quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Por que os cristãos devem defender os direitos dos homossexuais

Texto de André Egg 'Por que os cristãos devem defender os direitos dos homossexuais'. Como os que leem este blog sabem, sou católica e defendo os direitos LGBTTT's.
Achei a análise muito bem colocada!! Acredito que é um dever do cristão (que assim se intitula) amar e respeitar o próximo, seja ele quem for. Tolerância é bom, mas respeito é fundamental. E não cabe ao bom cristão cultivar a hojeriza ao outro, o mandamento, afinal, é este ‘amar uns aos outros’.



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Existe uma certa tradição no cristianismo que consiste em negar a sexualidade. Essa tradição não é, de maneira nenhuma, “correta”, “divina” ou “bíblica”. É uma tradição espúria, um ascetismo que pode ser creditado às influências de religiões muito mais antigas que o cristianismo.

Essa tradição pode ser creditada em parte a Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, o mais importante dos chamados “pais da igreja”, e certamente uma das maiores colunas daquilo que se entende por ortodoxia cristã. Para ele, o “pecado original” tinha conotação sexual, e vinha transmitido de Adão para toda a raça humana quase como uma doença venérea que passa de pai para filho. Tal tradição associou-se fortemente à noção de perdição-salvação que formou a base de uma teologia que tem pouco de cristã, se pensarmos essa palavra como relacionada ao ministério de Cristo.

Os principais personagens bíblicos sobre cujas vidas sexuais há algo mencionado nos relatos não são exatamente os bons exemplos de “virtude” e “pureza” que hoje certos grupos identificam como qualidades cristãs. A ideia de controlar a sexualidade das pessoas não tem nada de “bíblica” ou “cristã”. Não há por que imaginar que um adulto não possa decidir quem ele quer beijar, em que posição ele quer transar, com que tipos de roupas ou apetrechos, ou quaisquer outros detalhes que não vou mencionar aqui.
Os limites da sexualidade moralmente aceitável devem ficar claramente dentro daquilo que podemos definir como ética cristã: a inexistência de violência, o respeito ao próximo, a compreensão, o amor, o carinho. Fatores que certamente não excluem as relações homoafetivas — e, por outro lado, não podemos deixar de lembrar que certamente estão ausentes em diversos casais heterossexuais.
Dificilmente alguém poderia usar de argumento teológico ou mesmo do relato bíblico para condenar condutas sexuais consentidas entre adultos. Trata-se, na verdade, de outras questões, muito mais mesquinhas.

Os judeus tinham suas regras muito claras, que incluíam o apedrejamento de mulheres adúlteras. É fácil lembrarmos de como Jesus trata desses casos no relato dos Evangelhos. Estão lá essas mulheres sendo defendidas pelo Mestre em histórias narradas no capítulo 8 do Evangelho de João, no final do capítulo 7 de Lucas, ou no capítulo 4 de João.

Jesus estava pronto a apontar a incoerência dos homens religiosos de seu tempo, que estabeleciam suas hierarquias de pecado conforme certos interesses. O que nos mostra que a moral sexual que os religiosos arrotavam não era nada de origem divina. Era mera formalidade, coisa para estabelecer que uns seriam melhores que outros, exatamente o tipo de estereótipo que o Cristo sempre se dignou a quebrar.

Em tempos posteriores, pensou-se que o fato de o relato dos Evangelhos não descrever que Cristo tivesse se casado devesse ser tomado como exemplo de santidade, reforçado pelo exemplo do apóstolo Paulo. Assim, surgiu o monasticismo cristão, e a noção de que uma vida sem sexo era uma vida livre de pecado. Os seres melhores e mais santos seriam aqueles que não copulavam (a verdade é que muita coisa sempre aconteceu dentro dos mosteiros, mas vamos tomar a inocência por admissível). Os mais fracos seriam os que não resistiam ao “desejo da carne” e mantinham a procriação da espécie. Entretanto, o ato não poderia ser tomado como fonte de prazer, especialmente pelas mulheres – que deveriam ter o exemplo de Maria como máximo. Engravidar e dar a luz sem ter transado tornou-se o inatingível ideal a ser perseguido.

O celibato se impôs como necessidade econômica no momento em que a produção coletiva dos mosteiros era capaz de fazer a diferença entre a vida e a morte de populações em vastas regiões da Europa e do Oriente Médio. O clamor pelo celibato vinha do povo para os clérigos, pelo exemplo que contrastava a vida corrupta dos bispos “seculares” em comparação aos homens santos dos mosteiros.

De modo semelhante, a família nuclear burguesa pareceu o melhor arranjo ao mundo das transações comerciais urbanas, enquanto desarranjos sexuais podiam pôr a perder a economia e subsistência da população. No mundo urbano que se desenhava na Europa do século XVI, uma das principais medidas das reformas religiosas que sacudiram o continente junto com revoluções políticas foi a abolição do celibato e do monasticismo, e o surgimento de uma teologia da família. A necessidade da existência da família nuclear como modo de fazer frente às necessidades produtivas da vida moderna talvez tenha feito com que os hábitos sexuais continuassem sendo tão vigiados.

Não existe mais necessidade disso, entretanto o cachimbo faz a a boca torta. Ninguém é capaz de dar razão plausível, mas a condenação de certas condutas sexuais é hábito arraigado. Isso leva pessoas a agredirem outras na rua por expressão de afetividade que julgam não tolerável. O mesmo tipo de reação condicionada, irrefletida e brutal, leva ao clamor que faz com que líderes religiosos mais interessados em serem bem vistos por seu público alvo do que em manterem-se fiéis à Verdade são capazes de bradar de seus púlpitos contra as condutas sexuais que são julgadas intoleráveis.

Os jovens devem-se resguardar do sexo, bradam pastores e padres. O sexo é só para casados, seguem os inquisidores. Só pode ser heterossexual, normatizam os que se arrogam a posição de líderes do rebanho. E assim barram-se no Congresso brasileiro as leis que punem a violência contra homossexuais. “É para defendermos a lei de Deus”, argumentam os falsos pastores. Deveriam dizer: “É para podermos continuar usando a violência verbal, institucional e física para coagir a obediência às nossas leis, que as fazemos e colocamos na boca de Deus”.

E barram-se as iniciativas para que a afetividade homossexual possa ser discutida na escola. E segue-se usando a intolerância contra decisões de foro individual – achamos que temos o dever de bater, prender, internar, condenar quem usa roupa assim ou assado, fuma isso ou aquilo, transa desse jeito ou daquele, com essa pessoa ou com aquela.
Nada mais tolo, desumano e injusto. Obviamente não há nada de cristão em praticar ou defender este tipo de violência insana. Defender o direito de cada um à expressão de sua própria sexualidade é uma obrigação moral e, como tal, uma ordem de Deus. Não há mais o que esperar: nós, cristãos, devemos tomar posição a respeito.



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