quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Vida Sem Empregada

Revistas femininas parecem ser, atualmente, uma fonte inesgotável de estereótipos e matérias nonsense. A Revista Claudia publicou A Vida Sem Empregada. Um texto que afirma:

As domésticas serão artigo raro no mercado de trabalho, anunciam os indicadores sociais mais recentes, e o futuro aponta para uma nova equação familiar, em que todos colaboram nas tarefas da casa. A boa notícia: vêm aí pais e filhos mais unidos e um mundo possivelmente mais justo. Mas não vai ser fácil.

Quem tem grana no Brasil costuma ter empregada ou diarista. Eu contrato uma diarista que vem a minha casa uma vez por semana. Porém, nunca achei que deveria ter uma empregada e nem que seria um horror que ela se tornasse um raro artigo no mercado. A divisão de tarefas domésticas parece ser uma utopia nas famílias brasileiras que contam com empregadas domésticas. Sei que só posso contratá-la porque vivemos numa sociedade injusta, que desde a escravidão delega o trabalho doméstico as mulheres negras.


Segundo dados da Fundação Seade e do Dieese, em 2008 as mulheres ocupavam 45,1% do total de postos de trabalho. Entretanto, representavam 95,4% do total de pessoas que prestam serviços domésticos. As mulheres negras de baixa escolaridade são maioria no emprego doméstico. Porém, no Brasil, o emprego doméstico está tão enraizado que não pode ser eliminado repentinamente, por isso é imporante valorizá-lo e garantir seus direitos de acordo com as indicações da Organização Internacional do Trabalho. Atualmente, as trabalhadoras domésticas não contam com benefícios como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), seguro-desemprego, abono salarial e hora extra, entre outros. Fora a hipocrisia de ser tratada como alguém da família e depois não pagarem seus direitos.

Portanto, com a ampliação do direitos deverá ficar cada vez mais caro ter uma empregada doméstica. É claro que algumas pessoas, que não aceitam perder seus privilégios, estão importando trabalhadoras domésticas de países pobres da América do Sul, e mantendo-as ilegalmente no país. O trabalho doméstico é tido como algo que deve ser delegado a alguém com menor escolaridade, porque temos um passado escravocrata muito forte. Então, quando a reportagem de Claudia indaga: A ajuda doméstica está mudando de configuração. Cada dia mais, ela deixa de ser paga e passa a ser negociada: saem as profissionais, entram marido e filhos. Será que dá? Ao ler isso pergunto: E quem não tem empregada faz como?

A matéria segue enumerando razões para se ter uma empregada doméstica:

Como eu, muitas mulheres enfrentavam os mesmos problemas trabalhando ou não fora. O tempo não minimizou as questões. Ao contrário, a evolução feminina multiplicou atividades e funções, incluindo ocupações antes exercidas pelos homens (pagar contas, deixar o carro no mecânico). Sem esquecer, claro, da altíssima demanda social para a manutenção da beleza e da aparência.

Veja bem, as novas ocupações femininas não incluem manusear a furadeira para colocar uma quadro na parede, mas sim pagar contas e deixar o carro no mecânico. Além do que, não devemos esquecer nunca da manutenção da beleza e da aparência. É para isso que evoluímos e é por isso que precisamos ter uma empregada doméstica?

A nossa injusta sociedade cria a idéia de que o homem ajuda no trabalho doméstico, mas é essencial estabelecer uma relação não de favor, mas de divisão de taredas, porque todos moram na mesma casa e todos sujam e bagunçam. Ensinar tarefas domésticas e mostrar no dia-a-dia suas responsabilidades para filhos e filhas é fundamental para a desmistificação da idéia de que precisamos de uma empregada doméstica e que sem ela não iremos sobreviver. O que acontece realmente é que teremos que cancelar uma ida ao cinema, uma saída com amigos, uma festinha no fim de semana ou mesmo mais tempo de sono para limparmos e organizarmos nossas casas. E isso significa reconhecer que temos privilégios, que enquanto tenho lazer há alguem arrumando minha casa. Essa pessoa é uma trabalhadora como eu, merece salário digno e direitos trabalhistas. E também merece mudar de vida, estudar e ter a possibilidade de escolher outra profissão.

