 


Destaquei algumas palavras chave ao longo dos episódios que relatei, por que todos eles foram vividos por mim. 
Me deparo com situações como essas na escola onde trabalho, na universidade, na militância, no trânsito, nas relações afetivas, enfim, no cotidiano. E pior que essas situações, é ignorá-las. 
O dia 20 de novembro é um dia de comemoração e um dia de luta.
O Movimento Negro, há anos reivindica essa data como dia de luta. O treze de maio, para nós não têm essa relevância, justamente por esses episódios relatados. Continuamos lutando diariamente para não nos submeter a uma hegemonia branca. Mas isso não significa ser igual,  no sentido de discriminar e lutar contra, mas de ocupar espaços e mostrar que se somos parte tão significativa da população brasileira, queremos ser reconhecidos como tal.
Não negamos a história contada pelos descendentes europeus. Mas lutamos para que a nossa versão também seja contada, respeitada e valorizada, para que nossas origens sejam também lembradas. 
Veja bem, comemoramos o dia da consciência negra, e queremos que os brancos comemorem com a gente, afinal esse é um dia de comemorar a presença negra nesse país e resignificar as nossas relações.

É necessário um dia para refletir sobre isso. Mas que que isso não fique somente nesse dia... 
Mas é preciso que repensemos nossas relações - raciais - e que encontremos nossas origens e nossa ancestralidade. 



Sou mulher, negra, professora, pesquisadora, militante.
Tenho 24 anos, sou graduada em História, curso mestrado em Ciências Sociais. Moro com meus pais em um bairro pobre de Novo Hamburgo/RS.
Me orgulho de ser quem sou, da minha história e da minha ancestralidade.
Luto diariamente por um país onde possamos ser nós mesmos.

Que sejamos livres!


***

ENCONTREI MINHAS ORIGENS (Oliveira Silveira)




Encontrei minhas origens

em velhos arquivos

....... livros

encontrei

em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei



Afinal, Zumbi somos nós!



** Esse texto faz parte da #BCMulherNegra. 

 
 Acesse mais em  blogagemcoletivamulhernegra.wordpress.com  


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