domingo, 30 de outubro de 2011

Sobre relacionamentos que não vão dar certo



Mais autonomia às tuas esperanças.
Impossível marcar lugar e hora para as surpresas.
Nunca dá certo.
Receberás aquilo com que já não contas
na festa que não esperas.
(Aníbal Machado)



Ele: casa dos 30, intelectual, charmoso, gente boa. Ela: simpática, trinta, espirituosa, gente boa. Um bar, amigos comuns, uma noite de conversa. Uma balada. Contatos: FB, celular, tudo. Então: mensagens, conversas, cinema, jantar. Um encontro, outro, sexo. Mais conversa, mais comida. Tudo por melhorar, do sexo à comida, mas, ainda assim, tudo gostoso. E aí um: vamos almoçar? querendo soar despretensioso mas já soando decisivo. Ele vai, meio ansioso, a cabeça rodando com: puxa, logo agora que resolvi investir, ela é tão especial, fez eu me mexer em relação ao meu passado. Sim, o moço tem um sofrer na história. E é isso mesmo, ele acertou, ela diz: não é você, sou eu. Pensei e acho que não vai dar certo entre nós. Ela está assim, em um momento mais dela, sabe? Quer uma televisão nova, um sofá novo, ficar mais só. Ele concorda (o que mais pode fazer) e seguem, um pra cada lado que não seja ao lado do outro. Fim, né? Ele me conta. Se lamenta um pouco. Queria que tivesse dado certo.



E aí eu digo as duas coisas sobre as quais quero escrever aqui e que me definem em relacionamentos: 1) não existem pessoas especiais; 2) relacionamentos não vão dar certo. Aí acrescento que acho tão fofinho que ele é romântico e penso que vou perder um querido, mas ele fica e eu explico um pouquinho do meu pensar.

Não existem pessoas especiais, eu disse, mas poderia dizer que todos somos especiais. Cada pessoa tem, sei lá: um sotaque, um meneio, um sinalzinho, um timbre, um jeitinho que a faz especial. Que a faz amável. Que a faz única. Então, ninguém especial. O que é especial é o nosso olhar. Nosso olhar elege, diferencia, nosso olhar confere, ao que é único naquela pessoa, a qualidade de interessante, desejável (claro que a escolha não é, de todo, consciente).

Relacionamentos não vão dar certo. A idéia de que relacionamentos devem dar certo é uma forma contemporânea de dizer: finais felizes. Os finais não são felizes, alguém parte, alguém trai ou, ainda que se viva em risos por sessenta anos, alguém morre. Um final pode trazer alívio, ser triste, angustiante, libertador, indiferente, aterrorizante, mas não feliz. Pra mim, um relacionamento não pode ser pautado no futuro, pelo que ele pode vir a ser. Um relacionamento é o que ele é, o que ele está sendo. Um relacionamento não vai dar certo, ele está dando certo, agora, neste instante, ou não.

A idéia de pessoas especiais, certinhas pra gente, que fazem com que nos movamos, superemos histórias passadas e finalmente tentemos de novo eu acho bem romântica. Meu amigo é um romântico – embora se ache descolado, cínico e sei mais lá o quê que pensam os moços bonitos de fala mansa. Essa idéia, penso, além de romântica, é, também, uma perda de tempo. Ele diz: ela fez eu me mover, eu superar. Eu digo: você perdeu um monte de bonde, amigo. A nossa felicidade não está no outro e sim com um outro. Pra mim essa é uma diferença essencial. O que importa não sou eu, não é ele, é o processo, o que construímos, é nossa capacidade de manter o tal olhar na ativa.

A idéia de que um relacionamento deva ter uma perspectiva ideal de futuro, é – penso - romântica, achei a moça da história também bem romântica, embora se ache descolada, cínica e sei lá mais o quê que pensam as moças bonitas de fala segura. Ela, como ele, tem a idéia de que deve estar “pronta” para quando O relacionamento chegar. Que há um momento certo para o querer bem que não é um momento qualquer, tipo quando se precisa fazer as unhas ou se quer comprar um sofá. E a vida sendo, pondero, justamente, o miúdo.

