quarta-feira, 13 de julho de 2011

#QuemMatouJuan?

Faz pouco tempo que ingressei nas redes sociais. Talvez por ser resistente ao novo (pra não dizer que sou cabeça-dura), ainda prefiro o bom e velho email. Tenho algumas restrições à exposição exacerbada cometida por alguns no twitter e no facebook. Concordo com o Ziraldo quando ele diz que vivemos um momento de evasão de privacidade.


Críticas à parte, é incontestável o poder de mobilização que as páginas de relacionamento possuem, como foi mostrado na Carta Capital no mês passado. Assistimos a eclosão das Marchas das Vadias em vários estados, o sucesso do Churrasco da Gente Diferenciada e da Marcha pela Liberdade. Esses são apenas alguns exemplos dessa nova forma de ativismo, que não requer necessariamente um líder e um gabinete para exigir direitos e mudanças.

E por acreditar na força dos protestos virtuais, participei do twitaço realizado na noite de sexta-feira passada – #QuemmatouJuan?. As centenas de posts no twitter foram uma reação ao assassinato do garoto Juan Moraes, na Comunidade Danon, localizada na Baixada Fluminense. O corpo do menino de 11 anos foi encontrado num rio, em 6 de julho, 16 dias após o seu desaparecimento. Os principais suspeitos do crime são quatro policiais militares que lideraram uma ação de combate ao tráfico de drogas no local na data em que Juan desapareceu. O irmão de Juan também foi baleado e por sorte sobreviveu.


Temos no assassinato de Juan uma continuidade histórica. Ainda no século XIX, intelectuais brasileiros tomaram de empréstimo as teorias raciais disseminadas na Europa, que atestavam a inferioridade dos negros. Ao adaptá-las à realidade nacional, imputaram aos descendentes de escravos uma suposta tendência ao crime. Outrossim, o negro associado à criminalidade foi fundamentado pela Ciência, ganhou caráter institucional no Estado e foi amplamente disseminado pela população.

Passado mais de um século, este estigma permanece arraigado no inconsciente coletivo e nas abordagens policiais. Os moradores das periferias, vilas e favelas, sobretudo os negros e do sexo masculino, são vistos como “Elementos suspeitos”. Do ponto de vista da violência urbana, um estudo realizado pelo Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais da UERJ mostrou que, entre os anos de 1999 e 2005, o número de pretos e pardos assassinados cresceu 46,3%. No contingente branco, esse crescimento foi de 0,1%. Os reflexos das teorias raciais formuladas pela elite brasileira nos primeiros anos da República também são visíveis no sistema prisional. No Rio de Janeiro, 90% da população carcerária é formada por afro-descendentes. Impossível não lembrar dos versos de Gil e Caetano: “mas presos, são quase todos pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres, e pobres são como podres, e todos sabem como se tratam os pretos”.

Como se sabe, racismo é uma palavra praticamente proibida no Brasil. Dessa forma, crimes como o ocorrido em Nova Iguaçu dificilmente são associados à violência racial. Além disso, quando chegam a ser noticiados na mídia impressa e televisa são fruto de denúncias de moradores e de pressões dos movimentos sociais. Embora eu não tenha assistido, é necessário louvar as reportagens veiculadas recentemente pelo SBT e pela Rede Record, que recentemente levaram ao ar matérias sobre a discriminação racial e a violência policial no Brasil. Fato raro na televisão brasileira.

No ano passado, em um dos debates entre os presidenciáveis, Plínio Arruda, candidato do PSOL, nos poucos minutos em que teve direito de se pronunciar, sintetizou um dos legados deixados pelos quase quatro séculos de escravidão no país: “Ser negro no Brasil é extremamente perigoso”. A assertiva de Plínio deve ter passado desapercebida para muitos, porém, a morte precoce de Juan não deixa dúvidas de que o militante socialista estava coberto de razão.

