segunda-feira, 30 de maio de 2011

Verão como somos lindas

Texto muito bacana, da Lola http://escrevalolaescreva.blogspot.com/, sobre racismo, machismo e padrões comerciais de beleza!

“VERÃO COMO SOMOS LINDAS”
Gabourey Sidibe, estrela de Preciosa, é branqueada em capa de revista

Quando a Natalia no Twitter me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha visto o artigo de uma revista explicando “objetivamente” por que negras são menos atraentes que mulheres brancas, eu respondi no ato que isso daí tinha a maior pinta de ser mais uma das teorias malucas da psicologia evolucionista. E não é que eu tava certa? O post, intitulado “Por que Mulheres Negras São Fisicamente Menos Atraentes que outras mulheres?”, foi publicado no dia 15 de maio no site da conceituada (pelo menos entre os títulos pop) Psychology Today que, aparentemente, não viu nada de racista em fazer uma pergunta dessas. A revista deve até ter se surpreendido com o volume de emails e tweets que chegaram, e logo tirou o artigo do ar. Mas, claro, alguém já o havia copiado, então você pode ler esse pedaço de cocô (pra ser delicada) aqui, em inglês. Não se preocupe não que vou resumir já já. O que não me surpreendeu é que o autor do post racista é um velho conhecido meu, Satoshi Kanazawa. Já falei das incríveis descobertas do Satoshi: ele crê que os homens realmente preferem as loiras, e isso desde o tempo das cavernas, quando a gente nem sabia que loiras existiam (ou, se é pra usar nossa evidência empírica, como fazem os psicólogos evolucionistas, você já viu algum desenho de uma mulher das cavernas loira?). Isso porque, segundo Satoshi, todo mundo nasce loiro, só que, com o passar dos anos, nosso cabelo vai escurecendo. Portanto, o cabelo loiro seria a prova irrefutável que a mulher é jovem (nenhuma palavra sobre o homem loiro). E todo homem quer uma mulher o quanto mais jovem possível, porque ela teria uma vida reprodutiva mais longa, e isso, ao contrário do que juram os mascus, é tudo que um homem quer: espalhar sua sementinha. Os psicólogos evolucionistas, também chamados, não com muito respeito, de evo psychs (vou traduzir pra psiquevas) e de fundamentalistas científicos, explicam tudo com base na reprodução de nossos genes. Não existe cultura pra eles, só biologia (e desconfio que eles existam antes de Darwin, a julgar por essas pérolas de 1500 e bolinha sobre mulheres). Tudo que fazemos é em busca do nosso instinto para uma melhor reprodução (eugenia feelings pra você também). Por isso, homens procuram jovens lindas e loiras, enquanto mulheres selecionam o macho mais poderoso (nisso os mascus concordam). E danem-se os homossexuais, né? Ou quem é infértil. Ou as pessoas que preferem adotar a ter bebês. Ou essa aberração da natureza que eu represento, a mulher que não quer ter filhos. Nós não existimos. Vamos nos recolher a nossa insignificância, ô legião de desqualificados!
Significante mesmo é o Satoshi, um psiqueva que dá aulas numa universidade britânica. Não é um carinha que acordou um dia e decidiu explicar por que, pra ele, que é hetero, as mulheres são atraentes e os homens não. Nada disso. Ele é um cientista. Tem pelo menos um livro publicado, com o científico nome de Por que as Pessoas Bonitas Têm Mais Filhas (note: filhas). Os leitores que chegam aqui pedindo que eu respeite essa ciência machista, racista e homofóbica (e não à toa, a mais divulgada pelos meios de comunicação nas últimas três décadas, desde o início da reação conservadora nos anos 80), e pregando que existem psiquevas sérios, me lembram os mascus que pedem que eu leia blogs mascus respeitáveis. Só que eles são todos iguais. Pode haver diferença no tom, na linguagem, mas não no que eles querem passar: que o homem é superior à mulher e que isso é absolutamente natural (mais um ponto de convergência entre esses dois grupos machistas). E que as feministas estão prestando um desserviço à humanidade ao lutarem contra o “é assim que as coisas são”.
Como pega mal (até pra um psiqueva!) afirmar categoricamente que ele está certo em não achar mulheres negras bonitas, Satoshi menciona todo um estudo pra mostrar que o seu gosto é justificado. Ele enche o post de gráficos e também joga no meio da receita uma dose de gordofobia (já que mulheres negras em geral tem um Índice de Massa Corpórea um pouco maior que o de brancas). E finalmente ele arrisca uma explicação: negras teriam mais testosterona que outras raças. É apenas um jeito infeliz de dizer que negras seriam mais másculas, e que Satoshi gosta de suas mulheres bem femininas.
Não há dúvida que mulheres negras (e homens negros também, mas como ser bela é uma imposição pras mulheres, e apenas um bônus pros homens, o peso é diferente) são desvalorizadas na nossa sociedade ― em todos os campos, inclusive no estético. Aqui onde moro, no Ceará, as estatísticas dizem que 64% da população é negra ou parda. No entanto, quando eu ligo a TV, abro uma revista, ou vejo um outdoor, tenho a impressão de estar na Suécia. De modo geral, tem muito mais loiro de olho claro na mídia que negro. Isso se repete em todo o Brasil, e é um dos sinais que sim, somos um país muito racista. Pele escura não tá dentro do padrão de beleza. As raríssimas modelos e atrizes negras que porventura aparecem na mídia têm traços brancos ― são mais claras, têm nariz fino, cabelo liso. Duvido muito que quando alguém considera feia uma negra ele tá pensando, “Hmm, testosterona demais, eca!”. O que a gente considera bonito e feio é ensinado, muda de lugar pra lugar, e de época pra época. Não tem nada de universal nisso (e o que os psiquevas tentam provar é que há inúmeras coisas universais). Ninguém nasce achando que olho azul é mais bonito que olho castanho. Aliás, se houvesse qualquer fundamentação biológica nessa preferência, a gente defintivamente não acharia olho claro bonito, já que geneticamente ele tem mais chance de ser míope (ou seja, seria uma desvantagem evolutiva). Pele escura seria uma vantagem evolutiva, pois o risco de câncer de pele é muito menor! Mesmo no campo estético, pele escura deveria ser tido como qualidade, não defeito, pois costumamos associar beleza à juventude, e quem tem pele escura está menos exposto aos danos do sol e têm menos rugas. Eu tô chutando tudo isso, não sou bióloga, mas pelamor, é muito óbvio que achar traços negros pouco atraentes é uma construção social. E só porque esse padrão racista existe faz séculos não o torna mais natural e menos cultural.
Só um exemplo que está na minha cabeça: este anúncio de creme da Dove. Perceba como a mulher negra está no campo do “antes” (de usar o tal creme), enquanto as brancas estão no “depois” (e claro que a negra é mais cheinha que as brancas, lembrando a gente do típico antes e depois da propaganda das dietas). Não venha me dizer que foi sem querer, que o anúncio passou por centenas de publicitários e clientes e ninguém percebeu. Racismo é lucrativo, e a indústria cosmética é uma das que mais ganham dinheiro com isso. Todas as marcas de cosméticos vendem cremes para clarear a pele. Você conhece muitos cremes pra escurecer a pele (bronzear é outra coisa)? Cremes branqueadores rendem bilhões em países com mulheres marrons e amarelas, como Japão e Índia. Todas essas marcas ganham os tubos vendendo alisadores de cabelo. Em outras palavras: fazer que mulheres não-brancas sejam mais brancas dá muito dinheiro. Só que, pra fazer com que mulheres não-brancas queiram ser brancas, é preciso espalhar a mensagem que white is beautiful. E só white.
Por coincidência, no mesmo dia em que Satoshi fez (mais) esta pataquada, meus alunos de Poesia leram e interpretaram um lindíssimo poema de Langston Hughes, escritor americano nos anos 1920 que foi peça fundamental na Renascença Negra. Chama-se “I, Too” (Eu também). As últimas linhas são: “Eles verão quão lindo eu sou / e ficarão com vergonha. / Eu também sou América” (leia e ouça o poema aqui, é curtinho. Na maior parte das versões o "verão como sou lindo" está escrito no singular).
Algum dia, espero, o pessoal que faz parte da classe dominante entenderá que ter um só padrão de beleza é limitador, sinônimo de ignorância. Este padrão é construído e, como tal, pode ser desconstruído. Depende de nós. Logo logo vocês se sentirão envergonhados, senhores.
Por http://escrevalolaescreva.blogspot.com/

