segunda-feira, 30 de maio de 2011

Verão como somos lindas

Texto muito bacana, da Lola http://escrevalolaescreva.blogspot.com/, sobre racismo, machismo e padrões comerciais de beleza!

“VERÃO COMO SOMOS LINDAS”
Gabourey Sidibe, estrela de Preciosa, é branqueada em capa de revista

Quando a Natalia no Twitter me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha visto o artigo de uma revista explicando “objetivamente” por que negras são menos atraentes que mulheres brancas, eu respondi no ato que isso daí tinha a maior pinta de ser mais uma das teorias malucas da psicologia evolucionista. E não é que eu tava certa? O post, intitulado “Por que Mulheres Negras São Fisicamente Menos Atraentes que outras mulheres?”, foi publicado no dia 15 de maio no site da conceituada (pelo menos entre os títulos pop) Psychology Today que, aparentemente, não viu nada de racista em fazer uma pergunta dessas. A revista deve até ter se surpreendido com o volume de emails e tweets que chegaram, e logo tirou o artigo do ar. Mas, claro, alguém já o havia copiado, então você pode ler esse pedaço de cocô (pra ser delicada) aqui, em inglês. Não se preocupe não que vou resumir já já. O que não me surpreendeu é que o autor do post racista é um velho conhecido meu, Satoshi Kanazawa. Já falei das incríveis descobertas do Satoshi: ele crê que os homens realmente preferem as loiras, e isso desde o tempo das cavernas, quando a gente nem sabia que loiras existiam (ou, se é pra usar nossa evidência empírica, como fazem os psicólogos evolucionistas, você já viu algum desenho de uma mulher das cavernas loira?). Isso porque, segundo Satoshi, todo mundo nasce loiro, só que, com o passar dos anos, nosso cabelo vai escurecendo. Portanto, o cabelo loiro seria a prova irrefutável que a mulher é jovem (nenhuma palavra sobre o homem loiro). E todo homem quer uma mulher o quanto mais jovem possível, porque ela teria uma vida reprodutiva mais longa, e isso, ao contrário do que juram os mascus, é tudo que um homem quer: espalhar sua sementinha. Os psicólogos evolucionistas, também chamados, não com muito respeito, de evo psychs (vou traduzir pra psiquevas) e de fundamentalistas científicos, explicam tudo com base na reprodução de nossos genes. Não existe cultura pra eles, só biologia (e desconfio que eles existam antes de Darwin, a julgar por essas pérolas de 1500 e bolinha sobre mulheres). Tudo que fazemos é em busca do nosso instinto para uma melhor reprodução (eugenia feelings pra você também). Por isso, homens procuram jovens lindas e loiras, enquanto mulheres selecionam o macho mais poderoso (nisso os mascus concordam). E danem-se os homossexuais, né? Ou quem é infértil. Ou as pessoas que preferem adotar a ter bebês. Ou essa aberração da natureza que eu represento, a mulher que não quer ter filhos. Nós não existimos. Vamos nos recolher a nossa insignificância, ô legião de desqualificados!
Significante mesmo é o Satoshi, um psiqueva que dá aulas numa universidade britânica. Não é um carinha que acordou um dia e decidiu explicar por que, pra ele, que é hetero, as mulheres são atraentes e os homens não. Nada disso. Ele é um cientista. Tem pelo menos um livro publicado, com o científico nome de Por que as Pessoas Bonitas Têm Mais Filhas (note: filhas). Os leitores que chegam aqui pedindo que eu respeite essa ciência machista, racista e homofóbica (e não à toa, a mais divulgada pelos meios de comunicação nas últimas três décadas, desde o início da reação conservadora nos anos 80), e pregando que existem psiquevas sérios, me lembram os mascus que pedem que eu leia blogs mascus respeitáveis. Só que eles são todos iguais. Pode haver diferença no tom, na linguagem, mas não no que eles querem passar: que o homem é superior à mulher e que isso é absolutamente natural (mais um ponto de convergência entre esses dois grupos machistas). E que as feministas estão prestando um desserviço à humanidade ao lutarem contra o “é assim que as coisas são”.
Como pega mal (até pra um psiqueva!) afirmar categoricamente que ele está certo em não achar mulheres negras bonitas, Satoshi menciona todo um estudo pra mostrar que o seu gosto é justificado. Ele enche o post de gráficos e também joga no meio da receita uma dose de gordofobia (já que mulheres negras em geral tem um Índice de Massa Corpórea um pouco maior que o de brancas). E finalmente ele arrisca uma explicação: negras teriam mais testosterona que outras raças. É apenas um jeito infeliz de dizer que negras seriam mais másculas, e que Satoshi gosta de suas mulheres bem femininas.
Não há dúvida que mulheres negras (e homens negros também, mas como ser bela é uma imposição pras mulheres, e apenas um bônus pros homens, o peso é diferente) são desvalorizadas na nossa sociedade ― em todos os campos, inclusive no estético. Aqui onde moro, no Ceará, as estatísticas dizem que 64% da população é negra ou parda. No entanto, quando eu ligo a TV, abro uma revista, ou vejo um outdoor, tenho a impressão de estar na Suécia. De modo geral, tem muito mais loiro de olho claro na mídia que negro. Isso se repete em todo o Brasil, e é um dos sinais que sim, somos um país muito racista. Pele escura não tá dentro do padrão de beleza. As raríssimas modelos e atrizes negras que porventura aparecem na mídia têm traços brancos ― são mais claras, têm nariz fino, cabelo liso. Duvido muito que quando alguém considera feia uma negra ele tá pensando, “Hmm, testosterona demais, eca!”. O que a gente considera bonito e feio é ensinado, muda de lugar pra lugar, e de época pra época. Não tem nada de universal nisso (e o que os psiquevas tentam provar é que há inúmeras coisas universais). Ninguém nasce achando que olho azul é mais bonito que olho castanho. Aliás, se houvesse qualquer fundamentação biológica nessa preferência, a gente defintivamente não acharia olho claro bonito, já que geneticamente ele tem mais chance de ser míope (ou seja, seria uma desvantagem evolutiva). Pele escura seria uma vantagem evolutiva, pois o risco de câncer de pele é muito menor! Mesmo no campo estético, pele escura deveria ser tido como qualidade, não defeito, pois costumamos associar beleza à juventude, e quem tem pele escura está menos exposto aos danos do sol e têm menos rugas. Eu tô chutando tudo isso, não sou bióloga, mas pelamor, é muito óbvio que achar traços negros pouco atraentes é uma construção social. E só porque esse padrão racista existe faz séculos não o torna mais natural e menos cultural.
Só um exemplo que está na minha cabeça: este anúncio de creme da Dove. Perceba como a mulher negra está no campo do “antes” (de usar o tal creme), enquanto as brancas estão no “depois” (e claro que a negra é mais cheinha que as brancas, lembrando a gente do típico antes e depois da propaganda das dietas). Não venha me dizer que foi sem querer, que o anúncio passou por centenas de publicitários e clientes e ninguém percebeu. Racismo é lucrativo, e a indústria cosmética é uma das que mais ganham dinheiro com isso. Todas as marcas de cosméticos vendem cremes para clarear a pele. Você conhece muitos cremes pra escurecer a pele (bronzear é outra coisa)? Cremes branqueadores rendem bilhões em países com mulheres marrons e amarelas, como Japão e Índia. Todas essas marcas ganham os tubos vendendo alisadores de cabelo. Em outras palavras: fazer que mulheres não-brancas sejam mais brancas dá muito dinheiro. Só que, pra fazer com que mulheres não-brancas queiram ser brancas, é preciso espalhar a mensagem que white is beautiful. E só white.
Por coincidência, no mesmo dia em que Satoshi fez (mais) esta pataquada, meus alunos de Poesia leram e interpretaram um lindíssimo poema de Langston Hughes, escritor americano nos anos 1920 que foi peça fundamental na Renascença Negra. Chama-se “I, Too” (Eu também). As últimas linhas são: “Eles verão quão lindo eu sou / e ficarão com vergonha. / Eu também sou América” (leia e ouça o poema aqui, é curtinho. Na maior parte das versões o "verão como sou lindo" está escrito no singular).
Algum dia, espero, o pessoal que faz parte da classe dominante entenderá que ter um só padrão de beleza é limitador, sinônimo de ignorância. Este padrão é construído e, como tal, pode ser desconstruído. Depende de nós. Logo logo vocês se sentirão envergonhados, senhores.
Por http://escrevalolaescreva.blogspot.com/