O assassinato de Juan ganhou o noticiário, mobilizou a comunidade, as redes sociais e as organizações não-governamentais. Maria do Rosário, Ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, exigiu rigor nas investigações através de uma Nota Pública. O depoimento de uma testemunha aponta #QuemmatouJuan. Resta saber se os acusados serão julgados e condenados.


Texto de Luana Diana dos Santos, disponivel em Blogueiras Feministas

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A diferença entre liberdade de expressão e racismo

Hoje recebi um link de um jornalista que defendeu o estudante da UFRGS, que defendia o determinismo biológico.


O jornalista se debruça no ponto ‘liberdade de expressão’, onde a universidade é autoritária ao punir o ‘pobre e ousado estudante’. Ousada sou eu, esse cara, é doente.

É doente defender um posicionamento que excluiu, explorou e matou milhões de seres humanos.

As pessoas que defendem isso são exatamente o tipo de gente que jamais sofreu nenhum tipo de discriminação, que acusa o negro de vitimização, que não reconhece que a pobreza nesse país tem cor e ela é negra.

É muito fácil justificar o determinismo, baseando na nossa historiografia eurocêntrica, pois o jornalista abertamente declara os povos africanos como atrasados e sem valores culturais.

Venho pesquisando exatamente a aplicabilidade das teorias raciais difundidas no Brasil no século XIX e não consigo admitir esse tipo de declaração de um homem público, como declara o autor dessa matéria. Assim como este defende a liberdade de expressão nos meios acadêmicos, me expresso livremente para considerar Luiz Carlos da Cunha racista.

Os comentários, condenam as ‘ditaduras das minorias’, onde certamente pensam que o negro deve mais ficar quieto, sem manifestar a sua ojeriza frente a este eurocentrismo assumido.

Agora só faltam nos dizer que precisamos respeitar Hitler, porque ele sabia exatamente os lugares que cada raça ocupavam na sociedade dele.

Lembro as más línguas, que o nazismo foi condenado pela ONU, logo após a segunda guerra mundial, pois seu víeis ideológico é violento, autoritário e excludente.



É sim, necessário o direito da livre expressão, mas é preciso discernimento, em primeiro lugar.


Por MARIAL.P.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Resposta ao comentário anônimo

Hoje pela manhã, ao abrir meu email, tive a surpresa de ter recebido um novo comentário na postagem que eu fiz no dia 24 de junho “UFRGS apura racismo em sala de aula”. Esta notícia eu trouxe do blog do Movimento Contestação, do qual também sou co-autora, e foi postado pela Ana. Junto a postagem, fiz um breve comentário sobre o que eu penso sobre o racismo no Brasil, e Chico Silva comentou:


Chico Silva disse...
Eu sei que é glichê, mas é um absurdo que hoje em dia pessoas pensem assim, ainda mais, uma pessoa que provavelmente estudou a evolução da humanidade. A nossa História, da qual este aluno é estudante, mostra que o preconceito e a discriminação são armas de pessoas ignorantes e retrógadas. Não sou conhecedor dos detalhes de nossa História, mas me lembro de uma pessoa, cuja inteligência e vontade de mudar o que está errado são invejáveis e inspiradoras, Mandela uniu muito mais que um país ou um continente, reuniu uma nação sem fronteiras sob uma mesma verdade, os sentimentos de uma pessoa são muito mais importantes do que a cor dela. Ser preconceituoso e discriminar a pessoas, pelo que for, é muito mais fácil, do que aceitar que essas mesmas pessoas, a quem discriminamos, podem ser tão valiosas para nós como qualquer outra.

Para a minha surpresa, um leitor anônimo comentou:

Anônimo disse...
Você citou apenas Mandela, um qualquer diante dos cérebros que a raça branca ofereceu à humanidade.


Tenho por princípio manter aberto o blog para que quem quiser ler e comentar, acho justo. Mas me senti muito ofendida com este comentário.

Em primeiro lugar, quero deixar esclarecido que qualquer que seja a opinião do sujeito, ele tem o direito de tê-la, assim como eu. Mas a partir do momento que este mesmo sujeito de dispõe a comentar de forma anônima, ele está se eximindo disso, ou seja, ‘anônimo’ não é sujeito, é qualquer um.

