terça-feira, 29 de novembro de 2011

Hoje no ônibus vi um menina com uma camiseta escrita ‘Chê vive!’

Hoje no ônibus vi um menina com uma camiseta escrita ‘Chê vive!’
Achei muito bonito.
Para a maioria das pessoas, isso não significa nada, mas para mim foi de profunda inspiração este encontro.

Em primeiro lugar, acho que vestir uma camiseta com um rosto ou frase precisa ter um sentido, de ‘vestir a camiseta’, com a idéia de que se concorda com a causa, que se acredita nisso tudo (se bem que a maioria das pessoas não pensa sobre isso).

Mas também não se há tanta necessidade assim do sujeito teoricizar tudo. Há alguns dias, discutíamos a necessidade do sujeito ter formação, dentro de um partido político. Quando um trabalhador e/ou estudante ingressa em um movimento social, partido político ou qualquer movimento que tenha uma ideologia bastante definida, ele precisa saber onde está, mas não acredito que ele tenha obrigação de saber toda a teoria para tal. É claro, que alguns princípios básicos são necessários, por exemplo, não posso ingressar em um movimento de mulheres, se penso que a mulher deve de fato obedecer ao marido, porque o verdadeiro motivo da perda dos valores da nossa sociedade é por casa do declínio da sociedade patriarcal (sim, já ouvi isso). Mas também não posso barrar o sujeito por não ter lido O Capital, dá pra entender?

Parto do principio, de que “Se você treme de indignação perante uma injustiça, então somos companheiros” (parafraseando o Che).

Acredito que uma formação política é necessária urgentemente para todos nós (sim, me incluo no rol dos necessitados de formação intelectual política). Acho bonito ver um adolescente com o Che no peito, mas ele precisa saber que foi este cara e o que ele fez, para poder dizer que ‘Che vive’. Tenho certeza que “Che vive” sempre que alguém torna o pensamento dele vivo. Assim, como Paulo Freire é presente quando tornamos reais as suas idéias e falas.

Mas devemos ter muito cuidado. Pois Hitler também vive, e não apenas em camisetas com suásticas estampadas. Ele vive sempre que idéias como as dele são disseminadas e aclamadas, e isso acontece muito. Muito mais vezes que um adolescente veste o Che.

Precisamos de formação política sim. Não para o partido ‘x’ ou ‘y’, mas para a sociedade. Precisamos urgentemente de formação, pois a necessidade de gente para discutir e para construir mudança é absurda. Claro que queremos militantes ao nosso lado, mas precisamos de muita gente, para militar pela nossa sociedade, e não em benefício próprio, para isso já basta a lógica do capitalismo.

Precisamos de mudanças, de revolução. Precisamos ter certeza de que Che vive, não só em camisetas e panfletos por ai, mas que ele vive como espírito revolucionário, de mudança, no projeto de uma sociedade mais justa onde todos terão acesso a educação, saúde e liberdade de viver em paz, e de ser quem realmente se é.

Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Utopia

A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.



Eduardo Galeano

domingo, 20 de novembro de 2011

Dias de Consciência, dias de Luta!

Mais um vinte de novembro, e inúmeras questões entram pauta. Ao participar de diferentes atividades sobre a Lei 10.639/03m inclusive ministrando atividades de promoção da reflexão sobre a Consciência Negra, quando discuto a lei e as políticas de ações afirmativas, me ponho a pensar sobre como a nossa luta é dura e continua.

Lutamos por reconhecimento do nosso povo, ultrapassando as barreiras do preconceito e discriminação nas diferentes esferas das nossas vidas, seja social, profissional, acadêmica, nos grupos de convivência, seja nas nossas relações mais pessoais. Lutamos pelo reconhecimento da nossa historia, considerando o 20 de novembro como uma data chave, importantíssima à nossa militância, reconhecendo de fato a luta e o valor do povo negro.
Assim como em Palmares, queremos o reconhecimento de Porongos, onde nossos antepassados lanceiros foram assassinados ao lutar por uma causa que não era sua, mas queriam em troca apenas a sua liberdade.