3 comentários:

  1. Haverá um dia
    Que com muita alegria,
    Saberão apreciar a rara beleza
    Que não é vista na raça,
    Mas no jeito e na graça
    Dados pela natureza.

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  2. Não tenho preconceito quanto a negros, homossexuais ou seja lá o que for. Meu melhor amigo é gay e negro, antes que você questione. Mas essa sua mania de perseguição é algo pedante. E se ao invés de se esconder atrás de bebida, maconha e preconceito, a senhorita fosse atrás de crescer na vida? Aprender uma outra língua é um bom começo. 'Ah, mas eu sou brasileira, não tenho que aprender outra língua' ou 'Não venha falar assim de alguém que não conhece'. Te conheço sim, e acho cada vez mais ridícula sua posição. Militantes de internet... Cresça e apareça, saia da comodidade e viva sua vida direito, sem arrumar desculpas esfarrapadas para os seus fracassos. Não sou melhor do que ninguém. Mas não fico chorando pelos cantos.

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  3. Olá Lenita.
    Honestamente, não entendi teu comentário, e achei ele razoavelmente desnecessário.
    Em primeiro lugar, não saio acusando ninguém, mas problematizo um monte de coisas.
    Em segundo lugar, não acredito que seja paranóia minha, só respondo.
    Em terceiro lugar, me escondendo atrás de bebida e maconha? Honestamente, vc não me conhece.
    Crescer na vida, outra lingua? Que papo é esse?? De fato, vc não me conhece e não sabe o quanto e o quê eu venho estudando.
    Militante de internet? Bom, isso eu vou considerar um elogio. Acho que um 'blog' têm essa função, pois se não fosse de 'internet' não seria um blog, não é mesmo? E se vc não conhece minha militância, de fato, não me conhece.
    Não acho que ninguém seja melhor que ninguém. Como disse, isso é um blog, uma página virtual que reune textos diversos, sobre os temas que me interessam, afinal, sou a autora do blog. Se não gostou, não te preocupa, não vou te chamar de racista ou sei lá o quê, se é isso que espera. Mas se não gostou do blog, dos textos ou da minha opinião, o problema é teu e, até onde eu sei, não obrigo ninguém a ler.

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