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Epitáfio 1919

A Rosa Vermelha desapareceu.

Para onde foi, é um mistério.

Porque ao lado dos pobres combateu

Os ricos a expulsaram de seu império.

(Bertold Brecht)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Promiscuidades

Por causa do texto anterior, lembrei de um livro da Naomi Wolf chamado: “Promiscuidades, A Luta Secreta Para Ser Mulher”. Este livro fala sobre os caminhos da descoberta erótica e emocional da sexualidade feminina, usando histórias de vida da própria Naomi e relatos de outras mulheres. É uma leitura simples que explora não apenas os relatos, mas também fatos da história da sexualidade feminina e de como ela foi e é coibida por diferentes culturas. Pelo que conversamos nos comentários do post anterior, a promiscuidade da juventude parece ser um dos grandes medos das pessoas, em decorrência da perda de controle dos pais sobre os corpos dos filhos, especialmente das meninas. A sexualidade feminina é extremamente reprimida e, mesmo com a revolução sexual, a experiência sexual feminina é cercada de muitos tabus, além de ser frequentemente usada para denegrir a mulher.

Deixo alguns trechos:

Capa do Livro Promiscuidades de Naomi Wolf. Editora Rocco.

Segredos
Como é que transformamos meninas em mulheres?
Esse debate, que recentemente assumiu um novo tom de urgência, costuma me parecer cheio de eufemismos, com a omissão de partes cruciais da história. Como é do conhecimento de todas nós, que entramos na idade adulta durante e depois da revolução sexual, na nossa cultura as meninas são transformadas em mulheres através do que lhes acontece e do que decidem fazer, em termos sexuais. Vem sendo difícil discutir esse aspecto da meninice porque os anos da adolescência feminina que tanto determinam a segurança das moças estão agora repletos de cenas, acontecimentos e lembranças que são extremamente explícitos. O que as meninas normais da atualidade podem resolver fazer, bem como o que é feito a elas, é muito diferente, é um drama sexual muito mais intenso do que jamais foi.
Quis resgatar essa luta secreta pela feminilidade que agora caracteriza o amadurecimento feminino. Naturalmente, chamo-a de “secreta” não por ser a sexualidade das adolescentes invisível. Nada se afastaria mais da verdade. Desde os anúncios de Calvin Klein com Brooke Shields na minha adolescência até os programas de entrevistas de hoje em dia, além dos debates enfurecidos sobre a maternidade na adolescência, entre homens de meia-idade nos programas políticos da manhã de domingo, a sexualidade das meninas está exposta por toda parte. Ela é usada para dissecção, proibição e, na maioria das vezes, masturbação mental. No entanto, a questão do que deduzir da experiência sexual das meninas costuma ser tirada das mãos das próprias meninas.
Trechos da pág. 13
O título deste livro trata exatamente dessa tensão entre o dito e o não dito. “Promíscuo” ou “promíscua”, termo geralmente aplicado apenas a homossexuais masculinos e mulheres, é um daqueles epítetos grosseiros com os quais a cultura condena uma mulher que tenha qualquer tipo de passado sexual. É uma palavra que contém as mensagens conflitantes que as meninas recebem hoje acerca do sexo: “Você é promíscua se fizer qualquer coisa, mas é puritana se não fizer anda”, como me disse uma mulher jovem. “De qualquer forma, você está sendo traída”, disse ela, usando uma linguagem mais forte e um tom mais veemente do que o que eu estava preparada para ouvir. O medo de ser rotulada de promíscua acompanha as meninas de hoje em cada estágio da sua exploração erótica. Se essa história de amadurecimento tem um leitmotiv, ele é a descoberta recorrente do que a idéia ( muito nítida) da “piranha” significa na vida da menina ou moça contemporânea, como essa idéia regula seu comportamento e se torna uma categoria que atribui um significado que ela não escolheu a acontecimentos da vida que ela de fato escolheu. Quero explorar a idéia da “piranha imaginária” que anda ao nosso lado à medida que vamos crescendo, às vezes nos prejudicando, às vezes nos proporcionando um novo sentido de identidade autêntica, às vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo. Ao examinar como a “piranha imaginária” ainda qualifica o desenvolvimento sexual de meninas e mulheres, este livro faz uma pergunta: como poderia ser a subjetividade sexual das mulheres num mundo em que o desejo sexual não fosse toldado e conspurcado por epítetos dessa natureza?