(pausa pra sabedoria do Rosa: "felicidade se acha é em horinhas de descuido")

Ah, tem mais uma coisa. Meu amigo disse, quando se lamentava: que pena que não deu certo. E eu: ué, a cerveja e a balada foram boas? Foram. O cinema? Foi bom. Os jantares? Ótimos. Sexo? Beleza. A conversa? Intensa e divertida. Então, digo eu, o que é que não deu certo? O certo é o mesmo que contínuo num relacionamento ou o certo é o mesmo que bom? Achar que tudo de bom que se viveu é “não dar certo” é também trabalhar com a idéia do que um relacionamento deveria ser e perder o que ele está sendo.

Apesar do tom pedante, quero dizer que isso tudo não é só o que penso, é o que vivo. Eu considero que todos os meus relacionamentos deram certo. Porque em todos houve aquele momento em que brilha o olho e a respiração falha. E, como, pergunto, eu poderia dizer que tal beleza foi um erro? Eu não acredito em uma hora certa, em uma pessoa certa, em um local certo pra se querer bem. O meu sentir e, ainda mais, minhas relações são sem expectativas de que sejam outras coisas (não sem esperas, destaco, de encontros, de jantares, de filmes, de cervejas, de cama...). Elas apenas são o que vão sendo, o que vamos fazendo. Uma semana ou dez anos.

Então, o resumo da minha vida: vivo relacionamentos que não vão dar certo com pessoas que não são especiais, né? Ou, então, podem me chamar de Mafalda:



Um Epílogo
"Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, reescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.

Mas isso mata — pensei eu.

Sim, isso mata — respondi — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.

Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte."

fragmento de “Exercício Corporal III”, (1961–68) orginalmente publicado em “Retrato em Movimento” (1967); in Herberto Helder, “Poesia Toda 1953–1980″, Lisboa, 1981

Encontrei este fragmento aqui .
 *****
 
 
Belíssimo texto (quisera eu tê-lo escrito) originalmente disponivel em Borboletas nos Olhos

sábado, 29 de outubro de 2011

Então, disse a loucura...

Disse a loucura...

Quanto mais se é louco, mais se é feliz. Apenas a Loucura conserva a juventude e afugenta a importuna velhice. Quanto mais o homem se afasta de mim, menos goza a vida. Dona Natureza, genitora e criadora do gênero humano, tem o cuidado de em tudo deixar uma pitada de loucura. A Fortuna gosta das pessoas irrefletidas, das temerárias, daquelas que dizem habitualmente: “A sorte está lançada.” A Sabedoria torna tímidas as pessoas; encontrareis em toda parte sábios na pobreza, na fome e na miséria. Os loucos, ao contrário,nadam em dinheiro, tomam o leme do Estado e, em pouco tempo, são florescentes em todos os pontos. Só os loucos têm o privilégio de dizer a verdade que não ofende.

O louco fala loucuras; os sábios, pelo contrário, têm duas línguas: uma para dizer a verdade, outra para dizer o que é oportuno.

O que distingue o louco do sábio é que o primeiro é guiado pelas paixões, o segundo, pela razão. Existem paixões que ajudam os pilotos experientes a ganharem os portos. Quem não fugiria de um homem desses, fechado a todos os sentimentos, incapaz de uma emoção, alheio ao amor e à piedade? O amante apaixonado já não vive em si, mas inteirinho no objeto amado; quanto mais sai de si mesmo para se fundir neste objeto, mais se sente feliz. E quanto mais perfeito é o amor, mais forte e delicioso é seu tresvario. 


Elogio da Loucura –  de Erasmo de Rotterdam


Enquanto isso, estou em casa, viajando... justamente quando precisava estudar. Insanidade, minha doce e louca distração!

Por Maria, L.P.

domingo, 23 de outubro de 2011

Felicidade?

Felicidade? - de O Teatro Mágico



Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"

O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Quando as estrelas começarem a cair...

Mesmo se as estrelas

Começassem a cair
A luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
Você visse o nosso corpo
Em chamas!


Deixa, pra lá...
Quando as estrelas
Começarem a cair
Me diz, me diz
Pr'onde é
Que a gente vai fugir?



