sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mexendo na Caixa de Abelhas

*“Ponha uma colméia no meu túmulo e deixe o mel encharcar tudo”**




Isto de ser mulher na contemporaneidade é negócio complicado. E difícil. Ser complicado e ser difícil não são sinônimos aqui. São operações que atuam em dois registros diferentes. É difícil ser mulher pelos altos índices de violência de gênero, pelos rigorosos padrões estéticos, pela naturalização dos abusos, pelos maus-tratos culturalmente instituídos, pela distorção na formação das crianças, pelas características do mercado de trabalho, pela supervisão acirrada sobre a sexualidade, pelas pressões sobre a maternidade, pelo silêncio em que tudo isto acima descrito e linkado esteve submetido por tanto tempo (todos os posts relacionados neste parágrafo estão aqui mesmo no Blogueiras Feministas, vale a pena ler tudinho).


Mas, eu dizia, ser mulher, além de difícil, é complicado. Porque é um tornar-se sem letreiros, placas, sinalização. O feminino é um furo no discurso fálico, uma tentativa, sempre uma tentativa, de dizer o que não é possível por não ter um significante. Mas é bonito saber que tornar-se mulher é uma invenção individual. Ser mulher é ser menina, brincar de casinha, fantasiar filhos. Ser mulher é atropelar bonecas com trator e correr nua no jardim. Ser mulher é ser moribunda, tudo ter apenas na memória. É ser recem-nascida e se permitir tudo de novo. Ser mulher é acordar com doces nos olhos e dormir com sal na boca. É dançar na rua, dizer palavrão, chorar de saudade. É cuspir no chão, fazer cafuné, dirigir caminhão. É perguntar, divagar, emudecer. É gargalhar e tocar piano com o cotovelo. Ser mulher é ser não, ser véu, é ser o vazio. Ser mulher é ser tudo e tudo doer. É apegar-se ao externo: colar de pérolas, salto alto, batom. É negar, um a um, cada símbolo de ser mulher e pairar, despida, no imaginário de si mesma. Ser mulher é caminhar, tornar-se, fazer-se. Ser mulher é se adivinhar um dia antes de ser. É reescrever. É reescrever-se. É desenhar a carvão, mas já definitiva forma. Ser mulher é ser marias, joanas – francesas ou não, ritas, amélias. Ser mulher é saber-se todas e saber-se nada, caleidoscópio do vazio. Ser mulher é agarrar-se aos exemplos e não os repetir, um a um, como um ensaio às avessas. Ser mulher é difícil, tornar-se mulher é complicado. Mas insistimos.

E insistimos em um espaço que nos nega sempre. Em um cotidiano com tantos nãos que é de se espantar que alguma de nós ainda consiga. Tanta dificuldade tem nome: Machismo. O machismo é insidioso. E é tão terrível na sua face ruidosa (estupros, diferenças entre salários, jornada dupla para a mulher) como na sua face discreta (piadas sexistas, educação/lazer diferente para meninos e meninas, regras de comportamento sexual etc.)

Do que estou falando? Vou tentar começar de novo. O espaço social é violento com as mulheres porque é um espaço estruturalmente machista. A violência tem várias nuances, claro. A violência de gênero parece estar profundamente entrelaçada ao preconceito. O preconceito, um tipo peculiar de atitude, possui aspectos cognitivos, afetivos e comportamentais. De maneira bem rasa:

O componente cognitivo se manifesta por estereótipos, crenças e representações de atributos negativos que caracterizariam determinados grupos sociais. Por exemplo, o discurso machista cria a ilusão de inferioridade, dependência, ignorância, coisificação da mulher. Mulher dirige mal. Mulher não entende de lógica. Mulher não sabe fazer conta. Mulher não sabe decidir rápido. Mulher deve ser agradável aos olhos.

O componente afetivo apresenta-se em avaliações e sentimentos negativos a respeito do grupo discriminado. Mulher é incompetente, não GOSTO de trabalhar com elas. Ah, mas ela era vagabunda, mereceu! Não confio em mulher no trânsito. Claro que quem vai governar é o Lula, mulher não tem jeito pra isso…

O aspecto comportamental materializa-se na tendência à prática de atos hostis ou persecutórios aos membros do grupo alvo do preconceito. Eu pago menos a uma mulher do que a um homem que realiza o mesmo trabalho. Eu empresto a chave do carro pro amigo, mas não pra amiga. Eu faço piada sobre a situação da mulher na sociedade. Eu bato, estupro, mato a mulher.