Trecho da pág. 15
As mulheres — estejam elas escrevendo, lutando pela guarda dos filhos, entrando com uma ação por assédio sexual, ou apenas tentando fazer seu trabalho — temem justificadamente ser definidas, muito mais do que os homens, por sua experiência sexual; e definidas em termos negativos.
Esse tabu contra a apropriação por parte das mulheres do seu passado sexual não é apenas uma questão de preferência literária. Na vida real, ele também funciona. Apesar da retórica de liberdade que nos cerca, a reivindicação da primeira pessoa sexual por parte das mulheres é impregnada do risco de um desastre pessoal. O diário da experiência sexual feminina enfrentou com tanta frequência um destino cruel que não surpreende que as mulheres encarem com cautela qualquer registro público desse passado. Os poemas de Safo foram incinerados repetidamente, tanto no sentido literal quanto na censura dirigida por críticos homens aos seus relatos frágeis e fragmentados do desejo feminino. Os comentários de Anne Frank sobre seus sentimentos incipientes de natureza sexual foram — necessária, considerando-se a época, mas infelizmente — expurgados das primeiras versões publicadas de seu diário. O diário de Jennifer Levin, uma adolescente vítima de assassinato, que pode ter incluído descrições das suas experiências sexuais, foi chamado de “diário sexual de Jennifer” na imprensa sensacionalista; e o advogado do assassino tentou exigir a apresentação do diário em juízo para usá-lo contra a morta. JENNY MORTA DURANTE SEXO VIOLENTO berravam as chamadas sensacionalistas.

Quando o passado de alguém “vem bater à sua porta”, o resto de nós espera para ver. E, depois que o furor se abranda, às vezes damos um suspiro de alívio, cheio de culpa: a bala dessa vez tinha como alvo o nome de alguma outra pessoa. A mulher em questão passou a ser o bode expiatório, a ser isolada das “meninas boazinhas”, como aconteceu com Patricia Bowman, que denunciou um estupro e foi descrita num artigo do New York Times como uma pessoa com uma “leve tendência a devassidão”. As mulheres ainda podem ter sua vida “arruinada” por terem um passado sexual de que se possa falar, da mesma foram que acontecia, com métodos diferentes de punição, nos séculos XVIII e XIX. Quando narrativas ligadas à sexualidade são vinculadas às vidas de mulheres adultas, por mais que o vínculo seja tangencial, as implicações solapam sua autoridade, como ocorreu quando a juíza Kimba Wood perdeu seu direito ao posto de procuradora geral em parte em consequência de publicidade negativa decorrente do fato de ter trabalhado cinco dias como garçonete numa boate da Playboy, vinte e sete anos antes. As mulheres aprendem — ainda — que qualquer “passado” sexual pode ser interpretado como promiscuidade, e que a mácula da promiscuidade pode levar à condenação social ou profissional.

O castigo dirigido à mulher que foi definida em termos sexuais dessa forma inibe todas nós e pode nos impedir de tomar atitudes que vão desde acusar um superior de assédio sexual e concorrer para o conselho escolar até lutar pela guarda de nossos filhos. E, nas águas da revolução sexual, com a linha limítrofe entre as “boazinhas” e as “ordinárias” sempre mudando de lugar, deixando-nos sem firmeza, como é mesmo seu objetivo, não será seguro para nenhuma de nós sentir-se à vontade consigo mesma enquanto não declararmos que não podemos mais ser separadas umas das outras. Nós todas somos ordinárias.
Trechos das págs. 20 – 21

[+] A Lola também comentou sobre a personagem Leila: Como seria se a menina da novela fosse menino?

[+] A Sara fez um post sobre Mulheres que Amam Mulheres e o Machismo. Porque até agora só falamos da promiscuidade de mulheres heterossexuais, nem entramos na opressão da heteronormatividade.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Será que é querer muito? Mais das minhas revoltas

Gostaria de partilhar aqui um pouco das minhas frustrações.
No sábado, dia 21, minha mãe passou por uma cirurgia, ainda em razão do acidente sofrido em dezembro passado, onde ela e meu pai cairam de moto.

Na época, fiz uma postagem Minhas revoltas, as quais espero que não sejam só minhas, contando como foi a trágica passagem pelo hospital municipal de Novo Hamburgo. Esse mesmo texto escrevi e o Jornal NH se recusou a publicar.

