sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Felicidade

Queridos amigos, leitores, conhecidos, curiosos...

Em primeiro lugar, gostaria de compartilhar que fui aprovada no Mestrado em Ciências Sociais.
Estou numa alegria inenarrável. Indescritível.
Quem acompanha este blog, sabe que este ano iniciei de forma muito revoltada, devido aos acontecimentos com a minha mãe no hospital. Passamos alguns perrengues em família, enfim, a virada de ano 2010/2011 foi complicada...

Mas eu sabia que 2011 prometia.

Durante muito tempo, a universidade foi um sonho distante, inalcansável, impagável. Mas com o tempo, ingressei e fui me inserindo no universo acadêmico e descobri o quanto isso tudo me atraía. Recentemente, me formei em História. A formatura para mim foi a realização de um sonho... cheguei onde muitos não acreditaram que eu chegaria.  Logo depois da formatura, comprei minha moto (*-*) e realizei outro sonho, que a universidade paga não me permitia realizar até então.
Depois da formatura, resolvi tentar o mestrado. Mas naquelas, pra ver como é... como experiência. Se não passasse, eu ia tentar no ano seguinte na federal (depois de melhorar meu inglês), e/ou ia tentar reingresso em Ciências Sociais - graduação - na federal.

Alguém me disse que eu podia. Que eu tinha um bom currículo e um bom projeto. Que eu não devia subestimar a mim mesma. E foi o que fiz.
Hoje recebi a notícia que recebi uma bolsa integral de mestrado. Eram duas bolsas (para o 1º e 2º colocado). Ou seja, acho que fui melhor do que eu pensava que pudesse... (Ouvi algém dizer que uma menina negra da história tinha ficado em primeiro lugar... mas isso são apenas boatos!)

A felicidade que sinto é imensa.

Sei quantos torceram a favor, mas também sei que foram vários torcendo contra.
Está é uma conquista minha, do meu esforço e dedicação aos meus sonhos e àquilo em que acredito. É também uma conquista daqueles que acreditam e confiam em mim. É uma conquista dos meus ancestrais, que nunca tiveram oportunidades como as que tive.
Enfim, quero compartilhar a felicidade desta conquista.



Encerro 2011 com a realização de muitos sonhos!

Boas festas! Feliz 2012!
Por MARIA.L.P.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Gentileza e garantia de direitos são coisas diferentes

Adorei este texto, que achei nas Blogueiras Feministas.
Me fez lembrar de algumas pessoas do meu convívio que não se acham machistas. Mas por não terem clareza do que é o feminismo, alimentam um forte preconceito por ele. Acham que o homem 'precisa ser cavalheiro', e que o feminismo fere a cordialidade masculina. Eu concordo que é bacana conviver com homens gentis e cavalheiros, mas gentileza e garantia de direitos são coisas muito diferentes, ambas são necessárias, mas uma não substitiu a outra.

Por MARIA,L.P.




Receber gentilezas é bom, mas possuir direitos é melhor!


Muita gente acredita que feminista é aquela mulher que não aceita qualquer gentileza advinda do sexo oposto, por considerá-la uma ofensa à sua condição social, mas que, por sua vez, não perde oportunidades de se vitimizar no momento de exigir leis. Por que exigimos leis, ao invés de nos contentarmos com as supostas gentilezas?


As gentilezas, quando bem empregadas, tornam o convívio mais ameno e, geralmente, atuam como um sinal de que um sujeito está preocupado com o bem-estar de outro(s). Pessoalmente, acredito que tornar-se um ser humano mais gentil é um exercício bastante árduo, que podemos e devemos desenvolver. Demanda atenção às necessidades daqueles que nos cercam e disposição para nos mobilizarmos em prol de um bem-estar que não nos atingirá diretamente. Logo, a gentileza indica um caráter mais altruísta, o que é sempre bem-vindo no mundo.


Na comunicação, uma forma de gentileza seria, por exemplo, não assaltar o turno do interlocutor, ou seja, deixar o outro terminar sua fala para, então, posicionar-se. Isso torna a comunicação menos ruidosa, portanto, mais eficaz. No dia a dia, não precisamos seguir manuais de etiqueta para sabermos que o ideal é jamais tentar furar filas, não empurrar as pessoas para ser o primeiro a entrar no vagão do metrô, dar passagem no trânsito, e assim sucessivamente.


Na minha opinião, praticar a gentileza deveria ser encarado como um exercício de respeito mútuo e percepção social. Seria ótimo se todos nós fôssemos capazes de compreender e colocar em prática algumas gentilezas para com aqueles que nos cercam no cotidiano, sejam essas pessoas homens ou mulheres, idosos ou crianças, deficientes ou não. Porque, na verdade, a gentileza deveria caracterizar quem a exerce e não para quem ela é voltada. No entanto, a realidade é que nem todas as pessoas preocupam-se em ser socialmente conscientes. Nem todos enxergam o valor de se tornar uma pessoa mais gentil e por isso, as leis se mostram fundamentais.


Por que gestantes precisam de assentos reservados em transportes públicos e de filas diferenciadas? Isso se faz necessário porque a resistência física de uma gestante não é similar a de mulheres e homens em condições não-excepcionais. Um “encontrão” para uma gestante pode significar a perda do feto. Marcar esse direito não significa oferecer privilégios, mas assegurar que essa mulher receba aquilo que poderia vir como uma gentileza por parte de pessoas com o mínimo de bom senso. Mas, caso a gentileza não se apresente, que a lei se faça valer. O mesmo poderia ser ponderado com relação às leis que punem violências contra a mulher. O idealíssimo seria que pessoas, homens ou mulheres, evitassem se agredir mutuamente sob qualquer aspecto; o ideal seria que homens percebessem que sua força física costuma ser superior a de mulheres, em condições normais, por isso que eles jamais ousassem cometer a covardia de agredir uma mulher. No entanto, a realidade pode diferir disso. Homens espancam mulheres, diariamente, e vários não encerram as sucessivas agressões até que algum mecanismo penal os faça parar ou a vítima venha a óbito. Dessa forma, exigir que leis capazes de intervir sejam promulgadas é um direito do qual não podemos abrir mão.
[Crane - La Belle Dame Sans Merci]




Por outro lado, apoiar leis que beneficiem, principalmente, mulheres pode ser encarado como um grande gesto de gentileza, que muitos homens fazem questão de realizar. Tais atitudes são as que nós, feministas, gostaríamos de enxergar para a construção de um mundo mais democrático. De fato, não precisamos de Lords em seus cavalos brancos, mas seria agradável contar com homens mais gentis, caminhando lado a lado, dividindo as contas e, sobretudo, as responsabilidades sociais.




Por fim, proponho que reflitamos quais gentilezas, realmente, constroem uma sociedade mais altruísta e, feito isso, que invistamos maiores esforços em praticá-las!


Texto de Talita R da Silva
Disponivel em http://blogueirasfeministas.com/2011/12/receber-gentilezas/

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Se alguém perguntar por mim...

Tô me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém.
Tô me aproximando de tudo que me faz completo, me faz feliz e que me quer bem.
Tô aproveitando tudo de bom que essa nossa vida tem.
Tô me dedicando de verdade pra agradar um outro alguém.
Tô trazendo pra perto de mim quem eu gosto e quem gosta de mim também.

Ultimamente eu só tô querendo ver o ‘bom’ que todo mundo tem.
Relaxa, respira, se irritar é bom pra quem?
Supera, suporta, entenda: isento de problemas eu não conheço ninguém.
Queira viver, viver melhor, viver sorrindo e até os cem.

Tô feliz, to despreocupado, com a vida eu to de bem.



Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Another Brick In The Wall

Li esse texto pela primeira vez, ainda no magistério.
Achei muito inteligente, engraçado e cruel com a realidade da nossa escola.
Sempre pensei sobre isso, mas afinal, quando vão nos ensinar coisas que realmente sejam úteis??
Boa pergunta.
Hoje percebo, a quantidade de coisas inúteis que aprendi (e a quantidade de coisas importantes que eu não aprendi na escola), como a escola e a universidade são descoladas da realidade e pior, existe um oceando entre o educando e o sistema de ensino.
Ontem, trocando uma idéia com o Jean, mais uma vez me dei conta, que somos apenas mais um tijolo na parede.


Quero o meu saco de volta! (Max Gehringer)


Por que a escola nos azucrina, ensinando coisas que jamais usaremos?

Como a maioria dos leitores desta coluna, eu também fui um dia arrancado da frente da TV e confinado, apesar de protestar inocência, em uma organização correcional chamada "escola". Essa foi a maneira de meus pais demonstrarem a que limites de crueldade poderia chegar o que eles chamaram de "preocupação com o futuro dos filhos". Mas o maior choque, mesmo, veio depois, quando eu e meus novos coleguinhas de infortúnio fomos informados de que ali, naquelas desconfortáveis carteiras, nós teríamos de passar os próximos 15 anos de nossa vida! Nunca pensei que o futuro pudesse ficar tão longe...

Meu pai bem que tentou me convencer de que haveria uma recompensa à altura para tanto sacrifício: a partir do momento em que eu botasse os pés na escola, ele disse, eu teria acesso privilegiado a informações importantíssimas - como, por exemplo, os nomes das capitanias hereditárias e de seus respectivos donatários -, sem as quais seriam mínimas as minhas chances de escapar às emboscadas do futuro.

Para minha surpresa, nem três meses se passaram e eu já dominava duas habilidades que me seriam de grande utilidade pela vida afora: ler e escrever. Foi aí que eu comecei a desconfiar que todas as outras picuinhas que compõem o dito "cabedal de conhecimento"...

1. Estariam disponíveis em algum lugar, desde que a gente soubesse ler.
2. Poderiam ser terceirizadas, desde que a gente pudesse pagar.
3. Não interessavam.

Convicto de que já sabia o suficiente, decidi voltar para casa e me dedicar a coisas de pertinente interesse, como passar o dia jogando bola e devorando salgadinhos. Ledo engano: meus pais ficaram uma arara (digo, duas araras) e me mandaram de volta. Tal reação intempestiva me levou a desconfiar que eles até já haviam feito um acordo secreto com as escolas, pelo qual eu ficaria enclausurado por mais 14 anos e 9 meses, tempo suficiente para a prática dos papai-e-mamãe matinais sem um enxerido como eu por perto.

Voltei a contragosto mas, verdade seja dita, devo reconhecer que as escolas empregaram a nata de sua criatividade para conseguir me manter ocupado por tanto tempo. Foi o caso das aulas de português, que me davam a impressão de estar no pronto-socorro de um hospital: "Isso é um anacoluto ou uma catacrese? - a professora me perguntava. Eu sei lá, mas, por via das dúvidas, sugeria que ela amputasse a mesóclise para evitar uma cacofonia mais séria.

Matemática foi outra matéria que transmitiu ensinamentos vitais para minha futura carreira profissional, como a extração sem dor da raiz quadrada - Eu era meio ruim de conta, mas quando estava na terceira série, às voltas com uma tabuada e questões de crucial importância ("Joaquim tinha 18 bananas: deu um terço delas para Marta e metade da diferença para Beatriz..."), caiu-me nas mãos um prodígio tecnológico: a calculadora. Com ela, nunca mais os joaquins teriam dificuldades para repartir suas bananas - mas o que foi que a escola fez? Proibiu o uso das calculadoras na classe! Porque, por uma lógica pedagógica além da minha compreensão, se eu tivesse uma calculadora para facilitar minha vida, eu "ficaria preguiçoso, e isso iria prejudicar o meu futuro".
Apesar dos pesares. conclui minha formação básica e já estava para encarar uma "facu" - ou seja, faltavam apenas quatro anos para eu terminar de cumprir minha pena e ser solto no mercado de trabalho - quando fui informado de que, no futuro, nada era assim tão simples. Eu antes precisaria fazer um cursinho, porque as coisas que seriam perguntadas no vestibular não eram exatamente as que eu tinha aprendido nos 11 anos anteriores. Se entendi bem, nas universidades os joaquins precisavam desvendar os segredos da tábua de logaritmos para poder distribuir suas bananas. Se as bananas apodreceriam antes disso, o problemas era dos joaquins, e não do sistema educacional.
Uma coisa que me chamou a atenção no curso, por assim dizer, superior, foi que lá fora, no mundo que estavam me preparando para conquistar, começou a proliferar uma engenhoca chamada microcomputador (com 16K de memória). Mas só lá fora, porque ali na "facu", eu desconfio, o lobby dos fabricantes de lápis e canetas ainda era muito poderoso. Quando meu professor descobriu que eu estava fazendo um curso paralelo de Lotus 1-2-3, ele ficou possesso e, como castigo, me fez resumir, em duas páginas, toda a obra de Keynes. Que, acredito, foi um cara meio prolixo, já que precisou de 300 páginas para teorizar o que eu, aparentemente, era capaz de explicar em apenas 20 parágrafos.

Quando eu finalmente pensei que seria libertado, fui comunicado de que haveria uma extensão de minha pena, um troço chamado "pós", sem o qual eu não conseguiria desembarcar no futuro. A diferença entre a "pós" e o curso de graduação foi que na "pós" eu tive de dissertar sobre a obra de Keynes numa monografia de 500 páginas - o que significava que ele, além de prolixo, agora precisava de minha ajuda para explicar melhor seus conceitos econômicos.
A "pós" mudou meu status de neoprofissional do futuro, porque dali em diante eu estaria autorizado a apelidar meu período escolar de "background acadêmico", o que já me garantiu meu primeiro estágio. A empresa, uma potência, ávida por "inserir os novos talentos potenciais no ambiente participativo", me chamou para assistir uma reunião. Fiquei impressionado, porque o pessoal ali falava de coisas como "fisiologia da informatização plena" assim como quem pede um picolé de morango. E eu lá, quietinho...

Até que um diretor da empresa resolveu me "dar uma oportunidade para compartilhar a vasta teoria" que eu havia adquirido. Era a minha grande chance, mais cedo do que eu pensava, de pavimentar a estrada do meu futuro. Abri minha pasta, tirei a lista das capitanias hereditárias, uma coleção de anacolutos, a tábua de logaritmos, algumas raízes quadradas em bom estado e meu calhamaço keynesiano, e fiz aquela cara de quem havia acabado de conseguir o visto de residência permanente no futuro. E então o diretor da empresa me perguntou:
- Você considera viável desenvolvermos um software que nos permita monitorar nosso footprint de logística integrada, ou seria melhor partimos para um network online de franquias comerciais setoriais?

E eu, obviamente, do alto do meu insofismável cabedal, respondi sem hesitar:
- Veja bem, vamos supor que Joaquim tenha 18 bananas...

E nós, o que estamos fazendo???
O que estamos esperando?


Li esses dias uma sátira que comparava a escola com a cadeia.
De fato, o sitema educacional brasileiro estaá mais sucateado que o prisional (que é uma precariedade única). Mas até quando vamos tratar nossos estudantes como marginais, e permitir que nossos professores assim nos tratem?
Até quando vamos formar pobre pra ser peão, e rico pra ser chefe? Até quando vamos domesticar crianças para ser mão de obra?
Até quando?

"We don't need no education
We don't need no thought control
[...]
No! Don't think I'll need anything at all
All in all it was all just bricks in the wall.
All in all you were all just bricks in the wall."

Por MARIAL.P.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ressábios...

