segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Então, as chuvas

Neste fim de semana evitei (mais que o normal) de assistir televisão.
Minha família normalmente fica muito agitada ao ver imagens de enchentes, então evitamos assistir isso na televisão. Claro que acompanho as notícias, mas as imagens, prefiro sinceramente evitar.

Mas o que acontece nesse tipo de situações, é que todos são iguais nas tragédias. Preto e branco, rico e pobre, homo e hetero... como diria Rita Lee 'tudo vira bosta'.
De forma alguma, me agrade ver isso, mas me questiono se é necessária a tragédia para que as pessoas se deem conta que são igualmente atingiveis e vuleráveis. Isso é tão triste.
Certa vez, na enchente de maio de 2008 (lembro bem daqueles dias) que o Rio dos Sinos adentrou a casa da minha família e da minha vizinhança, fiquei alguns dias sem ir par a universidade. Retornei, quando estavamos ficando na casa de uma tia, minha mãe e eu. Na época, eu ia de van para a aula, em razão da distância e dificuldades de ir de ônibus a noite de extremos de uma cidade a outra. Quando voltei a frequentar as aulas, os colegas mais próximos, que sabiam o motivo da minha ausência, perguntaram como estava a situação. Entretando, como sabemos muitas dos sujeitos que usam van para a universidade são projetos de uma classe média ascendente e, esses sujeitos ao passar pela ponte sobre o Rio, podendo observar uma minúscula parcela do estrago causado pela violência das águas riam 'esses miseráveis tem mais que morrer, ninguém mandou morar na beira do rio e debaixo da ponte'. Certamente, depois daquele dia passei a destestar os colegas de van. Além de ter que enfrentar a estrada todos os dias, ter que ouvir m** de energumenos que não tem a menor noção de realidade... enfim.
O caso, é que ninguém escolhe morar em local de risco ou embaixo da ponte. Mas o fato é que a população, em geral não tem idéia do que é um local de risco. Vi, muitas pessoas que não tinham nada, perderam absolutamente tudo, inclusive a dignidade numa enchente. Mas também vi muitas pessoas teoricamente inatingíveis, sofrerem com os mesmos prejuízos financeiros e morais que o pessoal da beira do rio. Claro, que para estes se reestabelecer vai ser mais fácil, como foi para a minha família, comparando a tantas outras que antes de recuperar as suas coisas, foram atingidos novamente. Diferentemente que do Rio, onde os menos atingidos perderam as suas casas, quando os mais atingidos perderam as suas vidas.
Mas o que me motivou a escrever sobre as enchentes, é que assim como a minha vila foi capa de jornais, sendo insclusive sobrevoada pelos câmeras da RBS e da GLOBO, enquanto estávamos embaixo d'água, éramos notícia. Assim, como foi em Santa Catarina, em São Paulo, em Minas, e agora no Rio. Mas assim que a água escoa e a população retoma a sua vida cotidiana, volta a ser esquecida, até o próximo desastre.
Toda a discussão de prevenção contra enchentes, sugerida pela Defesa Civil, em 2008 foi arquivada, por não se nenhuma emergência.
Creio que toda esta tragédia demore a ser esquecida. Mas espero que as pessoas não tornem a lembrar disso somente quando sentirem a água nos seus tornozelos.


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Por MARIA, L.P.

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