A mãe seguiu sua recuperação, e necessitou fazer essa cirurgia, onde colocou platina na clavícula, pinos e retirou um 'pedaço' de osso da bacia para usar como enxerto no ombro. O procedimento teve sucesso, ela reagiu bem a cirurgia e está bem, só precisa de alguns cuidados.

Até ai, tudo bem.

O detalhe, é que ela foi operada dessa vez no Hospital Regina (das irmãs la do Colégio Santa). Quem conhece o hospital sabe que ele é de ponta, refêrencia na região.
A mãe baixou por volta das 7h da manhã no sábado, às 8h30m entrou pra sala de cirurgia. Por volta das 10h30m o médico sentou com a gente, explicou o procedimento em detalhes, receitou medicação, falou como seria o pós operatório e deixou o número do seu telefone celular, para que ligássemos a qualquer horário em caso de emergência ou mesmo dúvidas. Ficamos o tempo todo na sala de espera, o pai e eu, com confortaveis poltronas, café e chá (free), ar condicionado e wirelles disponível.  Por volta das 16h a mãe ganhou alta e fomos pra casa.
A mãe teve um atendimento ótimo, e nós, familiares, também.

Mas não pensem que estou escrevendo hoje para criticar o hospital municipal e elogiar o regina. Negativo.

O Mano trabalho de manhã, e chegou no hospital por volta do meio dia. Ficou com a gente até perto das 15h, quando falamos com a enfermeira que disse que a mãe estava acordando.  Ele foi pra casa, foi buscar uma coisa pra mãe comer e abriu a casa para nos esperar. Enquanto ele saia, fui até a recepção do hospital e troquei algumas palavras com ele. Disse que estava muito tranquila e feliz, apesar de toda a situação da mãe hopitalizada, mas apesar ded tudo, estava muito frustrada. De mais.
Ele disse que até sabia o que era, mas pediu que eu dissesse - tinha a ver com uma placa pela qual havíamos passado  a pouco.
Me frustrava  ter todo o conforto e qualidade de atendimento por estar pagando (muito caro). Fizemos tudo particular, e pagamos o olho da cara para que a mãe tivesse tudo isso. De forma alguma há arrependimento por isso, muito pelo contrário. Mas não tenho como não me frustrar, considerando que a mãe só teve aquele atendimento por poder pagar por ele.
Isso me frustra.
Se a gente tivesse pago logo, quando ela foi internada depois do acidente, talvez nem teria que se operar agora.

O Mano entedeu bem o meu sentimento. Que bom poder pagar e ver a mãe bem, é bom sim. Não posso ser hipócrita, porque ver teu familiar na fila do SUS é cruel e degradante.

Quantas pessoas morrem todos os dias nessa fila?
Isso não pode ser naturalizado, se jeito algum.

As vezes nos acostumamos a pagar pelas coisas, a pensar que as coisas são assim e pronto.  Naturalizamos e tornamos comum situações horríveis, quando elas não nos atingem (ou deixam de nos atingir).

O que quero dizer com o post de hoje, é que eu continuo insistindo.
Não vou deixar as coisas assim.
Alguma coisa tem que ser feita, precisamos fazer a nossa parte, mas precisamos fazer com que 'eles' façam alguma coisa também.

Estou sim defendendo a minha mãe, mas quero lembrar que ela não é primeira, a última e nem a única.
Não quero que seja a mãe dos outros. Nem mesmo a do Tarcísio (nem sei se ele tem mãe, mas tb não me importa).
Eu queria apenas que todas as pessoas tivessem um atendimento de qualidade e acesso digno e humano as suas necessidades básicas, nesse caso, saúde.  Só isso.
Ninguém precisa de milhões para viver.
Quero que as pessoas tenham o suficiente para viver como 'gente'.

Será que é querer muito?

Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

É impressionante como as pessoas conseguem ser intolerantes

Ontem vi no twitter da Z:

@zshinoda Clicar em TT's é sempre decepcionante. Fui ver o que se falava sobre #marchacontrahomofobia ... Como tem gente burra nesse mundo....Pqp.


Respondi...
@letthyssia Gente burra eu até entendo, mas gente ignorante, é foda. O papo é sério #marchacontrahomofobia

Ela, por sua vez
@zshinoda Ignorância se cura com educação. Mas burrice, minha amiga. Só dando pedrada no meio do ouvido.


E é fato.

Hoje assisti o Curta Não quero Voltar Sozinho (disponível no Blog do Contestação) e achei o filme lindo. Fiquei emocionada, muito bonita a história e muito séria. Fala de um adolescente cego, que se apaixona por um colega de escola.
Ai cai na bobagem de procurar no Google os vídeos do MEC do Kit contra homofobia. Os vídeos são curtos e objetivos, e extremamente sensíveis ao seu público – adolescente. Assisti um que fala sobre um menino que é bissexual, outros sobre uma travesti. Todos adolescentes, todos na escola. Achei fantástico! Pra quem conhece o ambiente escolar e vê como os estudantes GLBTTTs sofrem, entende a finalidade.

Mas o que me decepcionou não foram os vídeos, pelo contrário. Foram os comentários que seguem. A expressão ‘kit gay’ já é uma baita falta de noção. Porque quem ataca essa iniciativa não se dá conta que ninguém ‘estimula’ o outro a uma determinada identidade de gênero.

As pessoas são o que são. E pronto!

“Não tenho nada contra gay, mas isso é demais” – é o suficiente para explicitar o ódio que se tem. Ninguém que realmente tenha um amigo (amigo de verdade) ou familiar gay vai achar o vídeo ruim. Pelo contrário.

Ser diferente é normal. Ser intolerante não.


Hoje twitei

@letthyssia Pérola: lugares sujos deixam as pessoas mais preconceituosas. É por isso que o Bolsonaro nora no banheiro da rodoviária do RJ...