Lutamos também por uma educação básica de qualidade para nossas crianças, onde elas possam se olhadas como são, reconhecidas pelos seus conhecimentos e bagagem cultural, onde a legislação não precise obrigar a escola a integrar a criança negra e a sua historiografia, mas que essa mesma legislação seja assimilada naturalmente, tornando a Educação das Relações Étnico-Raciais uma feliz realidade nas nossas escolas.

Lutamos ainda pelo respeito a diversidade religiosa, onde a maioria dos nossas acaba se escondendo atrás de práticas religiosas extra-oficiais, ou discretas – se assim podemos chamar – em razão da opressão de uma maioria esmagadora.
Muito além disso, lutamos por espaços de visibilidade e reconhecimento, junto aos movimentos sociais, na luta pela garantia dos direitos das minorias. Lutamos também por um feminismo mais negro, onde as mulheres mostrem plenamente a sua autonomia, mas, sobretudo, por espaços onde a mulher negra tenha visibilidade, sendo realmente vista e representada pelo feminismo. Outras bandeiras de militância, tais quais a luta contra a homofobia e as diferentes formas de discriminação, também são fundamentais. Entretanto, não podemos em hipótese alguma usar o discurso hipócrita de que todos são discriminados por algum motivo, para deixar de discutir o racismo e a causa do negro. Precisamos articular nossas bandeiras de militância, para que estas nossas diferentes lutas se somem, se encontrem e se complete,
É por isso que lutamos, não apenas no mês de novembro. Lutamos por todo o ano, todos os dias, a vida toda... por consciência negra e por uma sociedade que reconheça todas as suas peculiaridades e problemáticas, respeitar as diferenças e assumir indenidades.
Essa é a nossa luta - UBUNTU!

Texto de Letícia Pereira Maria - http://letthyssia.blogspot.com/
Historiadora - Novo Hamburgo/RS
Militante do Movimento Contestação
Disponível em http://movimentocontestacao.blogspot.com/2011/11/dias-de-consciencia-dias-de-luta.html

Por MARIA,L.P.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto

"Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não?






Até porque não acredito no que é dito, no que é visto.

Acesso é poder e o poder é a informação.

Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz.
O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio.
Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia.
O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa.
A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento,
na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela
que não tem gesto,

quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto!






Falou e disse..."

(Xanéu Nº9 - O Teatro Mágico)

Preciso dizer mais?
... 'é, falou e disse!'


terça-feira, 8 de novembro de 2011

São Longuinho, me fale, me dê um sinal...

Encontrei hoje no Twiiter  o link deste clip. Achei bonito, simples e doce... e além disso, diz muito.

Podem se deliciar a vontade!

'São Longuinho, me fale, me dê um sinal...'

O que se perde enquanto os olhos piscam - O teatro mágico



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quem é feio, quem é bela?

Hoje, replico este texto "Quem é feio, quem é bela", do blog da Lola. Já havia postado algo sobre o assunto, do mesmo blog "Verão como somos lindas" e "O racismo de todos os dias".  Na ocasião desta última postagem "questionei "quando não te acham bonita, ou quando não te acham bonita porque você é negra. Como saber?", e recebi alguns comentários criticando.
O que coloco em questão, é o padrão de beleza. O que consideramos bonito e/ou feio? E o que nós temos por quesito para fazer essa diferenciação.
Considero o texto da Lola muito bem escrito, realista e apropriado (como de costume). Desejo a todos uma boa leitura e uma boa reflexão sobre o tema!
 
Por MARIA,L.P.



 
QUEM É FEIO, QUEM É BELA




Somália, jogador de futebol brasileiro. Vc acha que ele está na lista dos belos ou feios?



