terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Não sou feminista e também sou contra o aborto

Na oficina “Mulher e Participação Política, Avanços e Desafios”, promovida pela União Brasileira de Mulheres (UBM), no Fórum Social Temático 2012, Estela Maris Cardoso, vice-presidente da Unegro e membro da UBM, lembrou da situação das mulheres negras e do encorajamento das mulheres:



“Nós mulheres negras já estamos nos espaços de poder, nos colocamos nas disputas. As mudanças acontecem nos materiais didáticos e livros escolares. Muitas vezes a questão cultural também é um impedimento. Eu tinha muita dificuldade em entrar na UBM. Eu dizia: não sou feminista e também sou contra o aborto. Mas comecei a refletir que, independente de ser ou não contra o aborto, muitas meninas morrem por abortos mau feitos. Então, integrei na UBM porque eu posso decidir que sou contra o aborto, mas essas meninas que decidem pelo aborto precisam ter o direito de escolha”, declarou Estela Maris, que é de Santa Catarina.


(Fonte: UBM discute desafios da mulher para o próximo período (30/01/2012))


Encontrei essa pequena fala no Facebook, num link relacionado as Blogueiras Feministas. Li e me identifiquei por completo.

Não concordo que nós, mulheres negras estejamos em espaços de poder, mas creio que estamos lutando para ocupá-los gradativamente, assim como tantas ‘minorias’.

Concordo que mudanças significativas estejam ocorrendo, mas também creio que estas sejam lentas (muito leentas). Que questões culturais muitas vezes são impedimentos, concordo mais que plenamente! Vejo isso no espelho todas as manhãs, e luto contra isso em mim mesma.

Eu dizia: não sou feminista e também sou contra o aborto
Caramba, também já disse isso. Primeiro, pois a mística que se constrói sobre uma feminista, é a imagem do demônio católico - de saias (e com as pernas cabeludas)... feministas são chatas, são radicais, são todas lésbicas (que horrível, não?!), odeiam os homens, e blablablabla. Na medida que fui conhecendo melhor o feminismo e as companheiras feministas, me dei conta de que essa imagem turva é construída pelo machismo, e não pelo feminismo. Inclusive até escrevi um pouco sobre isso nesse post (Eu e o feminismo)
Sobre ser contra o aborto, também tenho minhas contradições. Escrevi sobre isso aqui (Um resposta sobre o aborto - debater é legal!)  e considero que o mais importante em relação a este assunto, é um debate sério e maduro.

Normalmente as pessoas que se posicionam contra o aborto, são afetadas diretamente pelo moralismo cristão (inclusive eu). Se deixar convencer em razão de um falso moralismo é muito sério, pois precisamos de mais ‘choque de realidade’ e menos conservadorismo. Quem já se imaginou condenada pelo resto da vida a carregar uma responsabilidade que não é somente sua? É muito fácil dizer ‘vadia’, ‘assassina’, ‘fez e agora quer tirar o seu’, quando não está na pele da outra... sobretudo para os homens.

O homem até pode ter a sua posição, mas essa, é uma decisão da mulher. É uma política para mulheres, que deve ser pensada e discutida por elas, que são as verdadeiras interessadas. E isso pra mim, é o que conta. Reconheço que ainda tenho os meus pontos conflitantes pessoais em relação ao tema, mas penso que essa é uma pauta fundamental em relação à emancipação da mulher (política, cultural, social e religiosamente) e a garantia do seu direito.

Hoje estava acompanhando uma breve discussão no facebook, onde um rapaz levantava alguns questionamentos a cerca de dois bebês que foram abandonados recém nascidos essa semana no RS. Claro que isso é chocante, que é uma violência sem tamanho. Mas ninguém pensa no que a mulher que chega nesse ponto está vivendo... todos a criminalizam. Mas e o pai?? Ninguém lembra de perguntar sobre o pai...

A violência contra a mulher, acontece de diversas formas, e normalmente não é como os setores mais conservadores imaginam... os casos de estupro em uma rua escura a noite, é estatística. Centenas de mulheres são violentadas diariamente, pelos companheiros, por familiares, por amigos. Ai vem a mídia e os nossos amigos do face dizer ‘na hora de fazer não pensou’.
Não pensem que eu esteja defendendo o abandono de crianças por ai... estou questionando a nossa moral. Não criminalize, não julgue, não ofenda... não sabemos o que passou. Sejamos solidários a criança, a dor desse pequeno ser, mas sejamos solidários também ao desespero de uma mulher que deseja/comete um aborto. Certamente ela não vai fazê-lo sem motivos... é uma prática violenta e desumana, centenas de mulheres morrem por causa de abortos mau feitos. Mas se ela tem motivos, no mínimo, respeite.

Quando me refiro que os meus ‘valores cristãos’ também me deixam em conflito em relação a isso, eu admito, é um tema muito forte. Reconheço, abrimos mão me uma vida... mas quantas vidas não acabam se auto-destruindo com uma gravidez indesejada?? Imaginem a mãe que abandonou o seu filho, no ápice do desespero, vê na televisão todos acusarem a sua atitude... e essa vida, não foi destruída?

Tenho acompanhado um blog muito legal, o Católicas Pelo Direito de Decidir. Sugiro, aos amigos cristãos, a leitura... vale a pena.

Mas lembrem, aborto é um caso de saúde pública, e nem a minha igreja e nem outra qualquer tem o direito de dizer o que fazer. Precisa ser um política pública, é um direito e uma escolha da mulher, e liderança religiosa nenhuma tem absolutamente nada a ver com isso.

Antes de concluir. Digo a todos que mudei.
Eu sou feminista. Não posso ser contra o aborto.

Por MARIA,L.P.

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