Ouvi ontem na MTV... Não podia perder a oportunidade, hehehe!


Sugiro que assistam Não quero Voltar Sozinho





Caso não queira assistir (o que acho que não é o perfil do público deste blog), sugiro esse vídeo, que eu achei muito criativo: Mensagem contra o preconceito - Fuck You (Lily Allen)


Espero que gostem... se não gostarem. Guardem a mensagem (palavras da Z) nos seus corações! =)

@zshinoda Ignorância se cura com educação. Mas burrice, minha amiga. Só dando pedrada no meio do ouvido.

Disse tudo!



Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Algumas coisas nos parecem praticamente impossíveis, não?!

Vi esse video hoje, no http://mariadapenhaneles.blogspot.com/ e não pude não me emocionar.

É um espetáculo de balé, e os bailarinos são deficientes físicos.
A coreografia é muito intensa. É linda e envolvente. E emocionante.

As vezes nos apegamos nas nossas fragilidades, como argumento para não fazer as coisas. Não sei, não consigo, não tenho tempo, me falta dinheiro... E não nos damos contas que existem pessoas que tem uma série de outras fragilidades e não se importam com elas para seguir em frente.  Não fazemos nada porque achamos que não é nossa responsabilidade, que não cabe a nós, que existem outras pessoas mais apropriadas.

Algumas coisas nos parecem praticamente impossíveis, não?!
Temos muito que aprender.



Temos muito o que aprender. Muito mesmo!

Por MARIAL.P.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Eu não sou uma esfínge...

Hoje pela manhã, tive a feliz oportunidade de ver um arco íris.
Tive uma sensação tão maravilhosa, de que as coisas simples podem ser muito boas. Que nem tudo neste mundo está perdido. Que existe algo além do nosso pequeno horizonte.

Desejei imensamente que todas as pessoas que estavam naquele ônibus pudessem ver este simples e belo fenômeno da natureza e que sentissem aquele pequeno e precioso momento de plenitude.

Não sei como, mas preciso dizer - meu amor, eu não sou uma esfinge!


Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Insetos Interiores

O Teatro Mágico - Composição : Fernando Anitelli


Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.


A futilidade encarrega se de "mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.


Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se


A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.


Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.

Assim são os insetos interiores.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Dessa vez, um elogio não alegrou o meu dia. Nem um pouco!

Recebi hoje um elogio, que não alegrou o meu dia, como normalmente acontece.


Conversando hoje, com a moça que está fazendo a limpeza do nosso setor, durante essa semana, ela pergunto a minha idade. Respondi e ele ficou muito surpresa, dizendo, ‘nossa, eu achava que tu tinha uns 18, no máximo 19’. Falávamos sobre a dificuldade de levantar cedo no inverno.

Sempre que dizem que tu pareces mais jovem, da à impressão de que tu estás bem. Mas não foi isso o que eu vi. A menina tem a minha idade. Loira, magra, cabelos longos, uma mulher bem bonita de fato, mas parece ser muito mais velha do que realmente é.
Foi mãe jovem, cuida da família, cuida da sua casa, e ainda trabalha o dia inteiro na limpeza de uma grande empresa.

Não que eu me ache melhor/pior que alguém, mas ouvir isso de alguém tão jovem faz com que eu reflita sim. Será que realmente pareço mais jovem, ou ela, a vida fez com que ela parecesse mais velha?

Eu levo uma vida confortavelmente tranqüila. Trabalho várias horas, mas eu um escritório sentada, com computador e com ar condicionado. Ando horas de ônibus, mas chego em casa e tem comida pronta e roupa lavada. Não tenho responsabilidade com marido e filhos (que é considerada uma responsabilidade da mulher, e isso sim, conta e muito!!).

Essa semana, conversando com o Karl, eu dissse a ele que o capitalismo era muito ruim, mas não burro. E ele, mais uma vez, não concordou comigo. Confesso que fiquei muito desapontada pela sua falta de argumento, quando eu lhe disse que não era natural a desigualdade. Não pode ser! Qual foi o pecado dessa moça para parecer ter dez anos a mais (agora não me refiro a aparência estética, mas a vida que ela teve que levar para sobreviver, e isso sim, se reflete estéticamente). Eu me pergunto, qual é o problema, porque as pessoas não podem viver igualmente, ter as mesmas oportunidades, vivenciar experiencias (boas) parecidas? Ter condições financeiras, e dizer que os outros passam trabalho porque não trabalharam o suficiente é uma puta hipocrisia! Eu sei que a menina da limpeza trabalha e rala muito muito mais que eu diariamente, e sei que o salário dela é significativamente menor que o meu. Sei porque este é também o trabalho da minha mãe, que há anos trabalha, que ganha pouco mais da metade do meu salário. E eu não posso achar isso justo 'porque as coisas são assim' e pronto!

Tenho um emprego razoável que me eleva a uma classe média emergente. Sim, é fato. Mas não posso achar justo que esta - e tantas outras mulheres - ralem tanto e sejam tão sofritas e pouco reconhecidas. O fato de eu ter uma formação acadêmica não faz de mim melhor que elas. Reconheço que tenho essa formação porque tive oportunidade, diferente de tantos outros. E isso faz deste sistema econômico tão ruim. Uns têm oportunidade, outros não... uns tem casa, carro, acesso à saúde e educação, emprego, alimentação, e outros não. Não posso achar isso simplesmente natural. A desigualdade não é natural.


Em suma, as vezes, um elogio alimenta consideravelmente nosso ego. Mas outras vezes, é preciso olhar o nosso próprio ego, para perceber até que ponto não estamos sendo escravos de nós mesmos, esquecendo todo o mundo a nossa volta.



Dessa vez, um elogio não alegrou o meu dia. Nem um pouco!