Quem não conhece da filosofia de andejo, deveria...


Ressábios (de Luiz Marenco)

Qualquer dia desses vou sentar a sombra
De um tarumã copado que eu mesmo plantei
Repensar a vida cuidar meus ressábios
E fazer com gosto as coisas que eu sei...

Quero ver se o tempo se acomoda um pouco
Porque falta um tempo pra eu chegar no fim
Só cuido da vida e mesmo assim me perco
O que dirão os outros que falam de mim?

Quem sabe de mim sou eu mesmo e basta
Não bebo da água onde uns lavam a alma
Nem espero as sobras pra matar minha fome
Porque faço tudo do meu jeito em calma

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Injúria e crime de racismo

Li esta reportagem, e fiquei pensando sobre ela.

Professora de Mogi das Cruzes detida por racismo

Uma professora de Mogi das Cruzes vai responder a um processo por injúria racial. Testemunhas a viram acusando uma aposentada de ter roubado o carro dela, no fim da tarde de segunda-feira (21), na região central.
A discussão começou quando Sandra Aparecida dos Santos, de 58 anos, chegava ao próprio carro, que estava estacionado. Ela contou que viu a acusada fotografar o veículo e foi questionar o motivo. A agressora, a professora de artes Iracema Cristina Nakano, teria dito que o carro era dela, mas tinha sido roubado, e que uma negra não poderia ter um veículo como aquele.
Várias testemunhas viram a discussão e chamaram a Polícia Militar. A suspeita nega ter feito comentários racistas. Ela diz que desconfiou que o carro era dela porque tinha um parecido e foi roubada, mas que abordou a aposentada com educação.
A professora recebeu voz de prisão por causa da injuria racial, mas pagou a fiança de 545 reais e foi liberada para responder ao processo em liberdade.

Fonte: TV Diário 

A pessoa foi autuada por racismo, haviam testemunhas, mas o registro foi de injúria, caso onde pagando fiança, se responde em liberdade.

O que diz a lei sobre isso:

LEI Nº 7.716, DE 5 DE JANEIRO DE 1989 (Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor)
Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)
Pena: reclusão de dois a cinco anos

Na constituição brasileira:

Constituição Federal de 1988 - Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos
Art. 5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XLII - a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei

Logo, a lei não está sendo aplicada. Certo?
Nesses momentos me bate um profundo conflito pessoal, pois penso em nossa atuação militante. Trabalhamos inesgotavelmente, pra isso? O Estado institui políticas reparadoras de ação afirmativas para a comunidade negra, e dessa forma combate o racismo?

Fico muito sentida com notícias desse tipo.

Conheço uma porção de pessoas que processou lojas e estabelecimentos comerciais e recebeu retratação (indenização), mas se o racismo é considerado crime, porque ninguém responde juridicamente como reza a lei?
Outra coisa que me faz pensar muito seriamente, é ‘e se fosse eu’ (ou um dos meus), o que faríamos, como seria?
Queremos políticas que garantam e assegurem igualdade a todos, mas também queremos que o judiciário esteja atento e faça cumprir as punições.

Afinal, se 'neguinho apronta', ninguém pergunta antes de prender, não é mesmo?? Porque quando a vítima é o 'neguinho', as coisas não acontecem assim??
Mais atenção, Justiça!

Por MARIA, L.P.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Hoje no ônibus vi um menina com uma camiseta escrita ‘Chê vive!’

Hoje no ônibus vi um menina com uma camiseta escrita ‘Chê vive!’
Achei muito bonito.
Para a maioria das pessoas, isso não significa nada, mas para mim foi de profunda inspiração este encontro.

Em primeiro lugar, acho que vestir uma camiseta com um rosto ou frase precisa ter um sentido, de ‘vestir a camiseta’, com a idéia de que se concorda com a causa, que se acredita nisso tudo (se bem que a maioria das pessoas não pensa sobre isso).

Mas também não se há tanta necessidade assim do sujeito teoricizar tudo. Há alguns dias, discutíamos a necessidade do sujeito ter formação, dentro de um partido político. Quando um trabalhador e/ou estudante ingressa em um movimento social, partido político ou qualquer movimento que tenha uma ideologia bastante definida, ele precisa saber onde está, mas não acredito que ele tenha obrigação de saber toda a teoria para tal. É claro, que alguns princípios básicos são necessários, por exemplo, não posso ingressar em um movimento de mulheres, se penso que a mulher deve de fato obedecer ao marido, porque o verdadeiro motivo da perda dos valores da nossa sociedade é por casa do declínio da sociedade patriarcal (sim, já ouvi isso). Mas também não posso barrar o sujeito por não ter lido O Capital, dá pra entender?

Parto do principio, de que “Se você treme de indignação perante uma injustiça, então somos companheiros” (parafraseando o Che).

Acredito que uma formação política é necessária urgentemente para todos nós (sim, me incluo no rol dos necessitados de formação intelectual política). Acho bonito ver um adolescente com o Che no peito, mas ele precisa saber que foi este cara e o que ele fez, para poder dizer que ‘Che vive’. Tenho certeza que “Che vive” sempre que alguém torna o pensamento dele vivo. Assim, como Paulo Freire é presente quando tornamos reais as suas idéias e falas.

Mas devemos ter muito cuidado. Pois Hitler também vive, e não apenas em camisetas com suásticas estampadas. Ele vive sempre que idéias como as dele são disseminadas e aclamadas, e isso acontece muito. Muito mais vezes que um adolescente veste o Che.

Precisamos de formação política sim. Não para o partido ‘x’ ou ‘y’, mas para a sociedade. Precisamos urgentemente de formação, pois a necessidade de gente para discutir e para construir mudança é absurda. Claro que queremos militantes ao nosso lado, mas precisamos de muita gente, para militar pela nossa sociedade, e não em benefício próprio, para isso já basta a lógica do capitalismo.

Precisamos de mudanças, de revolução. Precisamos ter certeza de que Che vive, não só em camisetas e panfletos por ai, mas que ele vive como espírito revolucionário, de mudança, no projeto de uma sociedade mais justa onde todos terão acesso a educação, saúde e liberdade de viver em paz, e de ser quem realmente se é.

Por MARIA,L.P.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Utopia

A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.



Eduardo Galeano

domingo, 20 de novembro de 2011

Dias de Consciência, dias de Luta!

Mais um vinte de novembro, e inúmeras questões entram pauta. Ao participar de diferentes atividades sobre a Lei 10.639/03m inclusive ministrando atividades de promoção da reflexão sobre a Consciência Negra, quando discuto a lei e as políticas de ações afirmativas, me ponho a pensar sobre como a nossa luta é dura e continua.

Lutamos por reconhecimento do nosso povo, ultrapassando as barreiras do preconceito e discriminação nas diferentes esferas das nossas vidas, seja social, profissional, acadêmica, nos grupos de convivência, seja nas nossas relações mais pessoais. Lutamos pelo reconhecimento da nossa historia, considerando o 20 de novembro como uma data chave, importantíssima à nossa militância, reconhecendo de fato a luta e o valor do povo negro.
Assim como em Palmares, queremos o reconhecimento de Porongos, onde nossos antepassados lanceiros foram assassinados ao lutar por uma causa que não era sua, mas queriam em troca apenas a sua liberdade.

Lutamos também por uma educação básica de qualidade para nossas crianças, onde elas possam se olhadas como são, reconhecidas pelos seus conhecimentos e bagagem cultural, onde a legislação não precise obrigar a escola a integrar a criança negra e a sua historiografia, mas que essa mesma legislação seja assimilada naturalmente, tornando a Educação das Relações Étnico-Raciais uma feliz realidade nas nossas escolas.

