quarta-feira, 23 de maio de 2012

Vadia

Há dias vinha querendo escrever sobre esse assunto: pernas. Eis que li no Blogueiras Feministas 'Essas pernas são suas menina', e me senti quase no compromisso.

Quando tinha oito anos, eu usava vestido, saio, short, tudo que uma criança normal veste. Até que um dia, com a minha saia roxa (com elástico florido) estava eu andando de bicicleta. Uma prima da minha mãe disse que eu deveria observar mais, pois aparecia minha calcinha. Ela era amarela e tinha corações na bunda. Eu não vi maldade alguma naquilo, até então.
Por estar me tornando uma mocinha, parei de me mostrar. E de usar vestido.  Só usava calça. Quando tinha alguma festa ou coisa do tipo, até pensava em colocar uma saia/vestido, mas de meia-calça. Afinal, ninguém podia ver as pernas de uma mocinha de familia.

Na adolescência, fui meio 'rebelde', com influências do rock, só vestia preto e jeans.
Aos quatorze anos, passei um verão inteiro de caça jeans. Odiava minhas pernas, pois as achava feias, gordas e peludas. Então passei a me depilar (li isso outro dia também nas Blogueiras, e me fez lembrar porquê passei a me depilar).Depois disso, passei a usar corsário (bermudas que passam dos joelhos).
Dancei algum tempo em CTG (Centro de Tradições Gaúchas) e usava vestidos, sempre. Até os pés.

O tempo passou.
Aos 19 anos, ja na universidade, comprei um vestido, para as Bodas de Prata do meus pais. Mas era um longuete (até abaixo do joelho, naturalmente). Gostei.
No verão seguinte, comprei um vestido roxo, que ia até antes do joelho. Vestir aquilo, pra mim era a maior quebra de paradígmas possiveis.
Até que um dia, chego na universidade com o 'tal vestido' (que não tinha nada de mais, mas pra mim era curtíssimo) e recebi vários elogios dos colegas. Eu estava bonita... mas não acreditava.
Quase um ano depois, fiquei com um colega (que era razoavelmente mais velho, já passava dos trinta, e eu nos meus vinte...) e ele elogiava muito as minhas pernas. Por muito tempo, achei que ele estava me 'tirando', pois minhas pernas eram roliças e horrendas. Não tinha pernas finas, beem pelo contrário.

Depois disso, comecei a olhar minhas pernas de outra forma, comecei a gostar delas. Depois disso, comprei mais um vestido, e mais um. E meus vestidos foram encurtando. E eu, me libertando.

Eis que, no ano passado, comprei um vestido que realmente era curto. E quando saia, meu pai me perguntou se eu ia com aquela roupa. Era um vestido florido, de alças e curto (ou seja, não era daqueles cubinhos que as meninas encurtam cada vez mais, mas e se fosse?). Mas fiquei profundamente chateada, pois meu pais não é de comentar a roupa que uso.

Ele, como a maioria dos homens, vê em uma mulher de saia curta, uma biscate, uma vadia.
Fomos contruidos assim. Só nós resta enfrentar o senso comum e exigir que possamos vestir o que queremos.

Apesar de estar razoavelmente bem resolvida com meu corpo, ainda hoje tenho problema com biquinis. Me sinto mal, não consigo ficar a vontade dentro de um biquini. Me sinto exposta.
Sei que isso é o resultado de uma pressão social sobre a minha mente e sobre o meu corpo. Ouvi a vida inteira sobre o que eu deveria vestir, como deveria pensar e agir, enfim, quem eu deveria ser.

Não admito mais que alguém diga o que devo ser.
Se eu quero mostrar as minhas pernas, eu vou mostrar. Se eu quiser mostrar a minha bunda, eu vou mostrar (oO)!

"Ninguém tem o direito de me julgar a não ser eu mesmo. Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender." (Raul Seixas)

Mas agora, perguntam, por que o título da postagem vadia?
Domingo, em vários locais do país, será a Marcha das Vadias (SlutWalk). E eu estarei marchando também. Para quem ainda tem dúvidas, leia Carta Manifesto da Marcha das Vadias do DF/2012.

Por isso me coloquei a pensar. Somos educadas para ser as santas madres del lar, e quando não nos comportamos dessa forma, nos tonamos vadias. Somos vitimas de violência e desprezo, mas a culpa é sempre nossa.
E a nossa falta de liberdade e protagonismo, é culpa de quem?
Estaremos marchando, no domingo, dia 27 as 16h na Redenção - POA/RS.
E assim seguiremos, até que todas sejam livres. De acordo com as suas escolhas.

"Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni!"

Somos todas Geni. Somos Biscates e Vadias. Todas na luta por uma sociedade onde possamos ser nós mesmas.

Por MARIA,L.P.

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