Por MARIA,L.P.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Crime é não reconhecer o amor, em tempos tão carentes!

Sexta feira, dia 06/05, o Cris, meu colega de trabalho disse que estava esperando eu postar algo sobre o direito homossexual. Na realidade, faço essa reflexão, pois considero importante e, sobretudo porque foi o Cris que me cobrou. As vezes (muitas) acho que esse guri traz consigo uma bagagem tão machista e tão natural (pois afinal, isso é natural na nossa sociedade de origem judaico-cristã) que não se dá conta. Discutimos diariamente, mas o que me motiva a escrever é, que apesar de não concordar comigo, ele me escuta. E sei que vai ler este post.



Recentemente, o STF reconheceu a união estável entre casais homossexuais. E eu vibrei com essa decisão, pois a considero uma brilhante conquista para toda a comunidade LGBTTTs.

Eu ia postar sobre no blog do Movimento Contestação, no qual também faço as minhas contribuições, entretanto, a matéria que li no site do IHU fez com que eu mudasse de idéia, por encerrar com uma fala do advogado da CNBB, Hugo José Cysneiros, que criticou o reconhecimento da relação homoafetiva e disse que uma decisão neste sentido poderia beneficiar pessoas que praticam a poligamia e o incesto.

"Polígamos, incestuosos, alegrai-vos, eis ai uma excelente oportunidade para vocês”

Fiquei horrorizada, mas não surpresa com tal declaração. Estou cansada de saber que a minha igreja, é contra a homossexualidade. Meus irmãos, que me conhece do movimento jovem do qual participo – o ONDA – também estão mais do que carecas de saber que eu sou radicalmente contra diversas posturas da minha igreja. Assumo isso sem problema algum.

Partilho da idéia de Luís Roberto Barroso, que na mesma reportagem do IHU afirma:

"Impedir uma pessoa de colocar o seu afeto e sua sexualidade onde está o seu desejo é aprisionar-lhe a alma. É impedir a pessoa de ser em sua plenitude”

Acredito que o que há de mais santo é o amor. Não escolhemos amar, amamos por que amamos. Existem pessoas que não sabem amar, que são amadas e não sabem retribuir. Existem pessoas que não sabem expressar. Amar é um presente divino, e deve ser gracejado na sua plenitude, sem dúvidas. Penso que o direito de constituir família deve basear-se no sentimento, e não nas formalidades. Se duas pessoas se amam, que mal há de que elas tenham garantido o seu direito de assumir isso publicamente? Que problema há em terem os seus filhos, e o educarem em seu amor? Definitivamente, não vejo mal algum nisso, muito pelo contrário, pra mim é santo que duas pessoas que se amem e querem ter filhos (e biologicamente não podem) adotem os seus.

Sobre a declaração dramática de Cysneiros, sobre poligamia e o incesto, vejo um grande equivoco. Até onde sei, poligamia e incesto são prática comuns, entre os heterossexuais e não entre os homossexuais. Conhecemos diversas histórias de estupradores que violam suas próprias filhas (veja em Machismo Mata), homens que tem várias mulheres, homens que traem, homens que isso e que aquilo. Mas, curiosamente, estes, todos: héteros.

E quando falam em homossexuais abusadores, pedófilos etc e tal, curiosamente estes são sacerdotes. Sim, padres católicos.

Por acaso não estão demonizando as pessoas erradas? A inversão me parece clara. Projetam o demônio num sujeito que não tem absolutamente nada a ver com a decadência da nossa sociedade. O inferno são os outros, não é mesmo?

Sobre o que o infeliz do DEM disse na Folha sobre a necessidade de criar o dia do hétero, O Dia do Hétero é a oportunidade de protestar contra o excesso de valorização do gay. Não precisa dizer ao gay: "Ei, camarada, que bom!’”, sinto em lhe afirmar meu caro. O hetero tem todos os dias! Não existe excesso de valorização do gay, o que existe é um movimento que busca garantir os direitos mínimos para as pessoas. Só isso. Não me parece nem um pouco radical. Radical é saber que morre gente todos os dias por motivos homofóbicos, e a igreja e o governo não consideram isso crime.

Crime é negar que as pessoas têm direitos. Crime é permitir que gente morra por causa do preconceito. Crime é viver negando a si mesmo, para ser socialmente aceito. Crime é o jovem se assumir somente quando se afasta do seu círculo.

Crime é não reconhecer o amor, em tempos tão carentes!



Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eu e o feminismo

Li esse texto pela manhã no Blogueiras Feministas, que acompanho e traz discussões preciosas!

Hoje, meu objetivo era fazer uma postagem sobre a decisão do STF em relação aos direitos homossexuais e a  postura da igreja católica, mas isso vai ficar para amanhã;

Faço essa postagem em especial, para o meu querido Karl. Recentemente ele, eu e a Rosherie (sua irmã) discutíamos sobre o feminismo, ao qual ele se posicionou "contra", sendo ferozmente atacado por mim e pela Rô. O motivo que faz com que o Karl seja "contra" o feminismo, é partilhado por muitas pessoas - infelizmente. O argumento, era de que existem outras lutas importantes, e que não existe mais essa necessidade no século XXI. Acontece, que não é bem assim... em pleno século XXI, os preconceitos estão tão inseridos na nossa sociedade, tão banalizados que algumas vezes nem os percecemos. O sexismo é presente - e forte - em todas as nossas relações, e não nos damos conta.
Percebi a 'necessidade' do feminismo, apartir das minhas relações. Quando não nos damos conta de que sim, o machismo mata, que o racismo mata, que a homofobia mata, e não nos atentamos de que quem semeia o preconceito somos nós mesmos, no nosso cotidiano, milhares de pessoas morrem e ficam à margem da sociedade e achamos isso normal.