Trecho final da canção “Angra dos Reis” (Composição: Renato Russo / Renato Rocha / Marcelo Bonfá).

Gosto muito dessa canção, de 1987 (composta antes mesmo do meu nascimento). Acho que ainda estou curtindo uma certa nostalgia em ritmo dos 15 anos de morte do Renato Russo. Então, ‘pra onde a gente vai fugir’?


Por MARIA,L.P.



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia do Professor - 15.O

No sábado que passou, estive presente no 15.O, juntamente aos companheir@s do Movimento Contestação. Discutimos várias questões ligadas às revoltas populares por todo o mundo, a corrupção, a falta de investimentos em setores necessários e, uma das principais bandeiras do Movimento, os 10% do PIB para a Educação.


Vale lembrar que não consegui postar nada em alusão ao Dia do Professor, devido ao fato de estar off o fim de semana inteiro, envolvida e acampada na Praça da Matriz, em POA - no 15.O.
Nesse sentido, minha consciência me aperta. Minha formação inicial é pelo Curso Normal de Nível Médio – Magistério, e minha formação em nível superior é Licenciatura em História. Logo, ser professora é algo muito presente na minha formação intelectual e pessoal também.


No sábado, durante a atividade na Praça da Matriz, encontrei o Jonas, um colega muito querido e estudante de Pedagogia. Depois de horas papeando, comentei com ele que admirava pessoas como ele (que têm um discurso parecido com o dele), que cursavam pedagogia.


Quando entrei no magistério, em 2003, lembro-me de colegas que falavam que ingressaram no curso por gostarem de crianças. Mesmo na rebeldia dos meus 14 para 15 anos, eu sabia que não estava lá por isso. Sempre acreditei na função do professor, na educação como ferramenta de mudança. Não preciso entrar no mérito do sofrimento e castração pelo qual passei ao longo do curso, a dificuldade de adaptação foi muito grande, mas a maior dificuldade foi a relação com as colegas, sem dúvidas.


Quando entrei na universidade, a primeira cadeira pedagógica que cursei foi Profissão Docente, com a Prof. Nara Nornberg (já postei sobre ela Sobre Amar e Fomos Maus Alunos[?])Ao longo das apresentações dos colegas, lembro-me que alguém – infeliz – comentou que escolhera pedagogia porque gostava de crianças, ele a professora largou a pérola “Gosta de criança? Vai ser mãe então!”... no auge do meu primeiro dia de universidade, me senti radiante, por uma Doutora em educação entendia o meu desespero desde o inicio do magistério. A vontade que eu tive foi de levantar-me e dar um beijo na testa da Nara!! Mais tarde, como cursei outras disciplinas com ela, pude perceber que ela faz uma série de críticas a educação e a formação dos professores, mas não coloca a culpa em ninguém, ao contrário, aponta caminhos para a resolução destes problemas. Além disso, (infelizmente) nutri por muito tempo um preconceito as estudantes de pedagogia, que não tinha muita clareza dos seus motivos para serem professoras.


Ao conversar com o Jonas, fiquei muito feliz em ouvir o que o motiva a ser professor (ele pretende seguir com alfabetização), visto que são poucos os homens no curso e em sala de aula nas séries iniciais. Ele me disse ‘eu acredito na educação’. Em meio a todo aquele sentimento de revolução e insatisfação do15.O, me senti profundamente inspirada ao receber as felicitações relativas ao Dia do Professor, de alguém que faz tala afirmação. È justamente esta a questão!


Não se pode ser professor por falta de opção, porque a mãe foi professora, porque gosta de criança, ou por qualquer outro motivo fútil e vazio. Não se pode ser professor, se és vazio.


É necessário acreditar naquilo que se faz. É necessário ter consciência da importância do ato de ensinar.


No magistério, eu comprava grandes brigas por ver pessoas sem (a menor) noção indo para a sala de aula. Isso me causava um grande desespero, por eu sabia o estrago que isso iria causar, e ainda causa. Pela felicidade do destino, nem todas as Normalistas 2003/2006 seguem lecionando (eu mesma, tenho outro trabalho, mas sigo lecionando em projetos sociais).


