sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fomos maus alunos (?)

Ontem a noite, minha turma de Teorias de Aprendizagem realizou mais um seminário de leitura de livro. Acho sempre essas atividades um porre, mas novamente me diverti um pouco... O último relato que fiz dessas atividades, foi em relação ao livro "Sobre a sombra dessa mangueira", do Paulo Freire.

O livro vítima de ontem foi "Fomos maus alunos", de Rubem Alves e Gilberto Dimesteim.

O livro é bem legal, meio "viajandão", mas é bom. Nele os autores contam suas experiências escolares catastróficas onde, afinal, eram maus alunos! Em relação a isso, achei fantástico, porque me identifiquei muito com tais caracterizações.
Os autores faziam distinção entre os bons alunos, que tiravam boas notas, prestavam atenção e se tornaram pessoas e profissionais insignificantes e os maus alunos, que eram os que não queriam nada com nada, que bagunçavam, não prestavam atenção, a turma do fundão... como eles. Certa altura do livro, eles falam que os professores os condenaram à derrota, pois eram pessoas péssimas e nunca "seriam alguém na vida". Fiquei refletindo sobre isso, na segunda leitura que fiz do livro, pois pude tirar muitas coisas pra minha prática.

Faço meu estágio com uma turma de sexta série, em uma escola pública da região: repetentes, adolescentes rebeldes e sem futuro. Cheguei com alguns desses pré-conceitos até o primeiro diálogo com um dos meus "maus alunos", que me disse:
-Tu quer ser professora mesmo? Perguntou o guri, com cara de decepção.
-Sim. Eu gosto muito do que faço, e sou professora há um tempinho, já dei aula pra crianças. Mas porquê a pergunta?
-Nada não. Mas é que tu parece legal, só isso.

Depois disso passei a ter muito cuidado com cada uma das minhas atitudes em sala de aula. Até porque eu sempre tive noção de onde estava me metendo. Quando perguntei aos meus alunos se gostavam de História, eu já sabia a resposta... mas também sabia o que fazer frente a ela. Eis ai a grande questão!
Então ontem, cheguei no estágio, dei boa tade e disse o quanto estava com saudade dos meus anjinhos... eles todos riram da minha casa e debocharam:
-Saudades, da gente?
-Anjinhos?
-Ih sora, que papo é esse...

E deixei o assunto no ar, até a hora em que entra na sala um professor qualquer, pra dar um racado. A turma estava dividida em grupos, pra realização de um trabalho de pesquisa nos livros que levei, mas o professor entrou em um momento onde eu dava uma orientação para a realização do trabalho:
-Nossa, como eles tão calmos! Diz ele surpreso.
-Não, eles são sempre assim comigo. Respondi irônicamente.

Ele deu um sorriso amarelo e saiu. Ai uma menina me disse que na aula dele todo mundo bagunçava porque não gostavam dele, por ser autoritário e estúpido com eles.
-Ta mas na minha aula vocês também bagunçam.
-É sora, mas só um pouquinho, porque a tua aula é legal.
Fiz de conta que não fiquei surpresa com aquilo e ri. Ela insistiu.
-Sério sora! Semana passada eu vim um dia só, ai teve feriado. Essa semana eu vim hoje pela primeira vez.
-Tá, mas por que isso, tu sabe que todas as aulas são importantes, tu não pode ficar sem vir à escola. Disse eu já preocupada com ela.
-Não sora, eu não vim porque eu não tava afim mesmo. Ai eu vim hoje porque a tua aula é legal, eu gosto de vir na aula da senhora. Ouvindo isso, senti a responsabilidade.
-Mas não eram vocês que não gostavam de História? Falei em tom ameno.
-É sora, só que com a senhora não é tão chato. É mais legal!

Depois desse diálogo, seguimos com a atividade. Quando voltei pra universidade, pro tal do seminário, vim pensando no que disse o Dimensteim "Afinal, o que deu errado?". Quando os autores falam nisso, eles comparam sua experiência escolar com os profissionais em que eles se tornaram. Um grande jornalista e um renomado educador. Ai lembrei do mês de abril, de 2006... fatídica data, quando a coordenadora do Curso Normal (o tal do Magistério) da escola onde estudei me "sugeriu" que me desligasse do curso enquanto era tempo, pois eu não levava jeito pra coisa. Aquilo me resgou por dentro, pois eu sempre soube que era uma aluna ruim, mas isso não dava à ela o direito de dizer que eu não servia para ser professora. Se eu era uma aluna ruim, eu era apenas o fruto de uma escola ruim, com professores tão piores que eu... a culpa não era minha. Minha atitude mais espontânea, no auge dos meus dezoito anos foi subir na mesa e dizer:
-Eu vou terminar esse curso, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida. Tu não tem o direito de falar assim comigo, porque eu sou uma boa professora e sei disso, sou muito melhor que tu, e vou te provar isso no meu estágio, porque eu vou ser a melhor, e eu vou me formar e tu ainda vai te arrepender de ter me dito isso.

No dia da formatura, eu estava muito feliz, pois havia recebido a notícia de que havia passado no vestibular para História. Quando ela entregou o "canudo", me abraçou e eu disse baixinho no ouvido dela "eu não te disse, eu sou melhor que tu".

As vezes dou graças a Deus por ter sido uma má aluna. Por ainda ser assim. Faço parte do fundão, mato as aulas pras quais estou sem paciência, contruibuo quando isso me interessa, vou pro buteco quando estou afim. Estou fazendo meu trabalho de conclusão e me formo em breve na graduação. Mas não vou parar por ai... Quando eu disse que era melhor que a minha professora, eu sabia da responsabilidade das minhas palavras, apesar do ódio que eu sentia naquele momento.

A minha responsabilidade é formar maus alunos. De gente "boa" o inferno tá cheio, e o senado também! To cansada de gente politicamente correta que não faz nada de útil. Quero gente que diga o que pensa, que se expresse, que questione a ordem, seja ela qual for.
Se fomos maus alunos, tudo bem. Se fomos bons, tudo bem também. Mas o negócio é saber o que fazer com isso.
Como disse a professora Nara ontem: um médico mata o erro dele, um professor deixa os seus vivos e sequelados... os erros dos professores andam por ai. O congresso ta cheio deles.

O bom de ser mau aluno, é que temos em quem por a culpa. Mas sobretudo, sabemos o que temos de consertar!


Por MARIA, L.P.

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