quarta-feira, 25 de maio de 2011

Promiscuidades

Por causa do texto anterior, lembrei de um livro da Naomi Wolf chamado: “Promiscuidades, A Luta Secreta Para Ser Mulher”. Este livro fala sobre os caminhos da descoberta erótica e emocional da sexualidade feminina, usando histórias de vida da própria Naomi e relatos de outras mulheres. É uma leitura simples que explora não apenas os relatos, mas também fatos da história da sexualidade feminina e de como ela foi e é coibida por diferentes culturas. Pelo que conversamos nos comentários do post anterior, a promiscuidade da juventude parece ser um dos grandes medos das pessoas, em decorrência da perda de controle dos pais sobre os corpos dos filhos, especialmente das meninas. A sexualidade feminina é extremamente reprimida e, mesmo com a revolução sexual, a experiência sexual feminina é cercada de muitos tabus, além de ser frequentemente usada para denegrir a mulher.

Deixo alguns trechos:

Capa do Livro Promiscuidades de Naomi Wolf. Editora Rocco.

Segredos
Como é que transformamos meninas em mulheres?
Esse debate, que recentemente assumiu um novo tom de urgência, costuma me parecer cheio de eufemismos, com a omissão de partes cruciais da história. Como é do conhecimento de todas nós, que entramos na idade adulta durante e depois da revolução sexual, na nossa cultura as meninas são transformadas em mulheres através do que lhes acontece e do que decidem fazer, em termos sexuais. Vem sendo difícil discutir esse aspecto da meninice porque os anos da adolescência feminina que tanto determinam a segurança das moças estão agora repletos de cenas, acontecimentos e lembranças que são extremamente explícitos. O que as meninas normais da atualidade podem resolver fazer, bem como o que é feito a elas, é muito diferente, é um drama sexual muito mais intenso do que jamais foi.
Quis resgatar essa luta secreta pela feminilidade que agora caracteriza o amadurecimento feminino. Naturalmente, chamo-a de “secreta” não por ser a sexualidade das adolescentes invisível. Nada se afastaria mais da verdade. Desde os anúncios de Calvin Klein com Brooke Shields na minha adolescência até os programas de entrevistas de hoje em dia, além dos debates enfurecidos sobre a maternidade na adolescência, entre homens de meia-idade nos programas políticos da manhã de domingo, a sexualidade das meninas está exposta por toda parte. Ela é usada para dissecção, proibição e, na maioria das vezes, masturbação mental. No entanto, a questão do que deduzir da experiência sexual das meninas costuma ser tirada das mãos das próprias meninas.
Trechos da pág. 13
O título deste livro trata exatamente dessa tensão entre o dito e o não dito. “Promíscuo” ou “promíscua”, termo geralmente aplicado apenas a homossexuais masculinos e mulheres, é um daqueles epítetos grosseiros com os quais a cultura condena uma mulher que tenha qualquer tipo de passado sexual. É uma palavra que contém as mensagens conflitantes que as meninas recebem hoje acerca do sexo: “Você é promíscua se fizer qualquer coisa, mas é puritana se não fizer anda”, como me disse uma mulher jovem. “De qualquer forma, você está sendo traída”, disse ela, usando uma linguagem mais forte e um tom mais veemente do que o que eu estava preparada para ouvir. O medo de ser rotulada de promíscua acompanha as meninas de hoje em cada estágio da sua exploração erótica. Se essa história de amadurecimento tem um leitmotiv, ele é a descoberta recorrente do que a idéia ( muito nítida) da “piranha” significa na vida da menina ou moça contemporânea, como essa idéia regula seu comportamento e se torna uma categoria que atribui um significado que ela não escolheu a acontecimentos da vida que ela de fato escolheu. Quero explorar a idéia da “piranha imaginária” que anda ao nosso lado à medida que vamos crescendo, às vezes nos prejudicando, às vezes nos proporcionando um novo sentido de identidade autêntica, às vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Ao examinar como a “piranha imaginária” ainda qualifica o desenvolvimento sexual de meninas e mulheres, este livro faz uma pergunta: como poderia ser a subjetividade sexual das mulheres num mundo em que o desejo sexual não fosse toldado e conspurcado por epítetos dessa natureza?
Trecho da pág. 15
As mulheres — estejam elas escrevendo, lutando pela guarda dos filhos, entrando com uma ação por assédio sexual, ou apenas tentando fazer seu trabalho — temem justificadamente ser definidas, muito mais do que os homens, por sua experiência sexual; e definidas em termos negativos.
Esse tabu contra a apropriação por parte das mulheres do seu passado sexual não é apenas uma questão de preferência literária. Na vida real, ele também funciona. Apesar da retórica de liberdade que nos cerca, a reivindicação da primeira pessoa sexual por parte das mulheres é impregnada do risco de um desastre pessoal. O diário da experiência sexual feminina enfrentou com tanta frequência um destino cruel que não surpreende que as mulheres encarem com cautela qualquer registro público desse passado. Os poemas de Safo foram incinerados repetidamente, tanto no sentido literal quanto na censura dirigida por críticos homens aos seus relatos frágeis e fragmentados do desejo feminino. Os comentários de Anne Frank sobre seus sentimentos incipientes de natureza sexual foram — necessária, considerando-se a época, mas infelizmente — expurgados das primeiras versões publicadas de seu diário. O diário de Jennifer Levin, uma adolescente vítima de assassinato, que pode ter incluído descrições das suas experiências sexuais, foi chamado de “diário sexual de Jennifer” na imprensa sensacionalista; e o advogado do assassino tentou exigir a apresentação do diário em juízo para usá-lo contra a morta. JENNY MORTA DURANTE SEXO VIOLENTO berravam as chamadas sensacionalistas.