Lutamos ainda pelo respeito a diversidade religiosa, onde a maioria dos nossas acaba se escondendo atrás de práticas religiosas extra-oficiais, ou discretas – se assim podemos chamar – em razão da opressão de uma maioria esmagadora.
Muito além disso, lutamos por espaços de visibilidade e reconhecimento, junto aos movimentos sociais, na luta pela garantia dos direitos das minorias. Lutamos também por um feminismo mais negro, onde as mulheres mostrem plenamente a sua autonomia, mas, sobretudo, por espaços onde a mulher negra tenha visibilidade, sendo realmente vista e representada pelo feminismo. Outras bandeiras de militância, tais quais a luta contra a homofobia e as diferentes formas de discriminação, também são fundamentais. Entretanto, não podemos em hipótese alguma usar o discurso hipócrita de que todos são discriminados por algum motivo, para deixar de discutir o racismo e a causa do negro. Precisamos articular nossas bandeiras de militância, para que estas nossas diferentes lutas se somem, se encontrem e se complete,
É por isso que lutamos, não apenas no mês de novembro. Lutamos por todo o ano, todos os dias, a vida toda... por consciência negra e por uma sociedade que reconheça todas as suas peculiaridades e problemáticas, respeitar as diferenças e assumir indenidades.
Essa é a nossa luta - UBUNTU!

Texto de Letícia Pereira Maria - http://letthyssia.blogspot.com/
Historiadora - Novo Hamburgo/RS
Militante do Movimento Contestação
Disponível em http://movimentocontestacao.blogspot.com/2011/11/dias-de-consciencia-dias-de-luta.html

Por MARIA,L.P.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto

"Enquanto pessoas perguntam por que, outras pessoas perguntam por que não?






Até porque não acredito no que é dito, no que é visto.

Acesso é poder e o poder é a informação.

Qualquer palavra satisfaz. A garota, o rapaz e a paz quem traz, tanto faz.
O valor é temporário, o amor imaginário e a festa é um perjúrio.
Um minuto de silêncio é um minuto reservado de murmúrio, de anestesia.
O sistema é nervoso e te acalma com a programação do dia, com a narrativa.
A vida ingrata de quem acha que é notícia, de quem acha que é momento,
na tua tela querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela
que não tem gesto,

quem tem medo assimila toda forma de expressão como protesto!






Falou e disse..."

(Xanéu Nº9 - O Teatro Mágico)

Preciso dizer mais?
... 'é, falou e disse!'


terça-feira, 8 de novembro de 2011

São Longuinho, me fale, me dê um sinal...

Encontrei hoje no Twiiter  o link deste clip. Achei bonito, simples e doce... e além disso, diz muito.

Podem se deliciar a vontade!

'São Longuinho, me fale, me dê um sinal...'

O que se perde enquanto os olhos piscam - O teatro mágico



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Quem é feio, quem é bela?

Hoje, replico este texto "Quem é feio, quem é bela", do blog da Lola. Já havia postado algo sobre o assunto, do mesmo blog "Verão como somos lindas" e "O racismo de todos os dias".  Na ocasião desta última postagem "questionei "quando não te acham bonita, ou quando não te acham bonita porque você é negra. Como saber?", e recebi alguns comentários criticando.
O que coloco em questão, é o padrão de beleza. O que consideramos bonito e/ou feio? E o que nós temos por quesito para fazer essa diferenciação.
Considero o texto da Lola muito bem escrito, realista e apropriado (como de costume). Desejo a todos uma boa leitura e uma boa reflexão sobre o tema!
 
Por MARIA,L.P.



 
QUEM É FEIO, QUEM É BELA




Somália, jogador de futebol brasileiro. Vc acha que ele está na lista dos belos ou feios?



Há várias listas das musas do Pan de Guadalajara, como acontece sempre em qualquer esporte feminino. A mídia dá um enfoque na beleza e sexualidade das atletas, em vez de no seu desempenho esportivo.





O UOL fez uma seleção com 58 fotos, dentre as quais está esta, da saltadora Juliana Veloso, e esta, da jogadora de vôlei de praia Larissa. Cara pra quê, né? Sexismo da grossa mesmo. Típico. Não muda nunca.




Já falei dessa objetificação das atletas várias vezes, e não é disso que quero falar no momento. Portanto, escolhi esta lista do R7 das mais belas brasileiras do Pan. Há doze fotos, entre elas a de Flavia Delarolli, da natação.



A goleira Thaís Picarte, que deve ser a única loira da seleção brasileiras de futebol (que é a modalidade que enfrenta os maiores preconceitos, pois no Brasil considera-se que futebol é coisa de macho; logo, mulher que joga futebol é macha -– leia-se lésbica. Além do mais, cansei de ouvir o quanto as jogadoras brasileiras de futebol são horrorosas. Nada a ver com a cor da maioria, decerto), é uma das dez.




Bom, esses dias a UOL fez sua própria lista, esta com os jogadores mais feios do futebol, que são chamados de monstros. A foto que abre a matéria é do Cortês (não sei o time de nenhum, e a matéria não diz).



Este abaixo é o Tinga.


Já acho a maior sacanagem fazer uma matéria assim. Qual o propósito de chamar alguém de feio? Eles estão concorrendo a algum título de Mr. Universo? E a beleza não é nem um tiquinho relativa não?


Este cara simpático e sorridente aí ao lado, por exemplo, é chamado de monstro. Realmente monstruoso o Andrezinho! Nossa, que horror! Só pode ser pela cor... da camisa dele.


Pois é, dessa lista dos monstros, quantos dos 23 escolhidos são brancos? Sete? Oito? Os outros são todos negros ou mulatos, de preferência com aquele cabelo ruim que é ruim exatamente por quê? Pra quem?


Da lista das belas do R7, quantas beldades são não-brancas? Uma? Duas? Três?


Temos uma mídia que prepara matérias assim a toda hora pra nos ditar quem deve ser considerado feio, e quem deve ser considerada bonita. O fato de fazerem matéria de mais feio já tem um caráter subliminar: mostrar que beleza não é nada importante quando estamos falando de homem. Pra mulher beleza é tudo, lógico. Fundamental, meu caro Vinicius. Mas os jogadores não precisam se ofender -– eles estão lá pra jogar futebol, e é isso que o público predominantemente masculino vai cobrar deles.


Eu não acho que a mídia que bola essas seleções cretinas seja conscientemente racista. Não acho que alguma equipe de jornalistas se reuniu pensando: “Vamos mostrar ao mundo que o único padrão de beleza aceito é o ariano”. A mídia reflete os preconceitos da sociedade, e não tem como negar: nós somos incrivelmente, vergonhosamente, muito incomodamente, racistas. Racistas e com a autoestima lá embaixo, pois só consideramos belo um ideal nórdico, que representa uma minoria entre nós. Privilegiamos tudo que não somos. Não é à toa que Gisele seja nosso símbolo, nossa maior representante.


No último Miss Brasil não havia uma só candidata negra. Lembrando: é Miss Brasil, país mais miscigenado do mundo, não Miss Suíça ou Miss Noruega (opa! Suíça e Noruega escolheram misses negras!). Que impressão isso passa? Que só brancas podem ser bonitas. Que negras são automaticamente feias, excluídas, e vai arrumar esse cabelo, menina!


Mas o bom é que a gente não precisa assumir que é racista. Nada disso! Quem gosta de ser chamado de racista? Ninguém! É até crime! Então a saída é apelar pro velho e bom... gosto pessoal! Então. Não é que negros sejam monstros, e loiras sejam musas. Não há conspiração nenhuma, imagina! A mídia não nos afeta em nada! Achar que negro é feio? Que cabelo bom é cabelo liso? Ah, é só o meu gosto pessoal!