Não importa se o sexismo se manifesta de forma hostil (sua vaca!) ou benevolente (tadinhas, não têm um homem, são mal-amadas). Não importa, repito, é violento. Ainda não consegui me fazer entender? Se um homem acredita que a mulher é um objeto para sua satisfação, uma coisinha a lhe dar prazer – seja estético, sexual ou conforto no lar – ele sente que ela lhe pertence, não vai sentir empatia, mas senso de propriedade e, na lógica capitalista de que um bem seu é seu para dispor como quiser, o comportamento violento emerge sem nenhuma censura. Assim os “crimes de honra” são repetidamente desculpados.

Considero violento todo pensamento, sentimento e ação que priva alguém da sua humanidade. Matar uma mulher é uma violência (matar um homem também, mas foco no assunto, tá). Esmurrar, chutar, bater, sacudir uma mulher é uma violência. Cuspir em uma mulher é uma violência. Gritar com uma mulher é uma violência. Privar uma mulher do direito de ir e vir é uma violência. Tirar o direito de escolha de uma mulher é uma violência. Escrever uma reportagem sobre quantos parceiros sexuais uma mulher tem porque seu nome termina em A, isto é uma violência. Todas essas ações são legitimadas e potencializadas pelos processos de socialização que reificam as mulheres tais como os padrões moralistas de comportamento sexual, os valores ligados à aparência física, as demandas de posturas submissas, as exigências de convergirem com modelos de “boa mãe”, “boa esposa”, “boa amiga”…

Então, é assim: não dá pra começar tudo de novo. Temos que reconhecer o que está e procurarmos mudar, de fora pra dentro e de dentro pra fora. Criar espaços e formas de afirmação para, na concretude das experiências, novas subjetividades se constituírem. Concomitantemente, são as novas subjetividades que possibilitarão mais espaços e mais ações de igualdade de opções e direitos.

Não é porque eu não ajo de forma machista, violenta, preconceituosa que eu estou à parte do problema. A violência contra a mulher permanecerá enquanto a sociedade mantiver a idéia de mulher como acessório, complemento, costela, parte do homem.

Eu, Luciana, posso até nunca ter sido alvo de preconceito por ser mulher, mas vivo em uma sociedade que associa valores negativos a pessoas do meu gênero (raciocínio adaptado do lindo texto da Juliana sobre racismo). E isso é inaceitável, indesculpável, intolerável (obrigada pelas palavras, Joana, elas dizem tão bem).

E eu só fico esperando que, em algum dia desses que ainda vão chegar, seja muito comum, simplesmente isso: cada um e cada uma, poder dizer sim e não. Mas poder de verdade, sem ficar com medo de ser chamada de “fácil” ou que “ele” não telefone de novo. Sem ficar com medo de apanhar. Sem ter medo de ser demitida. Sem ter medo de ser “desleixada”. Sem ter medo de ser “péssima mãe”. Sem ter medo de ser “encalhada”. Sem ter medo de ser ridicularizada. Sem ter medo de sorrir e ter rugas. Sem ter medo de comer, de beber, de rir, de amar. Sem ter medo de ser a mulher que quiser ser. Sem ter medo.


* Agradecimento especial à amiga Camilla que teve paciência comigo na discussão do batismo do post e à fofíssima Thayz que mangou de mim por não saber colocar a foto em destaque e a seguir me ensinou.
** Citação do delicado filme A Vida Secreta das Abelhas, linda resenha aqui.


Texto disponível em http://blogueirasfeministas.com/2011/mexendo-na-caixa-de-abelhas/

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Aqui estão os loucos...

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo.
Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais.
Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."


Jack Kerouac

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ser essência, muito mais!



Gentilmente cedido pela produção do Teatro Mágico (disponivel com wp em http://www.4shared.com/)

Inspiração!
Bom dia, boa semana. Sol a todos!

Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Feliz Páscoa!

Um mensagem simples e alegre a todos!



Feliz Páscoa!
Que o verdadeiro sentido de 'passagem' esteja presente na vida de cada um!

