quarta-feira, 4 de maio de 2011

A gente faz que não é com a gente, mas é.

A gente faz que não é com a gente que o menino na rua está falando. Isso porque pressentimos que ele vai fazer algo para mexer com nossa sensibilidade. E por isso é melhor dizer logo não. E ao dizer não perdemos alguns gramas mais de sensibilidade, alguns quilos de humanidade. E por perder as duas coisas nos tornamos mais dessemelhante de quem por direito natural é nosso semelhante. E ao perder a semelhança com o humanos criamos laços afetivos com os desumanos – as máquinas e os equipamentos.

A gente faz que não é pra gente que a moça da limpeza está olhando. E por fingirmos que não estamos sendo vistos por ela desenvolvemos certa miopia. Passamos a não ver qualquer “coisa” que nos incomode. E com esse olhar seletivo estamos sempre em busca de pessoas com cara e rosto de espelho. E por isso a moça da limpeza nos sorri, mas como não nos serve como espelho, não temos nada a retribuir a não ser essa monolítica pose de imenso moai da Ilha de Páscoa.

A gente faz que não é com a gente. Mas é nosso nome que o guarda de trânsito anota em seu bloco de multa. E por assim procedermos ficamos convencidos de que as leis de trânsito foram feitas para apenas para servir às nossas conveniências. E servindo nossas conveniências entendemos que foram feitas para infernizar a vida dos outros. E infernizando a vida dos outros transformamos o planeta num lugar hostil para viver.

A gente faz que não é com a gente que a mulher desgrenhada tenta dizer alguma coisa ao tempo mesmo em que sacode uma criança de peito. E porque não subtraímos alguns segundos de nosso dia para reparar nesse par de olhos deixamos de nos sentir responsáveis por esse ex-aluno que tantos anos depois irá irromper em uma sala de aula de escola municipal da zona oeste do Rio [melhor, em Canudos - grifo meu].

A gente faz que não é com a gente que os pacifistas e os ecologistas estão bravos, quando teimam em advertir que os recursos naturais do planeta além de escassos são limitados. E por isso continuamos nossa vida de consumo sempre batendo novos recordes. E a cada novo recorde batido o coração do planeta nos responde com uma rateada. E a cada rateada deixamos de sentir que temos cuidado muito do corpo e que continuamos deixando ao relento e ao desamparo essa coisa que atende pelo nome de Alma.

A gente faz que não é com a gente que os tsunamis se levantam na praia. E por isso que ficamos perplexos apenas quando vemos as imagens da devastação. E com a devastação pensamos em como era lindo nosso planeta, esse mesmo lugar que um dia Gagárin disse que além de lindo era todo azul. E como os tsunamis nada têm a ver com a gente as cidades são cada vez mais varridas do mapa e seus habitantes sempre em grandes números completamente submersos. E por isso esperamos, com paciência de Jô, a estatística anual do número de casas que vieram abaixo com a queda dos morros, a quantidade de lares soterrados e os frios números de vidas tragicamente interrompidas.

A gente faz que não é com a gente que aquele sujeito despeja rudes insultos, indizíveis desaforos e pesados preconceitos com o outro que insiste em praticar o mesmíssimo crime de sempre – o de não partilhar da mesma cor da pele, da mesma fé religiosa, do mesmo alisado do cabelo e do mesmo desenho dos lábios que tanto falam quanto beijam. E por isso deixamos a dignidade humana trancafiada no livro das boas intenções, privada de saudáveis passeios pela rica e diversa paisagem humana. E sem a visão do belo que é o humano deixamos enferrujar a capacidade de amar.

A gente faz que não é com a gente que alguém reclama por estar jogando na rua garrafinha de água mineral, guardanapo usado, folheto publicitário. E por isso transformamos em lixão a parte do mundo que nosso carro conhece e nossos passos reconhecem. E nessa ignorância toda contaminamos a terra, a água e o ar. E com tudo contaminado ficamos doentes e deixamos o planeta com aquela leve sensação de que já vamos tarde.

A gente faz que não é com a gente aquele corpo estendido no chão. E por isso passamos por ele mais apressados que nunca, atropelando uns aos outros, desesperados por nos afastar o mais rápido possível daquele imagem agora estática, mas que há bem pouco ainda se movia, respirava, sorria, chorava, pensava, sonhava, amava.

A gente faz que não é com a gente que aquele programa de televisão fala, complica, replica, implica. E por isso que ao lhe dar o privilégio de nossa audiência engrossamos o elevado índice de seu baixo nível da programação. E ao fazermos isso mantemos longe do horário nobre qualquer atração que nos garanta um mínimo de cidadania, ética, direitos humanos, virtudes humanas, valores humanos. E assim lamentamos com nossos filhos e nossos amigos que a programação da tevê em canal aberto está mais baixa que uma Gilette deitada, mais rasa pires exposto a temporal, desses que até uma formiga de baixa estatura e de joelhos conseguiria atravessar sem maiores preocupações.

A gente faz que não é com a gente que a pessoa portadora de deficiência pede ajuda. E por isso fechamos a cara, crispamos o semblante e seguimos em frente. E nessa marcha batida deixamos de perceber que acabamos de nos despedir de um dos sentimentos mais urgentes e mais belos que um humano poderia ter, o sentimento da solidariedade. E com este se despede também aquela compreensão que dispensa palavras, naquela base do “vou ajudar por haver apenas compreendido.”

A gente faz que não é com a gente, mas é.


Texto de Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México.
http://www.cidadaodomundo.org/




Já passou da hora de fingir que não é com a gente.
É com a gente. Somos responsáveis diretos por tudo...
Vale a reflexão. Mas sobretudo, necessitamos urgentemente de uma mudança de atitude!
Por MARIA,L.P.

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