Disponivel em http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/11/quem-e-feio-quem-e-bela.html


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O nosso holocausto e o cortiço

Estava fazendo uma limpa no computador do trabalho, e reencontrei este texto.
No intuito de compartilhar, posto para que possamos pensar com seriedade sobre a nossa história e olhar criticamente sobre nossas atitudes. Considero que nem tudo é história, mas sobre tudo ela têm influência.
Fiquem com "O cortiço" da coluna de David Coimbra.

Por MARIA,L.P.



O cortiço


 Ao caminhar por entre as artérias do Monumento ao Holocausto, no coração de Berlim, a cada passo aumentava minha admiração pelos alemães. Ali estava um povo que não se esquivava de suas culpas. Ao contrário, as purgava em público e em voz alta.


Os mesmos passos me faziam pensar nos brasileiros. Nós aqui, ao que parece, não nos aflige culpa alguma. Do que o brasileiro se envergonha, afora a derrota na Copa de 50? Pois é. Mas nós temos do que nos envergonhar. Temos também o nosso nazismo. O nosso holocausto. Chama-se escravidão.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, mas nem ao aboli-la lavou-se de sua desonra. Agora mesmo, no Rio de Janeiro flagelado, lateja essa dor. Pois quem são esses que morrem sufocados pela terra que se desprende dos morros cariocas? Descendentes de escravos e ex-escravos expulsos do Centro quando o Rio se transformou no que hoje é.

Você leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Bom livro. Não devia ser obrigatório nas escolas, devia ser tratado como romance para iniciados. O Cortiço conta a história de um imigrante português que, como se dizia então, “amasiou-se” com uma escrava para somar suas economias às dela. Juntos, os dois e seus dinheiros, melhoraram a bodega dele e investiram em quartos de aluguel. Montaram um cortiço aos moldes de tantos que havia no Rio do século 19, o mais célebre deles chamado Cabeça de Porco, de propriedade do Conde D’Eu, ilustre marido da Princesa Isabel. O que não deixa de ser irônico – entre os 4 mil moradores do cortiço do marido, havia inúmeros ex-escravos libertados pela esposa.


Essa gente não teve mais onde morar a partir do começo do século 20, quando a prefeitura do Rio botou abaixo os cortiços. O prefeito Pereira Passos, inspirado nas reformas feitas em Paris décadas antes, rasgou avenidas, abriu largos arejados, mudou a face da cidade. Os moradores dos cortiços, muitos deles, foram para a zona norte. Outros, que precisavam morar perto do Centro, onde trabalhavam para os senhores brancos e bem alimentados, esses ficaram por perto: subiram os morros do entorno, construíram casebres com as sobras das demolições protagonizadas por Pereira Passos, formaram as favelas como as conhecemos.


Essa gente pingente das favelas não foi libertada da escravidão; foi atirada à liberdade. Para eles, nunca houve planejamento, muito menos investimento. Hoje, Lula dá certa atenção a esses desgraçados. Não é o ideal, claro que não. Porque não é uma ajuda estratégica; é uma ajuda tática. Mas, ao menos, é algo. Para quem não tinha nada, talvez seja muito. Por isso, Lula foi amassado pela vaia do Maracanã, na abertura do Pan em 2007. Vaiaram-lhe os brancos e bem alimentados, os moradores da planície, que olham para o alto, para o morro, com medo.


Hoje, os brancos e bem alimentados da planície olham de novo para o morro. Aquela gente parda, aquela gente que passa os dias de bermuda e sem camisa, que mora em barracos construídos com pedaços de qualquer coisa, aquela gente teima em chamar a atenção. Às vezes roubando, às vezes matando e às vezes, como agora, morrendo. Inconvenientes, é o que são. Vivem a nos lembrar que em nós, também, pode haver culpa.


Texto de David Coimbra (ZH, 9 abril 2010)

domingo, 30 de outubro de 2011

Sobre relacionamentos que não vão dar certo



Mais autonomia às tuas esperanças.
Impossível marcar lugar e hora para as surpresas.
Nunca dá certo.
Receberás aquilo com que já não contas
na festa que não esperas.
(Aníbal Machado)



Ele: casa dos 30, intelectual, charmoso, gente boa. Ela: simpática, trinta, espirituosa, gente boa. Um bar, amigos comuns, uma noite de conversa. Uma balada. Contatos: FB, celular, tudo. Então: mensagens, conversas, cinema, jantar. Um encontro, outro, sexo. Mais conversa, mais comida. Tudo por melhorar, do sexo à comida, mas, ainda assim, tudo gostoso. E aí um: vamos almoçar? querendo soar despretensioso mas já soando decisivo. Ele vai, meio ansioso, a cabeça rodando com: puxa, logo agora que resolvi investir, ela é tão especial, fez eu me mexer em relação ao meu passado. Sim, o moço tem um sofrer na história. E é isso mesmo, ele acertou, ela diz: não é você, sou eu. Pensei e acho que não vai dar certo entre nós. Ela está assim, em um momento mais dela, sabe? Quer uma televisão nova, um sofá novo, ficar mais só. Ele concorda (o que mais pode fazer) e seguem, um pra cada lado que não seja ao lado do outro. Fim, né? Ele me conta. Se lamenta um pouco. Queria que tivesse dado certo.



E aí eu digo as duas coisas sobre as quais quero escrever aqui e que me definem em relacionamentos: 1) não existem pessoas especiais; 2) relacionamentos não vão dar certo. Aí acrescento que acho tão fofinho que ele é romântico e penso que vou perder um querido, mas ele fica e eu explico um pouquinho do meu pensar.

Não existem pessoas especiais, eu disse, mas poderia dizer que todos somos especiais. Cada pessoa tem, sei lá: um sotaque, um meneio, um sinalzinho, um timbre, um jeitinho que a faz especial. Que a faz amável. Que a faz única. Então, ninguém especial. O que é especial é o nosso olhar. Nosso olhar elege, diferencia, nosso olhar confere, ao que é único naquela pessoa, a qualidade de interessante, desejável (claro que a escolha não é, de todo, consciente).

Relacionamentos não vão dar certo. A idéia de que relacionamentos devem dar certo é uma forma contemporânea de dizer: finais felizes. Os finais não são felizes, alguém parte, alguém trai ou, ainda que se viva em risos por sessenta anos, alguém morre. Um final pode trazer alívio, ser triste, angustiante, libertador, indiferente, aterrorizante, mas não feliz. Pra mim, um relacionamento não pode ser pautado no futuro, pelo que ele pode vir a ser. Um relacionamento é o que ele é, o que ele está sendo. Um relacionamento não vai dar certo, ele está dando certo, agora, neste instante, ou não.

A idéia de pessoas especiais, certinhas pra gente, que fazem com que nos movamos, superemos histórias passadas e finalmente tentemos de novo eu acho bem romântica. Meu amigo é um romântico – embora se ache descolado, cínico e sei mais lá o quê que pensam os moços bonitos de fala mansa. Essa idéia, penso, além de romântica, é, também, uma perda de tempo. Ele diz: ela fez eu me mover, eu superar. Eu digo: você perdeu um monte de bonde, amigo. A nossa felicidade não está no outro e sim com um outro. Pra mim essa é uma diferença essencial. O que importa não sou eu, não é ele, é o processo, o que construímos, é nossa capacidade de manter o tal olhar na ativa.

A idéia de que um relacionamento deva ter uma perspectiva ideal de futuro, é – penso - romântica, achei a moça da história também bem romântica, embora se ache descolada, cínica e sei lá mais o quê que pensam as moças bonitas de fala segura. Ela, como ele, tem a idéia de que deve estar “pronta” para quando O relacionamento chegar. Que há um momento certo para o querer bem que não é um momento qualquer, tipo quando se precisa fazer as unhas ou se quer comprar um sofá. E a vida sendo, pondero, justamente, o miúdo.