Quando o passado de alguém “vem bater à sua porta”, o resto de nós espera para ver. E, depois que o furor se abranda, às vezes damos um suspiro de alívio, cheio de culpa: a bala dessa vez tinha como alvo o nome de alguma outra pessoa. A mulher em questão passou a ser o bode expiatório, a ser isolada das “meninas boazinhas”, como aconteceu com Patricia Bowman, que denunciou um estupro e foi descrita num artigo do New York Times como uma pessoa com uma “leve tendência a devassidão”. As mulheres ainda podem ter sua vida “arruinada” por terem um passado sexual de que se possa falar, da mesma foram que acontecia, com métodos diferentes de punição, nos séculos XVIII e XIX. Quando narrativas ligadas à sexualidade são vinculadas às vidas de mulheres adultas, por mais que o vínculo seja tangencial, as implicações solapam sua autoridade, como ocorreu quando a juíza Kimba Wood perdeu seu direito ao posto de procuradora geral em parte em consequência de publicidade negativa decorrente do fato de ter trabalhado cinco dias como garçonete numa boate da Playboy, vinte e sete anos antes. As mulheres aprendem — ainda — que qualquer “passado” sexual pode ser interpretado como promiscuidade, e que a mácula da promiscuidade pode levar à condenação social ou profissional.

O castigo dirigido à mulher que foi definida em termos sexuais dessa forma inibe todas nós e pode nos impedir de tomar atitudes que vão desde acusar um superior de assédio sexual e concorrer para o conselho escolar até lutar pela guarda de nossos filhos. E, nas águas da revolução sexual, com a linha limítrofe entre as “boazinhas” e as “ordinárias” sempre mudando de lugar, deixando-nos sem firmeza, como é mesmo seu objetivo, não será seguro para nenhuma de nós sentir-se à vontade consigo mesma enquanto não declararmos que não podemos mais ser separadas umas das outras. Nós todas somos ordinárias.
Trechos das págs. 20 – 21

[+] A Lola também comentou sobre a personagem Leila: Como seria se a menina da novela fosse menino?

[+] A Sara fez um post sobre Mulheres que Amam Mulheres e o Machismo. Porque até agora só falamos da promiscuidade de mulheres heterossexuais, nem entramos na opressão da heteronormatividade.

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