O texto que vem em seguida, creio eu, que ilustra muito bem essa ausência de um olhar feminista, quando não nos damos conta da importância dessa luta, em ração ao contexto sócio-familiar onde vivemos. Em alguns (vários) aspectos, pude me colocar no lugar da autora. Um bom texto, que merece uma séria reflexão, por mim, pelo Karl e por todos!

"Vou falar o que eu achava sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo por ter nascido mulher? Nossa, mas que mérito! O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai-drasto e minha mãe. Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de lésbicas frustradas com um desejo secreto que Freud explica.


É engraçado como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima do homem, vítima do posicionamento da sociedade e sua atitude com relação ao papel da mulher.
No Dia Internacional da Mulher há dois anos atrás, eu não estava mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu chorei. Chorei em quase todas as homenagens bobas que vi na TV. Chorei quando senti que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Chorei quando vi que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Chorei quando lembrei de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM.


E daí, semanas depois, resolvi analisar um certo acontecimento de um passado distante não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma Desperate Housewife, e que ele também é produto de tudo isso que nos cerca.


É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem, que mulheres estão em pé de igualdade com os homens, quando na verdade há uma míriade de coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça…
Eu estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, e tenho certeza que ainda vou escrever um bilhão de besteiras enquanto descubro esse novo caminho…
E o pensamento interno mais recorrente em N momentos do meu dia é: “você não falaria assim comigo se eu fosse um homem, falaria?”

Na época em que me descobri feminista, fui comentar com meu irmão sobre minhas novas descobertas, tentando convencê-lo da relevância disso mesmo nos dias atuais. Comentei até que existem homens engajados nessa “luta”, e recebi um: só acho que hoje em dia as diferenças de gênero estão em segudo plano frente a outros problemas mais presentes.


É quase como dizer que é besteira lutar por animais abandonados, pois animais em extinção são um problema mais relevante. Quase como não comer, pois tomar água é uma necessidade mais presente. Como se houvesse uma hierarquia de lutas, onde 100% da população devesse se encaixar na luta mais presente e deixar as outras milhões de batalhas de lado enquanto não se resolve aquela primeira.


O que eu disse é que existem problemas mais importantes. Poucas pessoas morrem de sexismo. Muitas morrem de pobreza.
OK.
Imaginei que ele, por estar inserido no mesmo ambiente no qual cresci, simplesmente não estivesse conseguindo visualizar que ainda existe sim um ambiente opressor para a mulher, e que de fato esse ambiente pode sim matar pessoas. Talvez não tanto fisicamente quanto psicologicamente. Tentei explicitar, usando inclusive exemplos. Tentativa frustrada. Ele respondeu:

“Bem, sentir na pele é impossível, pois por mais que eu leia o texto só fica na ficção, eu acho que entendo as suas motivações pra entrar no feminismo. Desculpa se eu pareci seco antes, mas é que no meu curso eu sou rodeado de todos os tipos de problemas, de todos os tamanhos e alcances, e as relações de gênero são apenas um deles. Só pra deixar claro: você considera naturais as diferenças sociais entre homens e mulheres? E as diferenças que você não concorda, o que você faz para mudá-las? Pois como diziam a Simone e o Sartre, a omissão vale por um sim, ou o bom e velho “quem cala consente”.”

Eu não entendi, será que ele estava realmente querendo dizer que por ter se calado, milhares de mulheres diatiamente consentem o seu estupro? Claro que muitos vão dizer que não, não é isso que ele está dizendo… Está apenas falando que eu sempre calei frente ao sexismo, então sempre aceitei que as coisas fossem como são e então isso desligitimiza a minha luta feminista. Mas ele está partindo de um pensamento muito perigoso, afinal, o “quem cala consente” é universal? E o calar de uns dá direito aos outros de fazer o que quiserem?
Não, eu definitivamente não entendi o que ele quis dizer.

Disponivel em http://blogueirasfeministas.com/2011/eu-e-o-feminismo/
Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma resposta para “Aborto: debater é legal”

Então, venho acompanhando esse debate a tempo. Mas confesso, que infelizmente ainda não tenho uma opinião formada, lamentavelmente.

Andei visitando o blog "Aborto em debate", achei muito bom e comentei a postagem "Aborto: debater é legal!". Comentei, sobretudo porque o título do post já me chamou a comentar, pois, afinal, se não tenho uma opinião formada, sim debater é legal. Sem demagogias, sem cunho religioso, sem se prender a valores baratos e superficiais, mas em direito do direito de escolha da mulher - logo, debater é muito legal!

Continuo refletindo o tema, e acho que todos devem pensar um pouco mais seriamente no tema "aborto".
Segue o comentário que fiz no blog  http://www.abortoemdebate.com.br/wordpress/


 
Letícia disse:


4 de maio de 2011 às 10:16
( disponivel em http://www.abortoemdebate.com.br/wordpress/?p=2326#comments)


Bom dia,


Venho acompanhando o blog e a discussão há bastante tempo.


Pessoalmente, tenho minhas dúvidas pessoas em relação a decisão de realizar um aborto. Mas considero que este meu ponto de vista seja completamete carregado pelas minhas experiencias culturais e religiosas. Logo, considero que eu não seja a pessoa mais indicada para argumentar.


Tenho acompanhado sobretudo a discussão sobre a descriminalização, junto a movimento feministas. Penso, que antes de qualquer coisa a mulher tem o direito de escolher, e parto deste pressuposto.

O link ‘debater é legal’, foi o que me fez comentar.
Acho que, o que nos falta sobretudo é informação, esclarecimento.
Normalmente somos contra o aborto por falta de informação. E falta de informação mata nesse país.

Precisamos contruir uma sociedade onde a mulher seja protagonista da sua própria vida!


