segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta a um machista em redenção

Este post foi originalmente publicado no Papo de Homem a convite de seus editores, com o título “Conselhos a um machista em redenção”. Ele está sendo republicado aqui na íntegra como foi enviado. Outro post nosso que também foi publicado lá é o “7 Mitos Machistas que eu e você reproduzimos” que já teve seu original “7 Fatos do Machismo Diário” republicado aqui.



Imagem de Paul Lowy, no Flickr em CC alguns direitos reservados


Oi, Gustavo Gitti,


Soube que você estava se questionando, pensando em como ser menos machista, e resolvi escrever pra você. Não tenho pontos de chegada, mas conheço umas estradas, vamos percorrê-las? De quebra, escrevo não só pra você mas todos aqueles que desistiram de ser o macho que bate no peito e grita como Tarzan no século XXI. Para os que resolveram mudar e construir um mundo mais igualitário, para mulheres e homens. Aquele que decidiu que chegou a hora de tirar o “S” do peito e deixar de lado aqueles preconceitos idiotas de que mulher no trânsito é perigo constante, de que se pagou o jantar na sobremesa deve estar incluído um boquete.


Então, eu acredito que existem três coisas fundamentais pra começar este processo:


a) sair da postura defensiva. Quando falamos de machismo não estamos reduzindo você a este aspecto. Não é que você SEJA machista e nada mais. Reconhecemos que você também se comporta de forma atenciosa, inteligente, espirituosa…isso são aspectos, né? Cada um de nós é um mosaico.


b) aceitar abrir mão de privilégios. Faz parte da sociabilidade humana: ceder, respeitar, reconhecer. Que privilégios, você pode se perguntar. Eu respondo: desde ser melhor pago pelo mesmo trabalho que uma mulher até avaliá-la e classificá-la pejorativamente pela sua disposição ou disponibilidade sexual. Se eu for de vestido curto para faculdade, se entrar embaixo do edredon com alguém num reality show, se pegar dois caras de uma mesma turma, o que me acontece? Não interessa minha inteligência, meu senso de humor e nem minhas dicas de shows bacanas, se eu era de esquerda ou direita, a partir daquele momento eu sou a vadia, a puta, a biscate que não vale nada. E você? Quando você pegou duas mulheres na mesma noite, disseram o quê? Pois é. Privilégio é isso.

c) ficar vigilante. Nossa sociedade é estruturada com valores machistas. Há uma naturalização dos campos de comportamento, aprendizagem, trabalho, lazer, sexualidade, baseados em estereótipos biológicos. Masculino e Feminino não são regras fixas, pré-determinadas, naturais. São conceitos construídos e fixados ao longo de séculos de formação cultural, reproduzidos diariamente. Será que você consegue enxergar as entrelinhas? Por exemplo: mulheres não foram sempre preocupadas com dietas, achando que sempre podem perder mais 3 quilos. Não é biológico categorizar mulheres em dois grandes grupos: as putas e as decentes. A cientista que passou anos estudando e descobriu a cura para uma doença terá que dar entrevista falando que sempre arruma um tempinho para pintar as unhas. A presidenta, senadora, deputada ou vereadora será questionada em entrevistas sobre o que mais gosta de cozinhar. A universitária que cursa engenharia mecatrônica terá que ouvir milhares de piadinhas sobre mulheres que não sabem ligar uma cafeteira. Nenhum homem terá seu trabalho, ou seu blog avaliado como “coisa de homenzinho”. Essa banalização de papéis nos cega para as distinções cotidianas. É preciso “estar atento e forte” e reconhecer que todo mundo pisa na bola, que somos passíveis de engano, que vez ou outra o contexto cultural fala pela nossa boca.




Partindo do reconhecimento destas premissas, algumas sugestões pro dia-a-dia. Não é receita, não é modelo, tá? Se se compreende que há diversidade de anseios, desejos e comportamentos nas mulheres simetricamente também se reconhece a diversidade dos homens. Das pessoas. Mas vamos às dicas que estamos neste papo pra isso, né?

1. Não faça piadas sexistas. Nem homofóbicas. Nem racistas. Não ria de piadas assim. Observe a sua linguagem. Por exemplo: quando você fica com raiva de uma mulher – seja por um problema no trabalho, no trânsito, etc. – qual o primeiro xingamento que lhe ocorre? Você já chamou algum homem de “boi”, “galo”, “piranho”? Já reparou a diferença de conotação entre “vagabundo” e “vagabunda”? É isso, tente evitar usar palavras que trazem essa carga de sexismo. Ah, uma dica, repare também se você fala “o homem” no sentido de “a humanidade” como: “o homem está pesquisando a cura de várias doenças”, é um bom indício de um pensamento sexista.


2. Não rotule. Reflita se suas conclusões estão sendo tiradas a partir da sua relação pessoa-pessoa ou baseada em generalizações sociais. Pode causar estranheza ver uma mulher em ambientes considerados masculinos, como estádios de futebol, cursos de engenharia, etc. Mas não tire conclusões precipitadas, não assuma logo de cara que ela está ali porque está a fim do jogador ou porque quer aparecer. Muitas mulheres gostam de futebol, curtem matemática, são hábeis em situações que exigem lógica. Olha, comportamento não vem de fábrica. É item customizado. “Mulher”, assim como você, é ser em construção e deve ser compreendida uma a uma.


3. Pense. Somos humanos e desde Sócrates (o filósofo, não o meia) que se reconhece que uma das coisas que caracteriza nossa humanidade é a capacidade de refletir sobre a reflexão. Na dúvida, antes de fazer um julgamento, se pergunte: e se fosse um homem naquela situação? Se a resposta for a mesma, beleza. Se houver inquietação, alerta vermelho, comportamento machista à vista. E se fosse um homem andando sozinho na rua de madrugada? E se fosse um homem dirigindo? Jogando? Falando sobre leis da física? Cozinhando?


4. Observe o cotidiano. Repare no trabalho invisível que sobrecarrega as mulheres. Por que as mulheres é que levam as crianças ao médico? Por que elas é que comparecem às reuniões de pais na escola? Por que você lava a louça e se sente “ajudando em casa” e ela esfrega os azulejos do banheiro, engoma a roupa, arruma os armários quando se chega do mercado, coloca as roupas na máquina? Repare nas obrigações e culpas invisíveis que exacerbam esta sobrecarga. Por que “quem pariu Mateus que balance”? Se você quer realmente mudar, Gustavo, faça o trabalho doméstico. Porque eu posso ficar horas nesse blá blá reflexivo, mas nós dois sabemos que na hora do pega pra capar (olha a linguagem sexista aí, gente – tá vendo, eu também piso no tomate) o que vale é ação refletida. Então, faça o trabalho doméstico. Experimente a rotina dela: chegar em casa e ainda ter a casa para cuidar, o supermercado para fazer, a roupa para lavar. Melhor do que ler e se informar sobre a dupla jornada de trabalho das mulheres é entender na prática o que isso significa. Se quiser dar mais realismo à experiência, peça a essa mulher que ao chegar em casa te pergunte o que tem pra jantar e reclame: “Frango, de novo?!”

Ah, como você notou, tenho muito a dizer sobre isso. Quem sabe continuamos falando, adoro papear.

Para entender mais:
Pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc: Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado.


Disponível em Blogueiras Feministas
http://blogueirasfeministas.com/2011/08/carta-a-um-machista-em-redencao/
(Somos brasileir@s, de várias partes do país, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.)

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