Há várias listas das musas do Pan de Guadalajara, como acontece sempre em qualquer esporte feminino. A mídia dá um enfoque na beleza e sexualidade das atletas, em vez de no seu desempenho esportivo.





O UOL fez uma seleção com 58 fotos, dentre as quais está esta, da saltadora Juliana Veloso, e esta, da jogadora de vôlei de praia Larissa. Cara pra quê, né? Sexismo da grossa mesmo. Típico. Não muda nunca.




Já falei dessa objetificação das atletas várias vezes, e não é disso que quero falar no momento. Portanto, escolhi esta lista do R7 das mais belas brasileiras do Pan. Há doze fotos, entre elas a de Flavia Delarolli, da natação.



A goleira Thaís Picarte, que deve ser a única loira da seleção brasileiras de futebol (que é a modalidade que enfrenta os maiores preconceitos, pois no Brasil considera-se que futebol é coisa de macho; logo, mulher que joga futebol é macha -– leia-se lésbica. Além do mais, cansei de ouvir o quanto as jogadoras brasileiras de futebol são horrorosas. Nada a ver com a cor da maioria, decerto), é uma das dez.




Bom, esses dias a UOL fez sua própria lista, esta com os jogadores mais feios do futebol, que são chamados de monstros. A foto que abre a matéria é do Cortês (não sei o time de nenhum, e a matéria não diz).



Este abaixo é o Tinga.


Já acho a maior sacanagem fazer uma matéria assim. Qual o propósito de chamar alguém de feio? Eles estão concorrendo a algum título de Mr. Universo? E a beleza não é nem um tiquinho relativa não?


Este cara simpático e sorridente aí ao lado, por exemplo, é chamado de monstro. Realmente monstruoso o Andrezinho! Nossa, que horror! Só pode ser pela cor... da camisa dele.


Pois é, dessa lista dos monstros, quantos dos 23 escolhidos são brancos? Sete? Oito? Os outros são todos negros ou mulatos, de preferência com aquele cabelo ruim que é ruim exatamente por quê? Pra quem?


Da lista das belas do R7, quantas beldades são não-brancas? Uma? Duas? Três?


Temos uma mídia que prepara matérias assim a toda hora pra nos ditar quem deve ser considerado feio, e quem deve ser considerada bonita. O fato de fazerem matéria de mais feio já tem um caráter subliminar: mostrar que beleza não é nada importante quando estamos falando de homem. Pra mulher beleza é tudo, lógico. Fundamental, meu caro Vinicius. Mas os jogadores não precisam se ofender -– eles estão lá pra jogar futebol, e é isso que o público predominantemente masculino vai cobrar deles.


Eu não acho que a mídia que bola essas seleções cretinas seja conscientemente racista. Não acho que alguma equipe de jornalistas se reuniu pensando: “Vamos mostrar ao mundo que o único padrão de beleza aceito é o ariano”. A mídia reflete os preconceitos da sociedade, e não tem como negar: nós somos incrivelmente, vergonhosamente, muito incomodamente, racistas. Racistas e com a autoestima lá embaixo, pois só consideramos belo um ideal nórdico, que representa uma minoria entre nós. Privilegiamos tudo que não somos. Não é à toa que Gisele seja nosso símbolo, nossa maior representante.


No último Miss Brasil não havia uma só candidata negra. Lembrando: é Miss Brasil, país mais miscigenado do mundo, não Miss Suíça ou Miss Noruega (opa! Suíça e Noruega escolheram misses negras!). Que impressão isso passa? Que só brancas podem ser bonitas. Que negras são automaticamente feias, excluídas, e vai arrumar esse cabelo, menina!


Mas o bom é que a gente não precisa assumir que é racista. Nada disso! Quem gosta de ser chamado de racista? Ninguém! É até crime! Então a saída é apelar pro velho e bom... gosto pessoal! Então. Não é que negros sejam monstros, e loiras sejam musas. Não há conspiração nenhuma, imagina! A mídia não nos afeta em nada! Achar que negro é feio? Que cabelo bom é cabelo liso? Ah, é só o meu gosto pessoal!


