quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Trabalho escravo? Sim, sabemos o que é...

Post a pedido de Jader Resende, que postou em seu blog um texto chamado "Você sabe o que é trabalho escravo". Li o texto e comentei "Sim, eu sei o que é!".
Pensei em chamar de "Trabalho escravo, quase um conto", mas achei mais apropriado "Trabalho escravo? Sim, sabemos o que é...". Segue o texto!





Ele não tinha mais que 5 anos. Tinha quatro irmãos mais velhos e dois mais jovens, a menor recém nascida teve meningite e necessitava de cuidados especiais. O pai havia seguia seu rumo, a mãe trabalhava, assim como as crianças mais velhas. Os menores cuidavam uns dos outros.

Alguém sugeriu que se levasse o negrinho pra uma família da ‘colônia’, onde ele não passaria fome, estudaria e teria um futuro. Assim se foi.

Na casa viviam um casal de idosos, de origem alemã. Lá também vivia uma preta velha, que foi pra esta casa ainda menina, cresceu, jamais aprendeu a ler ou casou-se. Deveria ter seus 60 anos.

O guri ajudava nas lidas domésticas, cuidava da criação, fazia serviços de manutenção da casa de das terras. Dormia ao lado do fogão a lenha, num amontoado de panos. Freqüentava a escola quando podia, quando não tinha serviço. Em todo o período onde passou naquele lugar, foi à escola não mais de três ou quatro vezes. Mas sim, comia bem! Dormia em uma cozinha e vivia no campo. Lá, fome ele não passou. Foi a única promessa cumprida.

Conta, que certo inverno, saiu a cavalo abaixo de geada para buscar o gado. Na volta, passou passando por uma sanga que estava com a superfície congelada, ficou preso. E lá teve hipotermia. Foi encontrado não sabe por quem, mas ficou dias ‘de cama’, ao lado do fogão. Quem cuidou dele foi a criada, que como ele não tinha mais ninguém.

Tinha um cachorro – o Bulita - que era o seu companheiro, seu único amigo. Como toda criança, era um moleque. Queria brincar, aprontava, fugia... e sempre apanhava dos donos da casa. Apanhava mais que o Bulita!

Com 11 anos, sua mãe foi lhe visitar. E o guri já nem lembrava mais dela, não sabia como era ter uma mãe ou irmãos. Estava acostumado com a vida que levava. Trabalhar na casa, na fazenda, brincar com o Bulita, comer, apanhar... Mas a mãe, quando lhe havia enviado a casa, havia a promessa de que seriam uma família para ele, que ele teria tudo que precisasse, que estudaria. Penso que seria uma oportunidade de um a menos passar fome. Mas percebeu que estava errada.

Quando a mãe pediu para levar o guri, a ‘família’ resistiu, não queriam que ele voltasse para casa para morrer de fome com os irmãos, pois lá ele era bem cuidado – segundo eles. E o negrinho que não ousasse dizer o contrário! Ele era importante, pois a criada já era idosa e não tinha a força e a vitalidade do guri... ele era útil e barato, não queriam se desfazer dele.

Mas a mãe o levou.

Voltou ao seu circulo familiar original, e a muito custo de adaptou, pois a família era grande. Conheceu novamente seus irmãos, encontrou tios e tias, conheceu o padrasto e retomou o convívio com seu pai, que morava nas proximidades.

Foi para a escola, onde ficou por três anos na primeira série. Era maior que os colegas, trabalhava e não se interessava pela escola. Mas foi minimamente alfabetizado. Foi para o mercado de trabalho, primeiro como ambulante, e com 14 anos assinou a carteira pra trabalhar em fábrica. Aos 15 perdeu o pai, em razão da tuberculose e, aos 17 a mãe, assassinada por um dos genros. Com isso, saiu da sua cidade e foi morar em uma vizinha, onde conheceu sua futura esposa. Aos 21 se casou, teve filhos e seguiu a sua vida.

A pouco tempo, descobriu um dos netos dos velhos, um veterinário da região. Então o ‘guri’ foi procurá-lo. O homem ficou muito surpreso ao ver o guri homem feito, bem vestido e com uma vida estruturada, mas teve medo também, que aquele homem quisesse dinheiro ou ‘alguma coisa’ na justiça. Na realidade, ele só queria olhar no olho daquela pessoas que disseram que ele morreria de fome, para dizer que ele estava ali, e que não havia esquecido. Que jamais esqueceria.

Quarenta anos se passaram, e a terceira geração daquela família sabe o que fez.

Nós também sabemos o que eles fizeram pra aquele negrinho, que até hoje, traz marcas do período onde viveu naquela fazenda, como ‘filho de criação’ daquela gente.

O negrinho da história é o meu pai. Hoje ele tem 51 anos.

Não concluiu a escola e trabalhou por anos, como um animal. Junto com a minha mãe, nos criaram para sermos pessoas de bem. Ensinaram-nos que precisávamos lutar por aquilo que é correto e justo.

Quem sente na pele, sabe porque é preciso lutar. Diariamente.



Por MARIA, L.P.

2 comentários:

  1. Cara amiga.
    Obrigado pela belíssima surpresa, muito bem colocado diante de uma situação criminosa existente em nossa sociedade, basta olhar pros lados e veremos uma empregada negra, velhinha sendo muito paparicadas. Ela cuidou dos patroes, de seus filhos, dos netos, nunca teve namorado, não conhece sua família, não sabe ler e ainda faz orações para o bem estar daquela família branca que sempre foi seu mundo.

    Parabéns
    Abraços

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  2. Obrigada Jader,
    Mas o mais triste é que ainda temos muitas histórias assim para contar...

    Grande abraço!

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