Por MARIA,L.P.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Para quem acha que racismo não existe

Dedicado ao colega Ali Kamel

Há quem diga que racismo não existe no Brasil; que o país é tão misturado que apenas 6% da população é negra, ou seja, uma minoria absoluta –desconsiderando a noção histórico, político-étnica de afrodescendência. Tal conclusão felizmente não permaneceu impune e foi questionada de maneira brilhante e irônica pelo cartunista Arnaldo Branco, entre outros:



Além desta elaboração, outra teoria – a mais aceita pós Gilberto Freyre – é a de que vivemos um racismo velado, em especial quando comparado aos Estados Unidos. Enquanto mascaramos o preconceito com a imagem de um país feliz, harmônico e unido por samba, cerveja e futebol, lá a separação forçada de espaços físicos há até muito pouco tempo deixou os problemas bem mais evidentes e trouxe à tona a herança escravagista.

Mas pelo menos dois episódios recentes discordam, em certa medida, das hipóteses acima e apontam que o racismo não só existe no Brasil, como ele é muitas vezes óbvio. O primeiro é o do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que ao participar do programa CQC, da Bandeirantes, falou absurdos para a apresentadora e cantora – negra – Preta Gil. Saudosista da ditadura militar, Bolsonaro já havia destilado seu preconceito também contra gays, o que infelizmente, na lei, não é uma violação equivalente ao crime de racismo.

O segundo exemplo é a nova propaganda da cerveja Devassa. Não satisfeita em ver retirado do ar seu comercial com Paris Hilton, a marca mais uma vez opta por divulgar uma imagem estereotipada e distorcida da mulher. Agora ela não é loira e "oferecida", mas negra, "porque negra se reconhece pelo corpo". Além de utilizar peitos e bunda para vender bebida, a propaganda faz uma distinção sexual que traz a mulher negra como um objeto. Um mero corpo a ser possuído.




As mulheres negras são, sem dúvida, grandes prejudicadas deste nosso mundo contemporâneo supostamente desenvolvido. Se as brancas já sofrem no mercado de trabalho, recebendo menos para ocupar o mesmo cargo que homens, as negras são ainda mais desvalorizadas. Elas também estão entre as mais pobres, são mães cedo e têm menos oportunidades de virar a mesa. E quando chegam ao topo, como Preta Gil, ainda ouvem desaforos que desqualificam toda a sua hereditariedade por alguém que se sente "no direito" de "ser superior".

Racismo não existe no Brasil? Faz-me rir.


Escrito por Maíra Kubík Mano  http://viva.mulher.blog.uol.com.br/
disponivel em http://movimentocontestacao.blogspot.com/

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Incansabilidade

Incansabilidade é nuca ficar desbotado, nunca permitir que nada remova a cor, a vivacidade, as variações, a beleza da vida. E mais do que isso, significa nunca matar o amor. Para isso precisamos de tal amor à vida que não há nem mesmo um recuo em direção ao passado ou anseio pelo futuro. O agora é belo e vale reunir energia para ele. Tudo é importante!

(Brahma Kumaris)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Homofobia, mais uma reflexão...

Assisti ontem no SBT, um programa jornalístico que pautava a homofobia.


Depois das cenas que vi, vejam bem, tive pesadelos a noite inteira! Homofobia é um tema que mexe muito comigo, assim como toda e qualquer forma de discriminação.

O programa este – que eu não disse o nome pq não me lembro, e também não faço questão – iniciou mostrando cenas de violência e morte de gays e travestis. Simplesmente absurdo, sem explicação.

Entrevistaram o Leão Lobo, que é uma pessoa famosa e que tem audiência, e que há muito declara publicamente sua homossexualidade, e defende os direitos GLBT. O trabalho dele na mídia, não me interessa em nada, mas não pude não me comover com o choque que ele teve ao ver garotos – que de declaravam ‘carecas’ – falarem. Um deles disse ‘eu não sou homofóbico, não tenho medo de gay. E não gosto de gay, é diferente’. Estes sujeitos, diziam que nada que vem de um gay presta, e ainda reforçavam que ‘Deus fez o homem e a mulher, Deus não fez o gay’, que os gays acabam com todos os valores ‘de família, de Deus, de sociedade’. Pode?