(pausa pra sabedoria do Rosa: "felicidade se acha é em horinhas de descuido")

Ah, tem mais uma coisa. Meu amigo disse, quando se lamentava: que pena que não deu certo. E eu: ué, a cerveja e a balada foram boas? Foram. O cinema? Foi bom. Os jantares? Ótimos. Sexo? Beleza. A conversa? Intensa e divertida. Então, digo eu, o que é que não deu certo? O certo é o mesmo que contínuo num relacionamento ou o certo é o mesmo que bom? Achar que tudo de bom que se viveu é “não dar certo” é também trabalhar com a idéia do que um relacionamento deveria ser e perder o que ele está sendo.

Apesar do tom pedante, quero dizer que isso tudo não é só o que penso, é o que vivo. Eu considero que todos os meus relacionamentos deram certo. Porque em todos houve aquele momento em que brilha o olho e a respiração falha. E, como, pergunto, eu poderia dizer que tal beleza foi um erro? Eu não acredito em uma hora certa, em uma pessoa certa, em um local certo pra se querer bem. O meu sentir e, ainda mais, minhas relações são sem expectativas de que sejam outras coisas (não sem esperas, destaco, de encontros, de jantares, de filmes, de cervejas, de cama...). Elas apenas são o que vão sendo, o que vamos fazendo. Uma semana ou dez anos.

Então, o resumo da minha vida: vivo relacionamentos que não vão dar certo com pessoas que não são especiais, né? Ou, então, podem me chamar de Mafalda:



Um Epílogo
"Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, reescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.

Mas isso mata — pensei eu.

Sim, isso mata — respondi — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.

Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte."

fragmento de “Exercício Corporal III”, (1961–68) orginalmente publicado em “Retrato em Movimento” (1967); in Herberto Helder, “Poesia Toda 1953–1980″, Lisboa, 1981

Encontrei este fragmento aqui .
 *****
 
 
Belíssimo texto (quisera eu tê-lo escrito) originalmente disponivel em Borboletas nos Olhos

sábado, 29 de outubro de 2011

Então, disse a loucura...

Disse a loucura...

Quanto mais se é louco, mais se é feliz. Apenas a Loucura conserva a juventude e afugenta a importuna velhice. Quanto mais o homem se afasta de mim, menos goza a vida. Dona Natureza, genitora e criadora do gênero humano, tem o cuidado de em tudo deixar uma pitada de loucura. A Fortuna gosta das pessoas irrefletidas, das temerárias, daquelas que dizem habitualmente: “A sorte está lançada.” A Sabedoria torna tímidas as pessoas; encontrareis em toda parte sábios na pobreza, na fome e na miséria. Os loucos, ao contrário,nadam em dinheiro, tomam o leme do Estado e, em pouco tempo, são florescentes em todos os pontos. Só os loucos têm o privilégio de dizer a verdade que não ofende.

O louco fala loucuras; os sábios, pelo contrário, têm duas línguas: uma para dizer a verdade, outra para dizer o que é oportuno.

O que distingue o louco do sábio é que o primeiro é guiado pelas paixões, o segundo, pela razão. Existem paixões que ajudam os pilotos experientes a ganharem os portos. Quem não fugiria de um homem desses, fechado a todos os sentimentos, incapaz de uma emoção, alheio ao amor e à piedade? O amante apaixonado já não vive em si, mas inteirinho no objeto amado; quanto mais sai de si mesmo para se fundir neste objeto, mais se sente feliz. E quanto mais perfeito é o amor, mais forte e delicioso é seu tresvario. 


Elogio da Loucura –  de Erasmo de Rotterdam


Enquanto isso, estou em casa, viajando... justamente quando precisava estudar. Insanidade, minha doce e louca distração!

Por Maria, L.P.

domingo, 23 de outubro de 2011

Felicidade?

Felicidade? - de O Teatro Mágico



Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"

O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Quando as estrelas começarem a cair...

Mesmo se as estrelas

Começassem a cair
A luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
Você visse o nosso corpo
Em chamas!


Deixa, pra lá...
Quando as estrelas
Começarem a cair
Me diz, me diz
Pr'onde é
Que a gente vai fugir?



Trecho final da canção “Angra dos Reis” (Composição: Renato Russo / Renato Rocha / Marcelo Bonfá).

Gosto muito dessa canção, de 1987 (composta antes mesmo do meu nascimento). Acho que ainda estou curtindo uma certa nostalgia em ritmo dos 15 anos de morte do Renato Russo. Então, ‘pra onde a gente vai fugir’?


Por MARIA,L.P.



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia do Professor - 15.O

No sábado que passou, estive presente no 15.O, juntamente aos companheir@s do Movimento Contestação. Discutimos várias questões ligadas às revoltas populares por todo o mundo, a corrupção, a falta de investimentos em setores necessários e, uma das principais bandeiras do Movimento, os 10% do PIB para a Educação.


Vale lembrar que não consegui postar nada em alusão ao Dia do Professor, devido ao fato de estar off o fim de semana inteiro, envolvida e acampada na Praça da Matriz, em POA - no 15.O.
Nesse sentido, minha consciência me aperta. Minha formação inicial é pelo Curso Normal de Nível Médio – Magistério, e minha formação em nível superior é Licenciatura em História. Logo, ser professora é algo muito presente na minha formação intelectual e pessoal também.


No sábado, durante a atividade na Praça da Matriz, encontrei o Jonas, um colega muito querido e estudante de Pedagogia. Depois de horas papeando, comentei com ele que admirava pessoas como ele (que têm um discurso parecido com o dele), que cursavam pedagogia.


Quando entrei no magistério, em 2003, lembro-me de colegas que falavam que ingressaram no curso por gostarem de crianças. Mesmo na rebeldia dos meus 14 para 15 anos, eu sabia que não estava lá por isso. Sempre acreditei na função do professor, na educação como ferramenta de mudança. Não preciso entrar no mérito do sofrimento e castração pelo qual passei ao longo do curso, a dificuldade de adaptação foi muito grande, mas a maior dificuldade foi a relação com as colegas, sem dúvidas.


Quando entrei na universidade, a primeira cadeira pedagógica que cursei foi Profissão Docente, com a Prof. Nara Nornberg (já postei sobre ela Sobre Amar e Fomos Maus Alunos[?])Ao longo das apresentações dos colegas, lembro-me que alguém – infeliz – comentou que escolhera pedagogia porque gostava de crianças, ele a professora largou a pérola “Gosta de criança? Vai ser mãe então!”... no auge do meu primeiro dia de universidade, me senti radiante, por uma Doutora em educação entendia o meu desespero desde o inicio do magistério. A vontade que eu tive foi de levantar-me e dar um beijo na testa da Nara!! Mais tarde, como cursei outras disciplinas com ela, pude perceber que ela faz uma série de críticas a educação e a formação dos professores, mas não coloca a culpa em ninguém, ao contrário, aponta caminhos para a resolução destes problemas. Além disso, (infelizmente) nutri por muito tempo um preconceito as estudantes de pedagogia, que não tinha muita clareza dos seus motivos para serem professoras.


Ao conversar com o Jonas, fiquei muito feliz em ouvir o que o motiva a ser professor (ele pretende seguir com alfabetização), visto que são poucos os homens no curso e em sala de aula nas séries iniciais. Ele me disse ‘eu acredito na educação’. Em meio a todo aquele sentimento de revolução e insatisfação do15.O, me senti profundamente inspirada ao receber as felicitações relativas ao Dia do Professor, de alguém que faz tala afirmação. È justamente esta a questão!


Não se pode ser professor por falta de opção, porque a mãe foi professora, porque gosta de criança, ou por qualquer outro motivo fútil e vazio. Não se pode ser professor, se és vazio.


