segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eu e o feminismo

Li esse texto pela manhã no Blogueiras Feministas, que acompanho e traz discussões preciosas!

Hoje, meu objetivo era fazer uma postagem sobre a decisão do STF em relação aos direitos homossexuais e a  postura da igreja católica, mas isso vai ficar para amanhã;

Faço essa postagem em especial, para o meu querido Karl. Recentemente ele, eu e a Rosherie (sua irmã) discutíamos sobre o feminismo, ao qual ele se posicionou "contra", sendo ferozmente atacado por mim e pela Rô. O motivo que faz com que o Karl seja "contra" o feminismo, é partilhado por muitas pessoas - infelizmente. O argumento, era de que existem outras lutas importantes, e que não existe mais essa necessidade no século XXI. Acontece, que não é bem assim... em pleno século XXI, os preconceitos estão tão inseridos na nossa sociedade, tão banalizados que algumas vezes nem os percecemos. O sexismo é presente - e forte - em todas as nossas relações, e não nos damos conta.
Percebi a 'necessidade' do feminismo, apartir das minhas relações. Quando não nos damos conta de que sim, o machismo mata, que o racismo mata, que a homofobia mata, e não nos atentamos de que quem semeia o preconceito somos nós mesmos, no nosso cotidiano, milhares de pessoas morrem e ficam à margem da sociedade e achamos isso normal.

O texto que vem em seguida, creio eu, que ilustra muito bem essa ausência de um olhar feminista, quando não nos damos conta da importância dessa luta, em ração ao contexto sócio-familiar onde vivemos. Em alguns (vários) aspectos, pude me colocar no lugar da autora. Um bom texto, que merece uma séria reflexão, por mim, pelo Karl e por todos!

"Vou falar o que eu achava sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo por ter nascido mulher? Nossa, mas que mérito! O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai-drasto e minha mãe. Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de lésbicas frustradas com um desejo secreto que Freud explica.


É engraçado como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima do homem, vítima do posicionamento da sociedade e sua atitude com relação ao papel da mulher.
No Dia Internacional da Mulher há dois anos atrás, eu não estava mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu chorei. Chorei em quase todas as homenagens bobas que vi na TV. Chorei quando senti que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Chorei quando vi que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Chorei quando lembrei de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM.


E daí, semanas depois, resolvi analisar um certo acontecimento de um passado distante não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma Desperate Housewife, e que ele também é produto de tudo isso que nos cerca.


É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem, que mulheres estão em pé de igualdade com os homens, quando na verdade há uma míriade de coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça…
Eu estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, e tenho certeza que ainda vou escrever um bilhão de besteiras enquanto descubro esse novo caminho…
E o pensamento interno mais recorrente em N momentos do meu dia é: “você não falaria assim comigo se eu fosse um homem, falaria?”

Na época em que me descobri feminista, fui comentar com meu irmão sobre minhas novas descobertas, tentando convencê-lo da relevância disso mesmo nos dias atuais. Comentei até que existem homens engajados nessa “luta”, e recebi um: só acho que hoje em dia as diferenças de gênero estão em segudo plano frente a outros problemas mais presentes.


É quase como dizer que é besteira lutar por animais abandonados, pois animais em extinção são um problema mais relevante. Quase como não comer, pois tomar água é uma necessidade mais presente. Como se houvesse uma hierarquia de lutas, onde 100% da população devesse se encaixar na luta mais presente e deixar as outras milhões de batalhas de lado enquanto não se resolve aquela primeira.


O que eu disse é que existem problemas mais importantes. Poucas pessoas morrem de sexismo. Muitas morrem de pobreza.
OK.
Imaginei que ele, por estar inserido no mesmo ambiente no qual cresci, simplesmente não estivesse conseguindo visualizar que ainda existe sim um ambiente opressor para a mulher, e que de fato esse ambiente pode sim matar pessoas. Talvez não tanto fisicamente quanto psicologicamente. Tentei explicitar, usando inclusive exemplos. Tentativa frustrada. Ele respondeu:

“Bem, sentir na pele é impossível, pois por mais que eu leia o texto só fica na ficção, eu acho que entendo as suas motivações pra entrar no feminismo. Desculpa se eu pareci seco antes, mas é que no meu curso eu sou rodeado de todos os tipos de problemas, de todos os tamanhos e alcances, e as relações de gênero são apenas um deles. Só pra deixar claro: você considera naturais as diferenças sociais entre homens e mulheres? E as diferenças que você não concorda, o que você faz para mudá-las? Pois como diziam a Simone e o Sartre, a omissão vale por um sim, ou o bom e velho “quem cala consente”.”

Eu não entendi, será que ele estava realmente querendo dizer que por ter se calado, milhares de mulheres diatiamente consentem o seu estupro? Claro que muitos vão dizer que não, não é isso que ele está dizendo… Está apenas falando que eu sempre calei frente ao sexismo, então sempre aceitei que as coisas fossem como são e então isso desligitimiza a minha luta feminista. Mas ele está partindo de um pensamento muito perigoso, afinal, o “quem cala consente” é universal? E o calar de uns dá direito aos outros de fazer o que quiserem?
Não, eu definitivamente não entendi o que ele quis dizer.

Disponivel em http://blogueirasfeministas.com/2011/eu-e-o-feminismo/
Por MARIA,L.P.

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