Em segundo lugar, Chico no seu comentário diz que pouco conhece e cita Mandela por ser um ícone, símbolo de luta. Mas queria dizer ao ‘anônimo’, que ele não é um qualquer, e que também não é o único.

O que você considera ‘muitos cérebros que a raça branca ofereceu a humanidade’ é apenas um ponto de vista. O que eu considero um olhar eurocêntrico da nossa história. Certamente, nossos livros estão cheios de brancos protagonistas, mas (olha só, que engraçado) esses livros são escritos somente por brancos. Durante muito tempo, quem se permitiu contar a história da humanidade foram os brancos, e isso certamente foi bom (para eles) para que pudessem ter apenas a sua versão (o seu ponto de vista). Hoje, sabemos que não foi exatamente assim que aconteceu.

No nosso país, isso aconteceu muito, temos como um bom exemplo Nina Rodrigues, que foi um dos primeiros intelectuais que escreveu sobre as religiões afrobrasileiras. Mas sabemos também que todo o conhecimento místico por ele descrito foi por assim dizer, apropriado do negro, escrito e publicado pelo branco. Muito do nosso conhecimento tem origem do povo negro, mas acontece que como o branco dominou durante muito tempo, ele se fez protagonista e se apropriou de todo o conhecimento – e da escrita da história.

Disseste também que o Mandela foi apenas um qualquer, portanto, gostaria de citar também muitos outros nomes de negros que se fizeram protagonistas, lutando contra a hegemonia do branco:


• Zumbi dos Palmares
• Dandara
• Anastácia
• Aleijadinho
• Machado de Assis
• Oliveira Silveira
• Mário de Andrade
• Luiz Gama
• Lima Barreto
• José do Patrocínio
• João Cândido
• Chiquinha Gonzaga
• Benjamin de Oliveira
• Auta Souza
• Antonieta de Barros
• Luiza Mahin
• Lélia Gonzalez
• Leônidas da Silva
• Cuti (Luiz Silva)
• Joel Rufino dos Santos
• Cruz e Souza
• Carolina Maria de Jesus
• Adhemar Ferreira da Silva
• André Rebouças
• Beatriz Nascimento
• Francisco de Paula
• Domingos da Guia
• Maria Auxiliadora
• Laudelina de Campos
• Candeia
• Solano Trindade
• Raimundo Dantas
• Luiza Mahin
• Edson Carneiro
• Teodoro Sampaio
• Pixinguinha
• José Correia Leite
• Abdias do Nascimento
• Alzira Rufino
• Kabanguelê Munanga
• Milton Santos
• Rainha Nzinga Mbandi
• Luiza Mahin
• Martin Luther King
• Malcom X
• Augusto dos Anjos (+)



Além dessas pessoas, eu poderia citar também Barack Obama (mas não sei se é a melhor referencia), mas posso citar também Santo Antônio do Categeró.
Posso citar também a Prof. Dra. Nilma Lino Gomes (UFMG); A Prof. Dra. Eliane Cavallero (UnB, se não me engano) e seu esposo Danny Gloover (ator), Prof. MS. Leonor Franco Araujo (UFES), Profª Drª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (MEC/Secad), a Prof. MS. Adevanir Pinheiro (UNISINOS), entre muuitos outros intelectuais negros que estão atualmente nas nossas academias e na militância. Talvez alguns leitores não conheçam boa parte dessa lista, mas ai entra o que eu disse sobre o olhar da história... eles aparecem, dependendo de quem a conta.

Confesso que o comentário me deixou profundamente irritada, por isso fiz uma breve lista dos negros mais conhecidos, apenas para responder o que o anônimo afirmou não existir.

E para que não conhece a autora deste blog, cá estou eu. Muito em breve, podem me adicionar a esta lista também. Eu sou Letícia Pereira Maria, tenho 23 anos, sou historiadora, mulher, negra e moradora da vila, tomada por um imenso desejo de mudança.

Por MARIA,L.P.