Para ser professor é necessário muito mais que uma letra bonita, criatividade nas artes, uma voz mansa, que ser chamado de “tio”. Ser professor é ser comprometido, é saber o que ser quer, o que se pode fazer e onde se pretende chegar. Ser professor é conhecer a precariedade da educação publica deste país e saber atuar nela. Ser professor é não se conformar com isso tudo. Ser professor é ser cidadão, é ter um compromisso com a sociedade, é saber que se forma “gente” e não massa de manobra. Ser professor é ser indignad@, é ser militante, é ser revolucionário, sem esquecer em momento algum que possui a maior e mais eficiente arma de revolução: a educação.
Eu me orgulho de ser professora, me orgulho do que faço. Não me atrevo a culpar o professor que tem tantas dificuldades de trabalhar devido a sua baixa remuneração, imensa desvalorização e imensurável violência a qual é submetido todos os dias. Vivemos em um país onde ser professor não é ser considerado profissional, onde não se visualiza a responsabilidade que lhe cabe. Ser professor não é ser movido por vocação, muito embora isso ajude muito. Ser professor é compromisso com o futuro.


O sábado foi muito especial, foi uma comemoração diferenciada pelo dia do Professor e pelas conversas imensamente ricas, de reflexão e de construção. Ouvir do Jonas, em pleno sábado a noite, um ‘eu acredito na educação’ fez o meu Dia do Professor mais feliz, fez o meu 15.O mais forte e fez da minha militância mais inspirada e fundamentada: a revolução é feita todos os dias, a cada recomeço, por diferentes motivos, nas nossas salas de aula.


"O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor" - Che Guevara


Por MARIA,L.P.

domingo, 9 de outubro de 2011

Nostalgia

Não poderia deixar de falar sobre isso.
Assisti ontem e hoje uma série de documentários especiais na MTV sobre Legião Urbana, em razão dos 15 anos de falecimento do Renato Russo.

Gostei (ainda gosto, mas não mais excessivamente) muito de Legião. Passei boa parte da minha adolescência curtindo as canções da banda. Até por isso, na minha última postagem, também nostálgica, de certa forma, falei das coisas que vivi e das pessoas que conheci nessa época - ilustrada com uma canção da Legião "O teatro dos vampiros".

Assumo que passei o dia na frente da televisão, assistindo as entrevistas, ouvindo e cantarolando as músicas, pensando,  lembrando. 

Acho que nostalgia é um algo bom. Dizem que 'recordar é viver', talvez seja mesmo. Nostalgia não é lamentar um passado, mas recordar dele sentindo o gostinho de que o que se viveu valeu a pena. Que vale a pena continuar vivendo, e que no futuro poderemos continuamente acessar essas memórias boas. 

Minhas canções favoritas da Legião eram Marcianos Invadem a Terra, Sereníssima, Metal Contra as Nuvens, As Flores do Mal, Os Barcos, Perfeição e Maurício. 
Nossa... na realidade são tantas que eu gosto!

Sim, o
uvir Legião Urbana me deixa profundamente nostálgica. 


Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Teatro dos Vampiros


Dedico esta ‘canção’ à minha amiga Andressa, que certa vez me disse que as vezes lia esse blog.

No fim de semana, estive sozinha em casa e me pus a pensar sobre muitas coisas, entre elas o passado, a vida vivida.
Almocei com uma tia, fui levar pra ela ver as fotos da minha formatura. Assim fiz a tarde, e fui visitar meu padrinho. Na volta, encontrei a Andressa, amiga que há muito não via. No domingo, almocei com um casal de amigos muito queridos. E tudo isso me fez bem, de alguma forma foi uma visita ao passado.
Sobre aqueles poucos minutos em que falamos, me recordei dessa canção.

Nesses minutos, me dei conta de como mudamos. São mais de dez anos. Mas a Andressa me disse que algumas coisas não mudam: ela continua anti-social, e eu extremamente sociável. Será mesmo?

Mudamos, crescemos, transformamos.
Mas ainda somos as mesmas pessoas. Diferentes, mas ainda somos os mesmos.







Para Andressa.


Teatro dos Vampiros (composição: Renato Russo)

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto.
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos.


Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.


Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.


Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.



Por MARIA, L.P.