quarta-feira, 6 de julho de 2011

Resposta ao comentário anônimo

Hoje pela manhã, ao abrir meu email, tive a surpresa de ter recebido um novo comentário na postagem que eu fiz no dia 24 de junho “UFRGS apura racismo em sala de aula”. Esta notícia eu trouxe do blog do Movimento Contestação, do qual também sou co-autora, e foi postado pela Ana. Junto a postagem, fiz um breve comentário sobre o que eu penso sobre o racismo no Brasil, e Chico Silva comentou:


Chico Silva disse...
Eu sei que é glichê, mas é um absurdo que hoje em dia pessoas pensem assim, ainda mais, uma pessoa que provavelmente estudou a evolução da humanidade. A nossa História, da qual este aluno é estudante, mostra que o preconceito e a discriminação são armas de pessoas ignorantes e retrógadas. Não sou conhecedor dos detalhes de nossa História, mas me lembro de uma pessoa, cuja inteligência e vontade de mudar o que está errado são invejáveis e inspiradoras, Mandela uniu muito mais que um país ou um continente, reuniu uma nação sem fronteiras sob uma mesma verdade, os sentimentos de uma pessoa são muito mais importantes do que a cor dela. Ser preconceituoso e discriminar a pessoas, pelo que for, é muito mais fácil, do que aceitar que essas mesmas pessoas, a quem discriminamos, podem ser tão valiosas para nós como qualquer outra.

Para a minha surpresa, um leitor anônimo comentou:

Anônimo disse...
Você citou apenas Mandela, um qualquer diante dos cérebros que a raça branca ofereceu à humanidade.


Tenho por princípio manter aberto o blog para que quem quiser ler e comentar, acho justo. Mas me senti muito ofendida com este comentário.

Em primeiro lugar, quero deixar esclarecido que qualquer que seja a opinião do sujeito, ele tem o direito de tê-la, assim como eu. Mas a partir do momento que este mesmo sujeito de dispõe a comentar de forma anônima, ele está se eximindo disso, ou seja, ‘anônimo’ não é sujeito, é qualquer um.

Em segundo lugar, Chico no seu comentário diz que pouco conhece e cita Mandela por ser um ícone, símbolo de luta. Mas queria dizer ao ‘anônimo’, que ele não é um qualquer, e que também não é o único.

O que você considera ‘muitos cérebros que a raça branca ofereceu a humanidade’ é apenas um ponto de vista. O que eu considero um olhar eurocêntrico da nossa história. Certamente, nossos livros estão cheios de brancos protagonistas, mas (olha só, que engraçado) esses livros são escritos somente por brancos. Durante muito tempo, quem se permitiu contar a história da humanidade foram os brancos, e isso certamente foi bom (para eles) para que pudessem ter apenas a sua versão (o seu ponto de vista). Hoje, sabemos que não foi exatamente assim que aconteceu.

No nosso país, isso aconteceu muito, temos como um bom exemplo Nina Rodrigues, que foi um dos primeiros intelectuais que escreveu sobre as religiões afrobrasileiras. Mas sabemos também que todo o conhecimento místico por ele descrito foi por assim dizer, apropriado do negro, escrito e publicado pelo branco. Muito do nosso conhecimento tem origem do povo negro, mas acontece que como o branco dominou durante muito tempo, ele se fez protagonista e se apropriou de todo o conhecimento – e da escrita da história.

Disseste também que o Mandela foi apenas um qualquer, portanto, gostaria de citar também muitos outros nomes de negros que se fizeram protagonistas, lutando contra a hegemonia do branco:


• Zumbi dos Palmares
• Dandara
• Anastácia
• Aleijadinho
• Machado de Assis
• Oliveira Silveira
• Mário de Andrade
• Luiz Gama
• Lima Barreto
• José do Patrocínio
• João Cândido
• Chiquinha Gonzaga
• Benjamin de Oliveira
• Auta Souza
• Antonieta de Barros
• Luiza Mahin
• Lélia Gonzalez
• Leônidas da Silva
• Cuti (Luiz Silva)
• Joel Rufino dos Santos
• Cruz e Souza
• Carolina Maria de Jesus
• Adhemar Ferreira da Silva
• André Rebouças
• Beatriz Nascimento
• Francisco de Paula
• Domingos da Guia
• Maria Auxiliadora
• Laudelina de Campos
• Candeia
• Solano Trindade
• Raimundo Dantas
• Luiza Mahin
• Edson Carneiro
• Teodoro Sampaio
• Pixinguinha
• José Correia Leite
• Abdias do Nascimento
• Alzira Rufino
• Kabanguelê Munanga
• Milton Santos
• Rainha Nzinga Mbandi
• Luiza Mahin
• Martin Luther King
• Malcom X
• Augusto dos Anjos (+)



Além dessas pessoas, eu poderia citar também Barack Obama (mas não sei se é a melhor referencia), mas posso citar também Santo Antônio do Categeró.
Posso citar também a Prof. Dra. Nilma Lino Gomes (UFMG); A Prof. Dra. Eliane Cavallero (UnB, se não me engano) e seu esposo Danny Gloover (ator), Prof. MS. Leonor Franco Araujo (UFES), Profª Drª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (MEC/Secad), a Prof. MS. Adevanir Pinheiro (UNISINOS), entre muuitos outros intelectuais negros que estão atualmente nas nossas academias e na militância. Talvez alguns leitores não conheçam boa parte dessa lista, mas ai entra o que eu disse sobre o olhar da história... eles aparecem, dependendo de quem a conta.

Confesso que o comentário me deixou profundamente irritada, por isso fiz uma breve lista dos negros mais conhecidos, apenas para responder o que o anônimo afirmou não existir.

E para que não conhece a autora deste blog, cá estou eu. Muito em breve, podem me adicionar a esta lista também. Eu sou Letícia Pereira Maria, tenho 23 anos, sou historiadora, mulher, negra e moradora da vila, tomada por um imenso desejo de mudança.

Por MARIA,L.P.

5 comentários:

  1. Se formos entrar no campo música atual, por exemplo, a contribuição do "grandes cérebros da raça branca" para a formação da mesma é mínima. Praticamente toda nossa música popular, do rock ao hip hop, passando pelo metal, samba, funk, etc., encontra suas raízes na música negra. Em especial na música negra gestada no sul dos Estados Unidos. Então vamos parar com essa papagaiada aí.

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  2. Esse discurso racista vai durar mais algumas gerações ainda, infelizmente. Estupidez parece ser genética.

    Obs: Não sou o mesmo anônimo.

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  3. Ainda é possível ver o que se via na senzala e o trabalho escravo campeia, queria muito saber quem são os poucos libertados que chega ao nosso conhecimento

    Grande abraço

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  4. Eu, sinceramente, prefiro observar o branco que se permite libertar...

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