quinta-feira, 17 de junho de 2010

Reencontro

Tudo acabou em 08 de dezembro de 2006.

Geralmente as pessoas começam suas histórias pelo começo, mas a data final neste caso foi muito importante.

No início eram 35 meninas e um guri. E tudo era festa... como nos relacionamentos amorosos, no começo as coisas são sempre bonitas. Mas a rotina e o convivio com o diferente sempre destrói as coisas.
Éramos crianças, sem exeções. Tinhamos sonhos de crianças, almejavamos um futuro tal qual as crianças. Mas nos achávamos gente grande.

Lembro bem do primeiro dia no Colégio novo. Eu me sentia muito importante, afinal, havia feito a escolha da minha vida... ao trocar de escola, optando por um ensino privado, eu sabia exatamente o que aquilo significa para mim e pra minha família: eu me comprometia financeiramente com o meu futuro, pois agora estudar passava a ser um compromisso profissional. Quando a professora Rosângela nos perguntou porque havíamos escolhido o Curso Normal, eu disse "escolhi ser professora porque acredito na educação, só ela pode mudar a sociedade" e fiz das minhas palavras o meu próposito em lá estar.

Desde o início eu sabia o espaço onde estava me metendo, que não seria fácil ser eu mesma. E não foi! Lembro ouvir de algumas colegas "eu quero ser professora por que minha mãe é professora" ou "eu adoro crianças". Jamais pensei dessa forma, sempre acreditei na educação como instrumento de mudança, e que de outra forma não poderíamos ser instrumentos da mudança.

Durante os quatro anos como "normalista", vivemos muitas coisas, experimentamos novidades, quebramos a cara inúmeras vezes, contamos verdades, contamos mentiras, contamos causos. Muitas coisas aconteceram, pessoas entraram e saíram das nossas vidas, brigamos, gritamos, choramos, brincamos, cantamos, divagamos. Momentos não faltaram, pois, afinal, quatro anos na vida de um adolescente demora uma eternidade a passar. É incrível,porque olhamos para trás com certa melancolia. Mas quanto maior a nossa inocência frente a vida, mais fácil é encará-la. Entretanto, boa parte da minha inocência de menina, corrompi durante essa fase da minha vida. Até porque nunca me senti de fato como parte da turma, como sujeito no conjunto... eu era diferente! Minhas opiniões nunca combinaram com o tôdo, eu era sempre do contra. Claro, que algumas vezes, eu me posicionava contra pelo simples prazer de ver o conflito ser gerado (faz parte... rsrsrs), mas geralmente eu não me via representada, eu não me sentia "uma delas". Isso sempre me encomodou muito, até porque os maiores conflitos estavam em mim, e não na turma.

Hoje entendo meus motivos de conflito, percebo porque eu me sentia diferente. Eu sou diferente... segui meu caminho, como todas, mas eu não queria a mesma estrada que tantas tomaram, ela não era e não é pra mim... minha estrada é outra, mesmo que eu a tenha que abrir, com as minhas mãos. As experiências que tive oportunidade de viver durante a graduação me trouxeram grandes reflexões sobre as minhas experiências normalistas e sobre a minha própria existência. Ocupar o mesmo espaço de pessoas que sei que são diferentes que eu, não vai me tornar igual ou superior à elas. Devo ocupar o meu próprio espaço, mesmo que ele não esteja dedicado a mim, ou mesmo que as pessoas nem saibam que ele existe... eu tenho o meu espaço na sociedade, o meu espaço na vida!

Não sou mais uma menina boba e inocente no auge dos seus 15 anos. Essa menina se foi, já era, cresceu. Isso acontece com todos nós, e não podemos negar isso... Não somos as mesmas pessoas que éramos, em 2003, em 2004 ou em 2006. Graças a Deus, não somos o passado. Certamente ele, de alguma forma, nos alimenta, mas não podemos depender, nos sustentar dele. Melancolia faz bem, mas só pra dar um gostinho, deixar com água na boca! Mas o tempo faz com que nos tornemos outras pessoas.


Enfim, tudo termina em uma sexta feira ensolarada, que antecedeu uma noite quente. Todas, vestidas de preto, perfumadas e maquiadas. 25 jovens e um rapaz, professores, enfim. Foi um período das nossas vidas que findou, mas outras coisas que começam imediatamente. Quando recebemos nosso título de "professoras", reccebemos a notícia do vestibular... era mais uma estrada que se abria... talvez, com diferentes curvas para cada uma de nós, mas cada uma seguiu o seu caminho.
Ao final, tudo terminou em paz... apesar de eu ter dito palavras maquiavélicas ao pé do ouvido de uma professora que eu detestava por não acreditar em mim, me arrependo de não ter feito apenas uma coisa: mostrado a bunda na cerimônia! Isso sim, seria hostórico (oooo)!!
Brincadeiras a parte, mas passei por bons bocados nessa época, e por isso não sinto falta. Nem um pouco, nem uma gota. A melancolia é bem natural, mas é outra coisa... tive momentos maravilhosos, mas não viveria nada disso novamente.

Atualmente, não estou lecionando, trabalho naquilo que gosto, mas não abandonei a educação. Sou muito feliz em meu trabalho, sei onde estou e sobretudo, sei para onde estou indo. Essas possibilidades de reencontro trazem muitas lembranças a tona, e não posso evitar pensar e reviver esses momentos.

Ainda tenho as minhas palavras do primeiro dia de aula muito frescas na mente: "escolhi ser professora porque acredito na educação, só ela pode mudar a sociedade", continuo pensando isso, e tenho isso como valor. Ser professor é uma puta responsabilidade, e é preciso muita consciência para embarcar nesse desafio.

Vou esperar o tal reencontro da turma e ver o que acontece.
Se eu voltar viva, escrevo algo sobre. Se não, talvez alguém leia esse blog e tenha as respostas dos meus conflitos. Ou não.



Por MARIA, L.P.

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