Disponivel em http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/11/quem-e-feio-quem-e-bela.html


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O nosso holocausto e o cortiço

Estava fazendo uma limpa no computador do trabalho, e reencontrei este texto.
No intuito de compartilhar, posto para que possamos pensar com seriedade sobre a nossa história e olhar criticamente sobre nossas atitudes. Considero que nem tudo é história, mas sobre tudo ela têm influência.
Fiquem com "O cortiço" da coluna de David Coimbra.

Por MARIA,L.P.



O cortiço


 Ao caminhar por entre as artérias do Monumento ao Holocausto, no coração de Berlim, a cada passo aumentava minha admiração pelos alemães. Ali estava um povo que não se esquivava de suas culpas. Ao contrário, as purgava em público e em voz alta.


Os mesmos passos me faziam pensar nos brasileiros. Nós aqui, ao que parece, não nos aflige culpa alguma. Do que o brasileiro se envergonha, afora a derrota na Copa de 50? Pois é. Mas nós temos do que nos envergonhar. Temos também o nosso nazismo. O nosso holocausto. Chama-se escravidão.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, mas nem ao aboli-la lavou-se de sua desonra. Agora mesmo, no Rio de Janeiro flagelado, lateja essa dor. Pois quem são esses que morrem sufocados pela terra que se desprende dos morros cariocas? Descendentes de escravos e ex-escravos expulsos do Centro quando o Rio se transformou no que hoje é.

Você leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Bom livro. Não devia ser obrigatório nas escolas, devia ser tratado como romance para iniciados. O Cortiço conta a história de um imigrante português que, como se dizia então, “amasiou-se” com uma escrava para somar suas economias às dela. Juntos, os dois e seus dinheiros, melhoraram a bodega dele e investiram em quartos de aluguel. Montaram um cortiço aos moldes de tantos que havia no Rio do século 19, o mais célebre deles chamado Cabeça de Porco, de propriedade do Conde D’Eu, ilustre marido da Princesa Isabel. O que não deixa de ser irônico – entre os 4 mil moradores do cortiço do marido, havia inúmeros ex-escravos libertados pela esposa.


Essa gente não teve mais onde morar a partir do começo do século 20, quando a prefeitura do Rio botou abaixo os cortiços. O prefeito Pereira Passos, inspirado nas reformas feitas em Paris décadas antes, rasgou avenidas, abriu largos arejados, mudou a face da cidade. Os moradores dos cortiços, muitos deles, foram para a zona norte. Outros, que precisavam morar perto do Centro, onde trabalhavam para os senhores brancos e bem alimentados, esses ficaram por perto: subiram os morros do entorno, construíram casebres com as sobras das demolições protagonizadas por Pereira Passos, formaram as favelas como as conhecemos.


Essa gente pingente das favelas não foi libertada da escravidão; foi atirada à liberdade. Para eles, nunca houve planejamento, muito menos investimento. Hoje, Lula dá certa atenção a esses desgraçados. Não é o ideal, claro que não. Porque não é uma ajuda estratégica; é uma ajuda tática. Mas, ao menos, é algo. Para quem não tinha nada, talvez seja muito. Por isso, Lula foi amassado pela vaia do Maracanã, na abertura do Pan em 2007. Vaiaram-lhe os brancos e bem alimentados, os moradores da planície, que olham para o alto, para o morro, com medo.


Hoje, os brancos e bem alimentados da planície olham de novo para o morro. Aquela gente parda, aquela gente que passa os dias de bermuda e sem camisa, que mora em barracos construídos com pedaços de qualquer coisa, aquela gente teima em chamar a atenção. Às vezes roubando, às vezes matando e às vezes, como agora, morrendo. Inconvenientes, é o que são. Vivem a nos lembrar que em nós, também, pode haver culpa.


Texto de David Coimbra (ZH, 9 abril 2010)