Mais para o fim, a reportagem até fala de abdicação e responsabilidade familiar, mas explicita o pensamento de uma classe social mimada que parece não entender que é possível viver sem alguém abaixando-se para catar as roupas do chão:

É uma equação delicada. Nossas filhas, acostumadas à presença do auxílio doméstico, em geral não dão importância a essas tarefas. Foram criadas sem se preocupar com elas e sem treinamento para exercê-las. Portanto, não têm recursos para se transformar da noite para o dia em responsáveis pelo lar. Nem desejam. Por outro lado, a nova geração de meninos parece ser mais cúmplice, porque aprendeu assim. Mas será que eles estão preparados para uma ajuda regular e não eventual?

Por que parece tão difícil educar filhas e filhos para o trabalho doméstico? Por que perguntar se eles estão preparados para limpar e organizar a casa? Crescemos numa bolha em que nunca somos responsáveis por nossa própria sujeira? É de assustar uma reportagem tão maluca a ponto de perguntar se alguém está preparado para ajudar regularmente nas tarefas domésticas. Quanto ao tempo gasto com as tarefas domésticas, ninguém parece levantar na matéria a idéia de reduzir a carga horária dos trabalhadores, de lutar por melhor qualidade de vida e mais tempo com a família. No Brasil, contratar uma empregada doméstica significa abrir uma vaga de trabalho para uma mulher, mas é importante que essa mulher tenha outras oportunidades, direitos garantidos e principalmente, que ela tenha um contrato de trabalho claro, que seja contratada para um serviço específico e não para mimar crianças ou estabelecer tarefas afetivas.



[+] Carta Aberta ao Grupo Antiterrorismo de Babás. Texto da historiadora, professora e ex-empregada doméstica Luana Diana dos Santos.


Texto de Srta. Bia, disponível em http://srtabia.com/2011/06/a-vida-sem-empregada/

4 comentários:

  1. Concodo plenamente, e sei que com tarefas bem dividas todos na casa acabam ganhando tempo e uma casa bem mais organizada. Sei também que todos querem melhorar de vida, mas quantos realmente correm atras de uma vida melhor?

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  2. O texto não trata necessariamente sobre a divisão das tarefas, mas sobre a exploração que a contratação de uma empregada doméstica significa.
    Minha mã trabalhou por anos como empregada, e por isso sei bem como é.
    Ouvi muitas pessoas repetirem esse discurso de que quem quer melhorar de vida realmente consegue, mas as coisas não são tão lineares como parecem, é preciso dar condiçlões para isso. Minha mãe sempre disse que nos locais onde ela trabalhou jamis teve um eletrodoméstico que na nossa casa não tivesse. Sempre tivemos uma vida confortável porque todos nós sempre trabalhamos. Quando eu fui estudar em uma escola privada (onde minha mãe e eu pagávamos) a patroa dela sempre dizia pra mim que era tudo uma frescura escola paga. Mas o filho dela nunca entrou numa escola pública. Ai ta a diferença.
    Muitos correm atrás de uma vida melhor, mas poucos tem oportunidade para acessá-la.

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  3. Quando li o texto pela primeira vez, não o fiz com a devida atenção e após ler o seu comentário, reler o post e pensar um pouco, me recordei de momentos pelos quais passei. Tive a oportunidade de estudar tanto em escola particular como pública, o que muito me fez e faz pensar. Realmente, haviam colegas que tinham que tentar em dobro, não só pela dificuldade financeira, mas também pelo preconceito que recebiam. Por mais que eu puxe na memória, situações em que os professores estabeleciam igualdade, a desigualdade estava lá, disfarçada, escondida, mas estava.

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  4. Essa é a questão. Esforço, conta, sem dúvidas. Oportunidades fazem toda a diferença...

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