quinta-feira, 12 de maio de 2011

Dessa vez, um elogio não alegrou o meu dia. Nem um pouco!

Recebi hoje um elogio, que não alegrou o meu dia, como normalmente acontece.


Conversando hoje, com a moça que está fazendo a limpeza do nosso setor, durante essa semana, ela pergunto a minha idade. Respondi e ele ficou muito surpresa, dizendo, ‘nossa, eu achava que tu tinha uns 18, no máximo 19’. Falávamos sobre a dificuldade de levantar cedo no inverno.

Sempre que dizem que tu pareces mais jovem, da à impressão de que tu estás bem. Mas não foi isso o que eu vi. A menina tem a minha idade. Loira, magra, cabelos longos, uma mulher bem bonita de fato, mas parece ser muito mais velha do que realmente é.
Foi mãe jovem, cuida da família, cuida da sua casa, e ainda trabalha o dia inteiro na limpeza de uma grande empresa.

Não que eu me ache melhor/pior que alguém, mas ouvir isso de alguém tão jovem faz com que eu reflita sim. Será que realmente pareço mais jovem, ou ela, a vida fez com que ela parecesse mais velha?

Eu levo uma vida confortavelmente tranqüila. Trabalho várias horas, mas eu um escritório sentada, com computador e com ar condicionado. Ando horas de ônibus, mas chego em casa e tem comida pronta e roupa lavada. Não tenho responsabilidade com marido e filhos (que é considerada uma responsabilidade da mulher, e isso sim, conta e muito!!).

Essa semana, conversando com o Karl, eu dissse a ele que o capitalismo era muito ruim, mas não burro. E ele, mais uma vez, não concordou comigo. Confesso que fiquei muito desapontada pela sua falta de argumento, quando eu lhe disse que não era natural a desigualdade. Não pode ser! Qual foi o pecado dessa moça para parecer ter dez anos a mais (agora não me refiro a aparência estética, mas a vida que ela teve que levar para sobreviver, e isso sim, se reflete estéticamente). Eu me pergunto, qual é o problema, porque as pessoas não podem viver igualmente, ter as mesmas oportunidades, vivenciar experiencias (boas) parecidas? Ter condições financeiras, e dizer que os outros passam trabalho porque não trabalharam o suficiente é uma puta hipocrisia! Eu sei que a menina da limpeza trabalha e rala muito muito mais que eu diariamente, e sei que o salário dela é significativamente menor que o meu. Sei porque este é também o trabalho da minha mãe, que há anos trabalha, que ganha pouco mais da metade do meu salário. E eu não posso achar isso justo 'porque as coisas são assim' e pronto!

Tenho um emprego razoável que me eleva a uma classe média emergente. Sim, é fato. Mas não posso achar justo que esta - e tantas outras mulheres - ralem tanto e sejam tão sofritas e pouco reconhecidas. O fato de eu ter uma formação acadêmica não faz de mim melhor que elas. Reconheço que tenho essa formação porque tive oportunidade, diferente de tantos outros. E isso faz deste sistema econômico tão ruim. Uns têm oportunidade, outros não... uns tem casa, carro, acesso à saúde e educação, emprego, alimentação, e outros não. Não posso achar isso simplesmente natural. A desigualdade não é natural.


Em suma, as vezes, um elogio alimenta consideravelmente nosso ego. Mas outras vezes, é preciso olhar o nosso próprio ego, para perceber até que ponto não estamos sendo escravos de nós mesmos, esquecendo todo o mundo a nossa volta.



Dessa vez, um elogio não alegrou o meu dia. Nem um pouco!


Por MARIA,L.P.

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