É necessário acreditar naquilo que se faz. É necessário ter consciência da importância do ato de ensinar.


No magistério, eu comprava grandes brigas por ver pessoas sem (a menor) noção indo para a sala de aula. Isso me causava um grande desespero, por eu sabia o estrago que isso iria causar, e ainda causa. Pela felicidade do destino, nem todas as Normalistas 2003/2006 seguem lecionando (eu mesma, tenho outro trabalho, mas sigo lecionando em projetos sociais).


Para ser professor é necessário muito mais que uma letra bonita, criatividade nas artes, uma voz mansa, que ser chamado de “tio”. Ser professor é ser comprometido, é saber o que ser quer, o que se pode fazer e onde se pretende chegar. Ser professor é conhecer a precariedade da educação publica deste país e saber atuar nela. Ser professor é não se conformar com isso tudo. Ser professor é ser cidadão, é ter um compromisso com a sociedade, é saber que se forma “gente” e não massa de manobra. Ser professor é ser indignad@, é ser militante, é ser revolucionário, sem esquecer em momento algum que possui a maior e mais eficiente arma de revolução: a educação.
Eu me orgulho de ser professora, me orgulho do que faço. Não me atrevo a culpar o professor que tem tantas dificuldades de trabalhar devido a sua baixa remuneração, imensa desvalorização e imensurável violência a qual é submetido todos os dias. Vivemos em um país onde ser professor não é ser considerado profissional, onde não se visualiza a responsabilidade que lhe cabe. Ser professor não é ser movido por vocação, muito embora isso ajude muito. Ser professor é compromisso com o futuro.


O sábado foi muito especial, foi uma comemoração diferenciada pelo dia do Professor e pelas conversas imensamente ricas, de reflexão e de construção. Ouvir do Jonas, em pleno sábado a noite, um ‘eu acredito na educação’ fez o meu Dia do Professor mais feliz, fez o meu 15.O mais forte e fez da minha militância mais inspirada e fundamentada: a revolução é feita todos os dias, a cada recomeço, por diferentes motivos, nas nossas salas de aula.


"O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor" - Che Guevara


Por MARIA,L.P.

domingo, 9 de outubro de 2011

Nostalgia

Não poderia deixar de falar sobre isso.
Assisti ontem e hoje uma série de documentários especiais na MTV sobre Legião Urbana, em razão dos 15 anos de falecimento do Renato Russo.

Gostei (ainda gosto, mas não mais excessivamente) muito de Legião. Passei boa parte da minha adolescência curtindo as canções da banda. Até por isso, na minha última postagem, também nostálgica, de certa forma, falei das coisas que vivi e das pessoas que conheci nessa época - ilustrada com uma canção da Legião "O teatro dos vampiros".

Assumo que passei o dia na frente da televisão, assistindo as entrevistas, ouvindo e cantarolando as músicas, pensando,  lembrando. 

Acho que nostalgia é um algo bom. Dizem que 'recordar é viver', talvez seja mesmo. Nostalgia não é lamentar um passado, mas recordar dele sentindo o gostinho de que o que se viveu valeu a pena. Que vale a pena continuar vivendo, e que no futuro poderemos continuamente acessar essas memórias boas. 

Minhas canções favoritas da Legião eram Marcianos Invadem a Terra, Sereníssima, Metal Contra as Nuvens, As Flores do Mal, Os Barcos, Perfeição e Maurício. 
Nossa... na realidade são tantas que eu gosto!

Sim, o
uvir Legião Urbana me deixa profundamente nostálgica. 


Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Teatro dos Vampiros


Dedico esta ‘canção’ à minha amiga Andressa, que certa vez me disse que as vezes lia esse blog.

No fim de semana, estive sozinha em casa e me pus a pensar sobre muitas coisas, entre elas o passado, a vida vivida.
Almocei com uma tia, fui levar pra ela ver as fotos da minha formatura. Assim fiz a tarde, e fui visitar meu padrinho. Na volta, encontrei a Andressa, amiga que há muito não via. No domingo, almocei com um casal de amigos muito queridos. E tudo isso me fez bem, de alguma forma foi uma visita ao passado.
Sobre aqueles poucos minutos em que falamos, me recordei dessa canção.

Nesses minutos, me dei conta de como mudamos. São mais de dez anos. Mas a Andressa me disse que algumas coisas não mudam: ela continua anti-social, e eu extremamente sociável. Será mesmo?

Mudamos, crescemos, transformamos.
Mas ainda somos as mesmas pessoas. Diferentes, mas ainda somos os mesmos.







Para Andressa.


Teatro dos Vampiros (composição: Renato Russo)

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto.
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos.


Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.


Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.


Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.



Por MARIA, L.P.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quando não te acham bonita, ou quando não te acham bonita porque você é negra. Como saber?

Posto esse texto, pois como a maioria das pessoas, acompanhei a discussão virtual sobre a escolha de uma Miss universo Negra.
Honestamente, esse tipo de concurso não me interessa em absolutamente nada, pois acho que é o tipo de programa para desocupados, entretanto, a escolha de uma negra como a mulher mais bela do mundo, de fato, me deu uma pontinha de auto-suficiência. Quantas vezes nossa aparência é descaracterizada e diminuida pela nossa cor? Mas o que mais me incomoda é quando as pessoas ainda dizem 'mas tu nem é tão negra assim', ou 'tu não é negra, que isso, tu é bonita' ou ainda 'oi morena'.
Já passei por momentos em que isso contou, e muito. Lembro de quando um ex-maisoumenos-namorado simplesmente me largou do nada, e apareceu loucamente apaixonado por uma loira (em poucos meses estavam morando juntos, mas até duas semanas antes me amava?). Ou outro dia, uma pessoa com que eu (achava) que tinha uma boa relação, apareceu finalmente namorando, com uma loira. Algumas pessoas vão me dizer que é uma questão de sentimento, de gosto e bláblábláwiskasachê. Mas eu sei, que é muito mais fácil 'apresentar pra mãe' uma amorada branca que uma negra. O lado bom, é que isso vai afastando naturalmente esse tipo de sujeito, mas é f%&$ perceber que arrumam milhares de desculpas para não admitir o quão racista se é.

Por MARIA,L.P

Este texto está disponivel no blog ESCREVA, LOLA, ESCREVA.


GUEST POST: O RACISMO DE TODOS OS DIAS - COMO SABER?



A Capitã Amélia, que tem um blog, deixou um comentário poderoso no post sobre as declarações ultraracistas contra a Miss Universo e as negras em geral. Sabem, aquele que deixou tant@s de nós passando fisicamente mal. A resposta da Amélia nem é uma resposta. É ao mesmo tempo uma constatação sofrida e um tapa na cara do preconceito.


Esse tipo de coisa só não me choca apenas porque já vi e vejo isso.

Sabem, o que me assusta mais do que o que esses idiotas dizem em fóruns e blogs, é pensar que eu trabalho com eles, estudo com eles. Pego ônibus, esbarro no metrô. Compro deles, recebo atendimento médico! Aprendo, faço parte do grupo de amigos. Toco neles por um motivo ou outro. E nesse momento casual eles estão sentindo NOJO de mim.


Ou dó. Eles podem também sentir dó. Por presumirem uma condição a partir de um preconceito, podem interpretar incorretamente um sinal e sentirem dó, dó de mim que não tenho dó deles e lhes cagaria na cara, um a um.


Ou seja, enquanto penso que estou me relacionando de forma saudável com as pessoas, algumas dessas estão me avaliando, cada qual com um nível de racismo aplicado. Fazendo considerações sobre a minha beleza, que aparentemente não pode coexistir com a opinião delas nem com a consciência coletiva.

A mocinha do caixa do restaurante de repente não quer que minha mão toque na dela. Ou o médico já pensando que sou pobre e fodida, algo inerente a minha cor obviamente, me atende mais displicentemente.


