quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Minhas revoltas, as quais espero que não sejam só minhas

Meu sentimento de revolta é imensurável e, incontáveis são os fatores que me causam esta revolta.
Na quarta feira (dia 22 de dezembro) a noitinha, meu pai e minha mãe se acidentaram de moto. Me revoltou o fato de ter feito diversas correrias, meu irmão e eu ao saber do ocorrido, e ainda assim chegamos ao local do acidente antes da ambulância que prestaria socorro. Me revoltou o fato de o meu irmão ter de ajudar a colocar minha mãe na maca, pois não havia médico socorrista, apenas o técnico em enfermagem e o motorista. Me revoltou o fato de ouvir o técnico dizer a minha mãe que reclamasse com o Tarcísio, pelos buracos nas rua, pelos quais a ambulância passava e a faziam gemer de dor, devido a várias costelas quebradas em razão do acidente.
Me revolta e me envergonha o fato de ter tido a oportunidade de passar a noite com a minha mãe na emergência do Hospital Municipal, devido ao fato da mesma não estar abarrotada, como de costume. Me envergonha o fato de ter mentido para os porteiros, para pode entrar e esperar a minha mãe sair do bloco cirúrgico.
Me revolta o fato de ver a minha mãe dividir um quarto de 2x4m com mais duas pacientes. Entretanto, uma ganhou alta na véspera de Natal, e outra entrou no seu lugar a noite, surtando desde então. Me envergonha ter de fazer um escândalo naquele hospital, e assim conseguir a remoção de quarto para que a minha mãe pudesse ter um pouco de sossego para se recuperar. Me envergonha ter conseguido um colchão ortopédico e confortável para a minha mãe, por conhecer “alguém” no hospital. Foi nesta noite que eu entendi aquelas pessoas que tanto eu criticava, que pagam para furar a fila de um atendimento no serviço público. Mas me envergonha ainda mais cogitar passar por cima da minha própria ética para ver a minha mãe receber um atendimento, no mínimo, de qualidade. Sem dúvidas, eu venderia a minha alma para ver ela bem e se recuperando com dignidade. Mas isso sim, me envergonha, pois não deveria ser assim.
Me revolta e me envergonha pagar um convênio de saúde privada, e não poder fazer o mesmo para minha mãe. Mas o pior, que o direito a saúde é garantido pela constituição... deveria, ao menos. Bom, agora felicidade também é direito garantido pela constituição: logo, posso processar o Estado por não ter esse direito devidamente assistido, não é mesmo?!
Esses últimos dias, não foram fáceis, muito pelo contrário, me sinto frágil e impotente. Me revolta estar impotente, e me envergonha viver em meio essa realidade.
Me revolta ter de escrever para mostrar esse meu sentimento, e me envergonha a ser a única a me manifestar.
Não me interessa comover ninguém, mas rezo a Deus que alguém faça alguma coisa, nem que seja escancarar a sua revolta, como eu.
Caríssimos políticos, hipócritas representantes da nossa sociedade que aumentaram os seus próprios salários. Saibam que eu não vou esquecer disso. Não mesmo.

Por MARIA,L.P.

2 comentários:

  1. Nossa Letícia!
    Que barra que vc passou minha amiga!
    Buenas, já tive como experiência esta mesma indignação que você sentiu (mas no meu caso em hospitais de Porto Alegre e de Cachoeirinha).

    É um absurdo sim, você perceber, o descaso dos médicos e dos funcionários em geral, causado principalmente pelas seguidas horas de plantão em busca de uma remuneração melhor.

    Estas instituições de saúde, muitas vezes esquecem que devem oferecer um serviço de qualidade à pessoas fragilizadas, ora por doença, ou acidente. E junto delas, geralmente os familiares, fragilizados também, pela impotência causada pela incapacidade técnica para amparar seus entes queridos.

    A gente sente mesmo.
    Puxa, se vc pudesse, ou se soubesse, eu sei que atenderia a tua mãe.
    Mas ficar amarrada, aguardando atendimento, é fogo. Ainda mais quando vem alguém ao seu auxílio (quando vem) é um sujeito não muito disposto ou cuidadoso a cuidar de quem vc ama.

    Se precisar estou aqui queridona.
    Estimo que seus pais já estejam melhores.

    Bjks, adorei teus textos.

    Ana Carolina

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  2. Oo Aninha!

    Foi um espisódio bem complicado. Lá em casa, a situação está melhorando, aos poucos fica tudo bem.
    Mas esta melhora não faz a situação mudar, e isso é essencial.
    Quero que as coisas mudem, pra melhor. Pra minha família e pra todas as pessoas que passam por situações assim!
    Beijão!

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