Sorte e sucesso na luta!


Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A gente faz que não é com a gente, mas é.

A gente faz que não é com a gente que o menino na rua está falando. Isso porque pressentimos que ele vai fazer algo para mexer com nossa sensibilidade. E por isso é melhor dizer logo não. E ao dizer não perdemos alguns gramas mais de sensibilidade, alguns quilos de humanidade. E por perder as duas coisas nos tornamos mais dessemelhante de quem por direito natural é nosso semelhante. E ao perder a semelhança com o humanos criamos laços afetivos com os desumanos – as máquinas e os equipamentos.

A gente faz que não é pra gente que a moça da limpeza está olhando. E por fingirmos que não estamos sendo vistos por ela desenvolvemos certa miopia. Passamos a não ver qualquer “coisa” que nos incomode. E com esse olhar seletivo estamos sempre em busca de pessoas com cara e rosto de espelho. E por isso a moça da limpeza nos sorri, mas como não nos serve como espelho, não temos nada a retribuir a não ser essa monolítica pose de imenso moai da Ilha de Páscoa.

A gente faz que não é com a gente. Mas é nosso nome que o guarda de trânsito anota em seu bloco de multa. E por assim procedermos ficamos convencidos de que as leis de trânsito foram feitas para apenas para servir às nossas conveniências. E servindo nossas conveniências entendemos que foram feitas para infernizar a vida dos outros. E infernizando a vida dos outros transformamos o planeta num lugar hostil para viver.

A gente faz que não é com a gente que a mulher desgrenhada tenta dizer alguma coisa ao tempo mesmo em que sacode uma criança de peito. E porque não subtraímos alguns segundos de nosso dia para reparar nesse par de olhos deixamos de nos sentir responsáveis por esse ex-aluno que tantos anos depois irá irromper em uma sala de aula de escola municipal da zona oeste do Rio [melhor, em Canudos - grifo meu].

A gente faz que não é com a gente que os pacifistas e os ecologistas estão bravos, quando teimam em advertir que os recursos naturais do planeta além de escassos são limitados. E por isso continuamos nossa vida de consumo sempre batendo novos recordes. E a cada novo recorde batido o coração do planeta nos responde com uma rateada. E a cada rateada deixamos de sentir que temos cuidado muito do corpo e que continuamos deixando ao relento e ao desamparo essa coisa que atende pelo nome de Alma.

A gente faz que não é com a gente que os tsunamis se levantam na praia. E por isso que ficamos perplexos apenas quando vemos as imagens da devastação. E com a devastação pensamos em como era lindo nosso planeta, esse mesmo lugar que um dia Gagárin disse que além de lindo era todo azul. E como os tsunamis nada têm a ver com a gente as cidades são cada vez mais varridas do mapa e seus habitantes sempre em grandes números completamente submersos. E por isso esperamos, com paciência de Jô, a estatística anual do número de casas que vieram abaixo com a queda dos morros, a quantidade de lares soterrados e os frios números de vidas tragicamente interrompidas.

A gente faz que não é com a gente que aquele sujeito despeja rudes insultos, indizíveis desaforos e pesados preconceitos com o outro que insiste em praticar o mesmíssimo crime de sempre – o de não partilhar da mesma cor da pele, da mesma fé religiosa, do mesmo alisado do cabelo e do mesmo desenho dos lábios que tanto falam quanto beijam. E por isso deixamos a dignidade humana trancafiada no livro das boas intenções, privada de saudáveis passeios pela rica e diversa paisagem humana. E sem a visão do belo que é o humano deixamos enferrujar a capacidade de amar.

A gente faz que não é com a gente que alguém reclama por estar jogando na rua garrafinha de água mineral, guardanapo usado, folheto publicitário. E por isso transformamos em lixão a parte do mundo que nosso carro conhece e nossos passos reconhecem. E nessa ignorância toda contaminamos a terra, a água e o ar. E com tudo contaminado ficamos doentes e deixamos o planeta com aquela leve sensação de que já vamos tarde.

A gente faz que não é com a gente aquele corpo estendido no chão. E por isso passamos por ele mais apressados que nunca, atropelando uns aos outros, desesperados por nos afastar o mais rápido possível daquele imagem agora estática, mas que há bem pouco ainda se movia, respirava, sorria, chorava, pensava, sonhava, amava.

A gente faz que não é com a gente que aquele programa de televisão fala, complica, replica, implica. E por isso que ao lhe dar o privilégio de nossa audiência engrossamos o elevado índice de seu baixo nível da programação. E ao fazermos isso mantemos longe do horário nobre qualquer atração que nos garanta um mínimo de cidadania, ética, direitos humanos, virtudes humanas, valores humanos. E assim lamentamos com nossos filhos e nossos amigos que a programação da tevê em canal aberto está mais baixa que uma Gilette deitada, mais rasa pires exposto a temporal, desses que até uma formiga de baixa estatura e de joelhos conseguiria atravessar sem maiores preocupações.

A gente faz que não é com a gente que a pessoa portadora de deficiência pede ajuda. E por isso fechamos a cara, crispamos o semblante e seguimos em frente. E nessa marcha batida deixamos de perceber que acabamos de nos despedir de um dos sentimentos mais urgentes e mais belos que um humano poderia ter, o sentimento da solidariedade. E com este se despede também aquela compreensão que dispensa palavras, naquela base do “vou ajudar por haver apenas compreendido.”

A gente faz que não é com a gente, mas é.


Texto de Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México.
http://www.cidadaodomundo.org/




Já passou da hora de fingir que não é com a gente.
É com a gente. Somos responsáveis diretos por tudo...
Vale a reflexão. Mas sobretudo, necessitamos urgentemente de uma mudança de atitude!
Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Flor e A Náusea

(Carlos Drummond de Andrade)

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.