Difícil saber com quem se está lidando. Saber qual rejeição é por sua chatice real e qual é por causa da sua pele. Quando não te acham bonita, ou quando não te acham bonita porque você é negra. Como saber?




Já imagino acéfalos refutando e dizendo isso é coisa da minha cabeça. Claro que é. Só que não fui eu que pus porque quis. O mundo não é como eu quero.


Acho normal que as pessoas se avaliem previamente, é natural, é instinto. Mas é foda saber que sua avaliação já sai prejudicada sem mal começar.


Acredito sinceramente que um dos gatilhos para a postura relativamente agressiva que adotei na minha vida é resultado desse receio. Porque já ouvi coisas feias. Hoje as pessoas não dizem mais como diziam (crescemos!). Esperam você virar as costas... só um pouco.


Mas isso me leva à infância. Esses comentários que ressaltam características genéticas étnicas como motivo de descarte imediato são feitos por pessoas com quem convivemos, as piores na minha opinião, aquelas que sentem caladas um desprezo secreto por você. E essas pessoas são os mesmos moleques da infância que diziam na tua fuça macaca. Os mesmos filhosdasputinhas que falavam de cabelo bombril, cabelo pichaim, duro. Que diziam a palavra preta com água na boca, babando, com intenção de ofensa.


Não, essas crianças malditas não foram dizimadas. Elas cresceram. Algumas livraram-se, acredito que até certo ponto, dessa visão equivocada, mas a maioria, ah, a maioria, a maioria... vocês sabem.


Perdoem o exagero, me empolguei, há tempos queria falar sobre isso... Costumo apenas ler... Aí, quando vou falar, dá nisso.

Disponível em http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/09/guest-post-o-racismo-de-todos-os-dias.html


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Respostas?

Já sem paciência, hoje ele me perguntou:
- Afinal, guria, o que tu quer?

Tosca, respondi:
- Honestamente, eu não sei. Mas vou continuar procurando.


Por MARIA, L.P.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sobre amar...

Estas são palavras da Prof. Nara Nörnberg, em entrevista no Cardernos IHU.

“Eu sou o intervalo entre o que eu gostaria de ser e o que fizeram de mim” (Fernando Pessoa)

Tive aula com a Nara no meu primeiro e no penúltimo semestre na universidade. Meio sem noção, meio anarquista, meio marxista, totalmente freireana, essa professora mexeu comigo em muitas das suas aulas. Compartilhamos muitas idéias, sobretudo em Teorias de Aprendizagem.
Muitos dos colegas achavam ela esquisita, mas era exatamente isso que me fascinava, ela não ser como os outros professores, que vomitavam por ai pedagogismos vazios e descolados da prática. Ela sempre se mostrou realista e honesta. Visceral é como ela se define. E eu concordo, mais do que plenamente.

Destaco da entrevista, o que ela fala sobre o amor:

Amor:
 Acredito que existem vários tipos de amor e amor é sempre amor. Eu entendo esse sentimento assim e é difícil você encontrar pessoas que compartilhem dessa ideia: o amor muda de forma. Muda-se a forma de amar. Eu posso amar uma pessoa sexualmente, espiritualmente, com fraternidade, incondicionalmente; posso ser apaixonada por uma pessoa. Muda a forma, mas o amor é o mesmo. Eu tenho um amor filial, tenho amor maternal. Amor é sempre amor e isso é difícil das pessoas entenderem. Por isso, acredito que não se ama uma só pessoa. E você pode amar muitas pessoas ao mesmo tempo. Sou partidária de que as pessoas vivam seus amores com a maior intensidade possível e com poucas amarras sociais. Penso que quanto mais livre a gente puder ser dentro de uma relação, melhor. Hoje, é preciso que alguém me convença de que é viável a construção de uma relação a dois. Só se eu conseguisse me manter livre, casaria de novo.


[...]

Eu não sei se sou uma pessoa para o casamento porque eu acho difícil amar uma só pessoa.


Nara Eunice Nörnberg
Leia na integra em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4064&secao=372


Posto estas palavras sobre o amor, por partilhar deste ponto de vista em diversos aspectos. E normalmente, é exatamente isso o que me enlouquece... e que faz realizada plenamente.
O anseio pela liberdade de ser, perpassa também a liberdade de amar e se relacionar com o outro. Há sim, várias formas de viver o amor, e nenhuma é mais importante e digna que a outra. Amor e amor, e pronto. Não se escolhe amar, ama-se porque é preciso!
Até por isso me considero um ser constantemente apaixonado.
Também tenho minhas dúvidas em relação ao casamento e a relações 'estáveis' por não ter certeza sobre a possibilidade de amar uma unica pessoa, como a outra pessoa quer, como a sociedade espera que seja.
Acho que o amor é uma coisa maravilhosa, mas ele vem carregado de muitas coisas, e sim, as amarras sociais nos aprisionam.
É preciso se libertar para poder amar.


Por MARIA,L.P.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Perdas

Creio que toda perda seja sempre triste e frustrante.


Perder algo de valor (seja simbólico, seja financeiro); perdeu um amigo de muitos anos de convívio; perder um amor, correspondido ou não; perder um ano, um mês, um dia.
Toda perda é sempre frustrante e nos causa uma profunda sensação de vazio. Acho que isso acontece com todo mundo, mesmo com aqueles que não reconheçam que sente falta de algo ou alguém.

Já perdi muita gente, e não pela morte, mas pela vida mesmo. E perder alguém pela morte, ao menos te traz a certeza do motivo pelo qual é irreversível, pois as vezes pessoas que perdemos ao longo da vida, também se constituem perdas irreversíveis. Mas o irreversível parece inexplicável frente a vida.

É confuso, mas perdemo-nos uns aos outros.

Dizem que a esperança é a última que morre, mas eu vou mais além. Creio que a fé seja ainda mais importante. Fé em Deus, fé no sagrado, fé no inexplicável, fé numa igreja/templo/religião, fé nas pessoas, fé na vida.
É claro, se considerarmos ateus pessoas sem qualquer tipo de fé, essa idéia não se aplica. Mas somente para aqueles que sempre foram ateus, e não para quem se tornou.

Acho frustrante a perda de algo/alguém, mas não existe nada mais triste que perder a fé.

A fé é o que nos move. Acreditamos quando lutamos por um sonho; acreditamos quando defendemos uma ideologia; acreditamos quando construímos algo para assegurar o futuro de alguém.
Quando não acreditamos, é simples. Não perdemos nada. Mas quando deixamos de acreditar, perdemos a razão.
Nos últimos tempos, tenho conseguido muitas coisas importantes, conquistas com as quais sonhei muitas vezes. Mas ao mesmo tempo, vejo minha fé se dissipar, mais vazia e líquida que o amor de Baumann.

Como nos versos de "A Fé solúvel" (O Teatro Mágico)...

"É, me esqueci da luz da cozinha acesa
de fechar a geladeira
De limpar os pés,
Me esqueci Jesus!
De anotar os recados
Todas janelas abertas,
onde eu guardei a fé... em nós


Meu café em pó solúvel
Minha fé deu nó
Minha fé em pó solúvel"

Tenho me sentido ligeiramente assim, sobretudo com essa parte...

"Tudo o que eu já salvei
E o tanto que eu vou salvar
Das conversas sem pressa
Das mais bonitas mentiras..."

De tudo, sempre fica muita coisa. Mas é triste, muito triste ver a tua fé ir embora. Quem nada possui, nada perde. Mas para quem possui e cultiva com amor, é muito doloroso. “Minha fé deu nó”.
Sei que perdi o que mais amo, mas agora é tarde... deu nó. Já foi, ela partiu. Adeus, minha fé.

Por MARIA,L.P.