Quem é o sujeito que diz que o outro tem que morrer para o mundo ficar em paz. Que valores são estes?

Um desses rapazes, disse que não corre o menor risco de ter um filho gay, por que este terá uma boa educação – lembrei do nazi do Bolsonaro – mas, desde quando a sexualidade é uma questão de educação?? Mesmo que fosse (vamos assim supor) que educação um sujeito que diz que todos os gays do mundo precisam morrer, pode dar para uma criança. Nem um rato esse sujeito seria capaz de influenciar decentemente.



Quando falo em decência me refiro a gente de bem. Gente descente não é quem mantém a castidade para casar, ou que preza ser hetero, que casa na igreja, tem um bom emprego e uma família ‘normal’. Gente decente pra mim é quem luta para viver com dignidade, que briga pela sua felicidade, que luta por justiça e igualdade, que acredita no respeito, que ama o outro. Não aceito piadinhas sobre indecência, pois pra mim decência não tem relação com a sexualidade ou com a vida sexual de alguém. Decência tem a ver com a vida que se leva, com a seriedade que se olha para as coisas.



Me senti na obrigação de escrever sobre o programa que assisti ontem, porque ele mexeu muito comigo e porque sei que isso mexe com muita gente. Penso que precisamos construir relações mais descentes, mas, sobretudo precisamos ser mais coerentes e mais justos.



Estou cansada de ver a desigualdade, a violência e a hipocrisia e não fazer nada.
Deixo aqui a minha breve reflexão sobre o tema. Homofobia, mais uma reflexão...

Amar e mudar as coisas, me interessa mais!



Por MARIA, L.P.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Samba de ir embora e só

No fim de semana, conversando com alguns amigos, me dei conta de algumas coisas.

Falando do meu blog, percebi que posto sobre várias coisas, mas não sei escrever sobre amor.
Engraçado, sou uma das pessoas mais românticas que conheço, mas não sei escrever sobre amor.

Como me auto declaro, sou um ser estrano.
Mas ser chamada de 'excentricamente normal', me deu uma pontinha de esperança. Talvez até mais que isso.
Normalmente escrevo sobre frustrações e ausências.
Sem muita inspiração, deixo, para divertimento dos que passam por esta estrada, o som 'raro' do Teatro Mágico - Samba de ir embora e só. Só esse título, expressa a maioria das coisas que eu gostaria de saber expressar.



Por MARIA,L.P.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um casamento ideal, irreal, plural... um casamento

Que entrem os Noivos!


De Eduardo Delazeri (publicado originalmente no Blog Ká entre nós)



Um dia o místico e o revolucionário se encontram em um ponto da história, que é na ante-sala do poder, e travaram o seguinte dialogo.

Místico: vocês revolucionários são muito voltado para fora, até parece que estão fugindo de si.

Revolucionário: Vocês místicos é que são voltados para dentro, até parece que estão fugindo do mundo.

Místico: que bom seria se a gente pude-se casar a mística e a revolução.

Revolucionário: É verdade eu até acho que está mistura daria liga.

Místico: Já estou imaginado a cena, a Mística vira vestida de vida e a Revolução viria vestida de história. Os padrinhos…. já sei podem ser os movimentos sociais.

Revolucionário: Isso mesmo, e os convidados: serão os últimos, para ao menos uma vez o mais simples seja visto como o mais importante. Vamos chamar as putas, aos gays, miseráveis que moram nas ruas, os cantadores de lixo, os aidéticos e toda a turma deles.

Místico: Pois que comece o casamento. Mas não será realizado em nenhuma Igreja, de nenhuma religião, vamos celebrá-lo na catedral da vida, para ser mais real. Que entre os noivos.

Revolucionário: Nós viemos aqui para beber ou para conversar?

Místico: (que é meio quietão, faz pausa. Só olha nos olhos dele.

Revolucionário: (num estalo percebe. Pega na mão do místico e comenta) Já sei. Nós viemos foi para amar não é?

Místico: É. Então é bom tirar os sapatos, assim a gente caminha descalço, pois essa terra que pisamos é sagrada.

Revolucionário: Não, vamos tirar a roupa toda. Afinal, foi assim que nascemos.

A mística e a revolução tiveram então um filho, que não pôde ser batizado nem ter nome: chamou-se simplesmente homem-novo, embora fosse mulher.